Júlio olhou para o homem sentado na sua cadeira de detetive. Tinha uma lembrança dele mais jovem. Mas também não sabia quanto tempo fazia. Ele viera a caráter. Negro e vermelho. E tinha uma aparência gasta. Cansada.

 

– Câncer –  disse o recém-chegado – eu sempre pensei que fosse ser alguma coisa envolvendo faca ou bala. E no fim só uma doença dolorosa no fim do caminho.

 

– Entendi.

 

– Não. Você só começou a entender – apontou para o objeto na mesa – isso aqui é um peso. O tipo de peso que procurou a vida toda. Acredita em mim. Isso não vai te fazer livre. E por isso eu vim te oferecer outra coisa.

 

– Por que pra mim?

 

– Porque tudo tem a ver com você, Júlio. Lembra quando nos encontramos na estrada? Foi nossa primeira vez e houve sangue. Dos dois lados. A conexão é profunda porque, depois daquele encontro, eles morreram. Ela morreu. E eu sei que foi por sua causa.

 

– Sou só um profissional fazendo meu trabalho.

 

– Como você sabe? Você não lembra e eu SEI.

 

Júlio sentiu pavor genuíno pela primeira vez em anos.

 

– Você sempre esteve neste escritório. Sempre fazendo a mesma coisa – continuou o recém-chegado – você fala com uma secretária. Ela é gostosa, eu imagino. Loira com inocentes olhos azuis. Mas tem alguém aqui quando você chega? Nunca tem. O que te motiva? Você ganha pilhas de dinheiro pelo assassino que é. E diz que é detetive. Mas raramente gasta esse dinheiro com algo além de sobrevivência e ferramentas de trabalho. O que te motiva? Do que está correndo atrás?

 

– Isso é problema meu.

 

– Não é problema seu se não lembrar. Quer lembrar? Quer lembrar quem você era antes?

 

– Que diferença faz?

 

– Você esquiva porque sabe que uma parte de você quer. E, acredite, eu teria passado pra alguém melhor. Mas você… tem tanto sangue em você… NINGUÉM mais merece isso.

 

Olhou para a máscara. Novamente.

 

– E o que você me oferece?

 

– Você sabe. Sua Alma de volta. Não apenas memórias ou restos de energia vital. Sua Alma. A pessoa que você era e o que fazia antes. Se aceitar, leva meu fardo junto. É pegar ou largar. Mas posso prometer uma coisa.

 

– O quê?

 

– Vai doer.

 

A mão de Guilherme foi rápida. Júlio esperara a espada e ele mesmerizara-o com palavras. Sem reação. Faca arremessada, como da primeira vez.

 

Sem problemas, um detetive deve…

 

Não. As mentiras acabaram hoje. A mão de Júlio puxou o revólver, o único que restava depois do mais recente trabalho, mas o impacto da lâmina no esterno o fez errar o tiro. A bala saiu por uma janela fechada. O invasor riu enquanto ele caia de costas e errava mais dois tiros.

 

Não conseguiu se levantar. Estranhamente. Não doía. Era só o peito furado. Tudo bem. Havia até um certo…

 

Torpor…

 

Relaxamento…

 

– Não – disse o outro – Sem saídas fáceis agora.

 

E as lembranças começaram.

 

Tudo começava numa manhã de sol. Numa rua cinzenta que brilhava naquela primavera. E grades prestes a se abrir.

 

.       .      .

 

– Você tem que entender que isso são delírios.

 

– Mas por que?

 

– Porque você não é um detetive.

 

– Eu descubro coisas. Eu descobri que a professora estava passando as respostas para…

 

– Isso não faz diferença, Julio. Você não tem autoridade para fazer essas coisas.

 

– Mas que autoridade? Que coisas? Eu só fotografei e expus. Como isso pode ser errado?

 

– Você foi expulso da escola. E agora está em tratamento. Tem pouco controle emocional.

 

– Mas ELA ia fraudar o resultado! ELA! POR QUE EU ESTOU AQUI?!

 

O jovem loiro, de cabelos longos, magro e de bonitos olhos azuis, se ergueu gesticulando. O médico controlou o medo, mas levou a mão ao botão.  O paciente relaxou.

 

– Preso… ela errou… ela fez errado… e ME prenderam…

 

– Você não está preso, Júlio. Está hospitalizado. Em tratamento.

 

– Quando vou embora?

 

– Você tem um problema. Vai embora quando ele melhorar.

 

– Eu não acho que eu tenha um problema, doutor… isso é tortura…

 

– Você precisa admitir o problema pra resolvê-lo. Ou não sai daqui tão cedo. E não é tortura, é só…

 

– É. Tratamento. Vocês me dão drogas e choques no cérebro. E chamam de tratamento e…

 

Deu um pulo.

 

– Tira a mão de mim, seu homem nojento! Eu sei o que você quer! Quer mas NÃO PODE!

 

No instante seguinte, o médico apertou o botão. A campainha trouxe os enfermeiros. O jovem se retorcia no chão e ria, ria, ria…

 

.        .        .

 

Quando acordei, tinha uma sensação estranha. Era como lembranças de choro. Olhos vermelhos e fungões. Patético. Estava algemado numa salinha da polícia. Acho que tinham me dado drogas. Voz enrolada. Não conseguia levantar meus braços. Algemas na cadeira.

 

– Isso não é necessário – disse a médica – ele está totalmente dopado. Tira essas coisas.

 

– Você é quem sabe. Mas ele é perigoso. Um grito e eu estou ali fora. Quinze minutos.

 

Ver o homem de cassetete abrindo os grilhões me trouxe a lembrança de que ele já o usara para massagear meu ventre. E a dor ao me mexer. As lembranças voltavam. As do presente. Polícia chutando a porta. Tudo bem armado. Filho da puta.

 

– Bem… encontraram você numa sala comercial que não está em seu nome. Invadida. E havia um cadáver lá.

 

– O filho da puta morreu?

 

– Sabe o nome dele.

 

– Não. Quer dizer, sim.

 

– Pode me dizer.

 

– Caveira.

 

Houve um silêncio constrangedor. Ela continuou.

 

– Bem… seu amigo Caveira… ele tinha uma doença terminal. Morreu em consequência dela. Mas parece ter uma briga terrível antes. Ele estava bem ferido. Ou fora recentemente abusado. Torturado. O que você sabe sobre isso?

 

– Ele chegou lá andando. E me jogou uma faca. Eu só tentei me defender e falhei.

 

– Seu ferimento não era profundo. Pegou exatamente sobre o osso do peito e não atravessou. Mas ele…

 

– Tiros. Acertei algum?

 

– Hmmm. Pode me explicar a situação?

 

– Qual é meu nome?

 

– Você não lembra?

 

– Quero que você me diga… por favor.

 

– Bem, nós não sabemos ainda. Se você puder nos ajudar.

 

– Isso explica esse mole todo. Não sabem quem sou eu.

 

Foi para desnortea-la. Levantei-me de súbito. Chutei a mesa, mas não pra machucar. Ela gritou e o guarda entrou. E me encontrou torcendo o braço dela com a outra mão em sua traqueia.

 

– Você não grite. Ou eu te esmago a traqueia. E você me dê sua arma. Ou eu esmago a traqueia dela. Se tentar atirar eu mato os dois.

 

– Larga isso, CAVEIRA!

 

– Vocês pensam que eu sou aquele psicopata que sai pra matar pessoas DE GRAÇA?! Vocês me dão nojo. Me dá essa arma ou ela morre!

 

– Não cooper… guuucchhh…

 

– Vermelha. Ela tá ficando vermelha, seu guarda. E do jeito ruim, não do jeito bom. Tem uma câmera ali e isso vai pra tua ficha. Ou pra internet. Covarde. Cagão. Covarde. Ou atira em mim, aliás, em nós. Ou então larga essa porra no chão e vai embora. Volta com uma anti-tanque, se quiser. Vai!

 

A arma quicou no chão e o guarda saiu. Joguei a doutora pra trás. E apanhei o revólver. Enfiei a cadeira bloqueando a maçaneta. Então comecei a sentir cutucões. Quando relaxei, percebi que eram dor. Ela me batia. Eu a empurrei. Sou um profissional frio e não faço essas coisas por prazer.

 

– Ei, relaxa. Eu não faço essas coisas por prazer. Mas não posso ir pra cadeia. Eu não vou te machucar. Nem fazer nada que você não queira… exceto te obrigar a me ajudar a sair daqui.

 

Ela não parava. Depois do terceiro tapa no rosto eu apontei a arma e ela se acalmou.

 

– Pronto? A gente não pode dar tempo deles pensarem muito. Foi!

 

Puxei a moça e botei ela de escudo de novo. Chutei a cadeira e o novato entrou. Azeitona na cara. Hahahahaha! Ah… não dá pra dizer que não é divertido!

 

Corremos pela parte do prédio que parece mais um escritório. Eu só gastava as balas em quem ficava na frente ou pra fazer barulho perto de quem gritava mais. E ria mais alto. Acho que só bem perto da morte dá pra se sentir tão vivo.

 

Na rua, joguei ela na frente de um carro lento. Um bom homem parou, assustado, e foi ajudar ela a se levantar. Eles sempre prestam atenção no problema errado.

 

– O que aconteceu com a senhora!?

 

– Isso – não mostrei a arma até estar perto o suficiente. Ele teria corrido. Mas não podia gastar balas. Dei uma coronhada no rosto e chutei ele de mim. Deixara as chaves na ignição. Graças, Pai, pelos homens que não são mesquinhos. Que tenham um lugar de honra no banquete do Valhalla.

 

A primeira bala passou zunindo entre nós. Apontei para a doutora e disse.

 

– Entra no carro. Eles não ligam mais pra ti. E eu preciso da senhora. Foi!

 

Dirigi para longe. Até descerem, entrarem nos seus e começarem a nos perseguir eu trocara de carro duas vezes. Pelo que me lembro. Memórias são uma confusão dolorosa e desnecessária.

 

.           .           .

 

Os cabelos dele estavam curtos e acinzentados quando ele saiu. E a inatividade e as  drogas  o fizeram ganhar peso. Palidez e olheiras fundas. Seus pais o aguardavam de carro. Voltaram para o apartamento.

 

– Meus pôsteres! – disse ele. Não tinha mais raiva pra sentir. Só tristeza.

 

– Não faziam bem pra você, filho. Todas aquelas coisas horríveis.

 

Ele desabou na cama e chorou. Urrou quando tentaram consolá-lo. Depois vieram lhe trazer a medicação. Ele não tinha mais escolha.

 

.           .         .

 

Acorde!

 

Três da manhã. Vulto escuro no quarto. Cara de caveira. Morte. Fantasmas.

 

( excitação – aventura- horror – ação )

 

– Tudo fantasia…. eles disseram… tudo delírio… não está lá…

 

Curvou-se sobre a cama e viu um pedaço da bula do remédio. Um papel. E, movido por uma estranha intuição, engoliu-o. Pensou em todas criaturas nojentas que poderia haver num quarto. Rastejantes. Curvou-se sobre a cama e tapou o som o melhor que pode. Não tinha mais chave no quarto e tinha grade nas janelas. Aquilo ali era uma cela, e não seu quarto. E deixou o vômito vir.

 

– Menos drogas. Melhor.

 

Ficou em pé. Ouviu os pais se mexerem no outro quarto. Eterna vigilância. Ficou em pé. Parado. Dormiram de novo. Ele olhou pela janela e esperou. Amanheceu, eventualmente.

 

Era difícil. Mas não era impossível escapar.

 

.            .           .

 

Acordei do devaneio. Andavam frequentes. E agora? O que fazer?

 

Era um hotel sujo e barato. Na verdade um motel, no sentido sexual da palavra, e nenhum de nós tinha muita escolha. Nem eu, nem ela.

 

– Fique tranquila. Só preciso de um tempo pra pensar e remendar qualquer ferimento que não tenha sido notado antes. Meia hora no máximo. Não tenho esse tipo de interesse na doutora…

 

Ela olhou para mim. Olhos negros dardejando de ódio sob uma franja loira. Eu não entendo como ela podia ser tão ingrata. Estávamos os dois vivos e soltos. E ela era uma das pessoas responsáveis por me manter preso. Tem gente que não sabe a sorte que tem!

 

– Teu nome.

 

– Paula.

 

– Ok. Não quero sobrenome. Também não vou dar muita intimidade. Quando sentir que posso confiar, eu vou te soltar. Viva e livre. E intacta. Acredite… isso é mais do que muita gente tem. Mais gente do que você imagina. Agora caminha na frente, sorria, faça de conta que está gostando. Eu falo com o gerente.

 

Boa atriz ela era. Depois de bater a porta e bufar alto, se tornou a mulher mais sexy do mundo.

 

.           .           .

 

– Bem, o celular ficou pra trás. Você ganha bem e pode comprar outro. Agora eu preciso me acalmar e pensar. Tem remédios na sua bolsa? Do tipo que iam dar pra mim?

 

– Sim.

 

– Tome e me convença que está dormindo. Não me obrigue a verificar se está. Mulheres  são bem mais resistentes à dor que homens. Um tapa nos meus lábios mostraria se eu estou dormindo ou não. Talvez de você eu tivesse que tirar um dente.

 

Acho que só então ela teve medo genuíno. Compreensível. Inconsciente e sem reação na frente de um estranho com total poder da situação. Uma bosta. Mas não dava pra aliviar. Levantei a arma em direção ao seu rosto. Cadáver a mais ou menos?

 

Cadáver a menos. Ela tomou e dormiu.

 

O gerente era diferente. Eu tinha prometido pra ele pagar adiantado. Vasculhei a bolsa da médica e ela não tinha o suficiente. No caminho, percebi uma perturbadora ausência de câmeras no corredor. E também na recepção. E eu normalmente DETESTO câmeras. Porque aquilo me perturbava?

 

O gerente gordo e seboso não estava. Era gerente e recepcionista. Golpeei a campainha. Ele voltou de mau humor.

 

– Trouxe teu dinheiro.

 

Joguei as notas.

 

Ele olhou com nojinho.

 

– Aí não tem o sufici…

 

Olhos baixos pra grana. Mais baixo que eu. Sopa. Coronhada no topo da cabeça. Caiu fazendo algum barulho. Pulei por cima do balcão e aterrissei com dois pés em cima dele. Um amador teria chutado. Mas sou um profissional. Golpeei o crânio com meu calcanhar até haver estalos e sangue. Certeza. Um profissional tem que ter certeza.

 

Comecei a procurar a cãmera escondida. Havia uma cortina vermelha com  pretensão de elegãncia no fundo. Ouvi algo que lembrava um rato se mexendo e puxei.

 

A menina, na cama de solteiro que havia na outra câmara, levou um susto. Puxou o lençol e se cobriu. Olhei para o corpo no chão, do gerente, e senti raiva. Como assim? Era DE MIM que ela tinha medo?

 

Apontei a arma. Nada contra. Testemunha viva é homem morto. Eu. O homem morto. Ela fechou os olhos e chorou. Bem… melhor assim…

 

Não.

 

Foi quando percebi que, mesmo morto, o filho da puta do Caveira tinha me feito um estrago enorme.

 

Um detetive tem que ser frio. Profissional. Não se envolver. A polícia tinha interpretado tudo errado. Achava que eu era o Caveira. Eu iria para um sanatório…

 

(DE NOVO!)

 

…e aquilo é pior do que a prisão…

 

…porque pouca gente vai…

 

…daí não sabe…

 

…quase livre, contanto que você confess…

 

…entiras…

 

NÃO!

 

Voltei ao normal. O melhor possível. E eu ainda não conseguiu atirar. Por quê?

 

–  Te veste, por favor – me virei de costas – Eu vou te tirar daqui.

 

.          .          .

 

– É um sujeito meio conhecido no submundo. Já matou mulher e criança e todo o  resto. A gente meio que perdeu a conta. O nome é Júlio Hertz, ou é o que ele diz, mas tem pouca documentação sobre ele. Mas é um assassino. Só que é maluco. Se diz detetive. Faz coisas pavorosas…

 

– Tipo sádico, assim?

 

– Não, seu guarda. Pior que sádico. Ele não sente NADA. Sádicos sentem algum prazer com o que fazem. Você deve ter gente assim com você. Mas a única satisfação do Hertz é completar o trabalho dele. Que quase sempre é localizar alguém e matar.

 

– E como é que um maluco desses tá vivo?

 

– Como disse… ele é bom no quer faz. Bom demais. Justamente PORQUE não tem limites. Uma vez que você o contrate e acertem o preço, ele vai até o fim. Ou morre tentando. Até a gente achou que um dia ele já tinha morrido. Mas ele voltou. Meio ruim de saúde, mais magro e com cicatrizes novas. Mas voltou, como um…

 

– Fantasma. Faz sentido ele ser o Caveira. Faz bastante sentido. É louco suficiente pra ter…

 

– Uma dupla personalidade.

 

– Eu ia dizer identidade secreta. Eu vou indo, te cuida.

 

O policial apagou o cigarro e guardou-o no bolso. Estava sem a farda. Assim como o estivador, amigo e infância, estava fora do armazém sete. E o armazém fechado. Nenhum dos dois  trabalhava.

 

Cada um foi pro seu lado. Notícias que se espalhavam.

 

.          .          .

 

Toda história começa em algum lugar. A minha começa, se eu tiver que colocar um sinal, na saída de uma escola. Eu ainda estava de folga. Tinha mais uns dias antes de voltar as aulas. Andara doente. Longo tempo em hospitais e exames dolorosos. Tratamentos caros. Recuperava a saúde. Estava mais forte, até, do que antes. Fazia exercícios que não fazia antes. Cabelo mais curto. Já era claro, mas o stress o clareara mais. E eu o pintara de negro.

 

Os dela eram negros naturais. Mas era pálida como eu. Apesar das  sardas e dos olhos verdes que eu amava. Verdes de esmeralda.

 

– Ho! – gritei, porque o nome dela era Estella, e de uma brincadeira de aula de línguas, Estela virou Estrela, Estrelinha, Estrela da Esperança…

 

– Você ainda me chama de Hope? – ela sorriu, se aproximando de mim. Pelos olhos vermelhos eu vi que chorara recentemente. Fantasiei que fosse por mim.

 

Nunca fui o aluno mais popular. Apesar de sermos todos de classe média ou mais. No mesmo colégio tradicional. Último ano antes da formatura. E depois todos me evitavam. Menos ela. E se já a amava antes. Mesma idade, mesmo cérebro, mesma sensibilidade para o que é mais sutil na vida. Almas de poeta numa época muito pouco romântica. E, como todo amor juvenil, Hope era jovem.

 

Jovem demais para o que aguentava em casa.

 

A raiva era automática.

 

– Ele fez de novo? – perguntei.

 

– Sim… – ela não conteve as lágrimas. Mas mordeu os lábios e me abraçou. De costas para a turminha era piedade com o melhor amigo. Mas senti os soluços em meus ombros. Encarei a turma com o desgosoto que sempre me causavam estampado. E baixei a cabeça. A franja negra encobriu meus olhos. Minha lágrimas molharam a escuridão natural da cabeça dela.

 

– Pára! – disse ela, se afastando, orgullhosa – Não quero falar disso aqui… olha só… me encontra lá no nosso lugar. No bar. Eu… acho que vou pintar o meu cabelo hoje. Até as quatro. Beijo, Júlio, te cuida.

 

E ela saiu. Rindo de novo. Alegre com o pessoal com quem aprendera a fingir meio bem demais. Mas eu conheço a dor quando a vejo num rosto jovem demais. Jovem demais pra morrer. Pra morrer ou pra ficar nas mãos do bosta de um irmão mais velho que, já na faculdade, deveria saber que homens não fazem certas coisas com as irmãs mais jovens.

 

Começou a tocar uma canção famosa sobre uma garota que apanhava do namorado. Tudo muito sútil. Ninguém se dizia romântico, mas era, de fato, uma letra muito romântica. De letras de música que pareciam sobre amor e eram sobre…

 

.          .          .

 

Um tapa da dra. me acordou. Eu me levantei tirando a arma debaixo do travesseiro pronto pra espalhar um resto de rosto dela na parede oposta. Mas ela gritou na mesma hora e, junto com isso, um estampido fez uma bala atravessar a porta e quebrar um vaso atrás de nós.

 

Já éramos três. A doutora, que dormia abraçada com a menina na cama, eu no chão, e os nossos amigos que se postavam na porta. Conhecidos do gerente ou dono daquela espelunca, aposto. E apesar de eu ter escondido o nosso amigo bem enrolado numa cortina de plástico no mesmo banheiro em que dormíamos, eu imaginei que ele tinha algum amigo que faria o diabo se ele não estivesse em determinada hora, local ou sabe-se lá com aquela menina.

 

E a menina gritava no meio do tiroteio. Mas o amigo do dono do hotel que estava prestes, ou já fizera isso, a violá-la, atirara pelo menos uma vez contra nós ao ouvir o grito de mulheres. Então fiquei de costas retas no chão, onde antes dormira e apontei para a porta em linha reta. Comecei a apertar o gatilho sem parar. Não sabia direito onde eles estavam, mas uma saraivada de tiros baixos deve ter pego na cintura, pernas, coxas, joelhos, meio das e um pouco acima de alguém. E pelo visto eram vários. Porque ouvi uma confusão de gritos e um deles saiu correndo. Dei mais um pra assustar e então percebi que um deles fora atingido e ainda estava em pé. O corpo tombou e lá ficou, mas eu fiquei sem balas. Apenas passos solitários sumindo lá fora. Sons de corrida.

 

– Vai ter sirenes aqui logo, logo – disse eu levantando – pega a menina e o que tu precisa e eu vou dar um jeito no resto.

 

Uísque barato usado como sedativo. Fio elétrico de um abajur destruído cortado com uma faca afiada. E então tudo pega fogo numa cama de um hotel imundo onde o dono prostituía ou explorava sexualmente e estuprava…

 

Que idade ela tinha? Qual o nome da…

 

– Foda-se – resmunguei, permitindo-me um palavrão na frente delas. Que adiantava incendiar o lugar?

 

E então abri a porta com a faca na mão. Eram só dois. No escuro e atrás de uma porta parecem sempre multidões. Aterrissei com o calcanhar na traqueia de um deles que ergueu a mão, como se pedisse ajuda. Devia pensar que eu era policial. A câmera do corredor já vira tudo. Provavelmente já vira demais. E aquelas imagens não iam pro bom tipo de policial. Então dane-se e…

 

– E dane-se de novo! –  e meu calcanhar e sola da de sapato fez creck sobre um crânio de um homem já sufocando. E então corremos.

 

Outro hóspede tentava alcançar um carro. Ia na frente, ele e e moça uns vinte ou trinta anos mais jovem – difícil saber nessa época de moças precoces e velhos bem conservados, mas mesmo um revólver ou pistola descarregados servem pra algo.

 

– Calma, cara, eu não fiz na…

 

– Não estou acusando – disse eu enquanto ela gritava e colocava a mão na boca e eu atingia a testa com uma coronhada – só quero  isso aqui!

 

Ela correu, só de calcinha, os seios desnudos, pra auto-estrada, e eu catei as chaves do carro do homem caído.

 

– Entra! – falei para a mulher e a menina e elas mergulharam no interior do veículo – Não! A senhora dirige! Leva TUA FILHA no banco da frente. Eu estou cansado…

 

E mergulhei eu no banco de trás.

 

– …e tô cansado. Me deixa dormir até um lugar melhor que essa espelunca.

 

Só a menina ainda chorava. Por que? Por que ainda não era adulta. Só pensava que era.

 

As sirenes, pra mim, já eram cantigas de ninar. E o carrou cantou pneu antes que elas chegassem.

 

.     .     .

 

 

Algum tempo depois a menina chamou com sua voz doce e tocou a campainha. Uma filha adolescente – qual era a diferença ali? 15 pra 13? – atendeu a porta, numa casa bonita numa pequena elevação. E doutora veio segurar meu braço quando o homem da casa veio ver o que a nossa família queria. Mas eu estava sem balas e disse apenas:

 

– Entra e cala a boca. Ou atiro nelas antes.

 

– Quem é, querido? – uma esposa lavava a louça.

 

A filha me olhava hipnotizada. E quem levantará da TV irritado? Um homem que agora chorava. Adoro ver um covarde gemer. Bati e amarrei ele antes. A médica apontou o revólver do dono do hotel para para todas as outras e mandou não interferir.

 

E entramos. Casa adentro na escuridão. Perdera a conta dos carros. Mas acabava de amanhecer.

 

Sem escritório, nome fichado na polícia, grana ficou pra trás.

 

O que mais eu tinha a perder?

 

Foi meu último pensamento antes de socar a boca dele mais uma vez.

 

– Vê se para de chorar antes que alguém morra!

 

E então ele desmaiou.

 

E eu de cansaço, no sofá:

 

– Cuida de tudo aí, doutora… que filme massa!

 

.        .       .

 

– Julian! – disse ela sorrindo. Era uma das poucas que não errara jamais meu nome.

 

Tinha cabelos loiros agora.

 

Hope.

 

E descera da  moto daquele crápula pra me ver. Ela. Cheia de vida. Motoqueira. Tinha já dezoito anos? Certo que não. Não era uma repetente como tantas outras gurias burras e…

 

.       .       .

 

O telefone toca. Eu tento atirar. Sem balas. Sem armas.

 

– Cadê elas?

 

– Trancadas num quarto – responde a médica.

 

– Paula? – aponto para a menina.

 

– Sou a Marina.

 

E ela leva um tapa da doutora.

 

– Quietas as duas… me deixa pensar… Paula e Marina. Ok. Júlio é comum também. Não vão nos achar nessa casa… por um tempo. Mas eles sempre vem atrás.

 

– Eles quem… Júlio?

 

– Polícia. Enfermeiros de Hospício. Guardas e barbeiros de prisões e… quem se importa? Sempre me perseguindo. Sempre perseguindo todos nós e vocês também, agora. Dizendo que eu fiz o que não fiz e que não devo…

 

Paula chorava. Marina se agarrou a ela. Olhos gelados de medo em mim. Me levantei, algo ofendido:

 

– Ei! Eu…

 

Calei-me. Era com elas o problema. Assunto meu não.

 

Consultei a geladeira. Cheinha. Peguei qualquer refrigerante mais bonito e três copos. Sem mais bebida pra mim. Salame, copa, queijo. Trigo te deixa lento. Mas precisava de…

 

– Proteína e gordura. E algum açúcar pra energia. Venham quando quiserem. Tem pão lá. Quando eu comi pela última vez?

 

Ela tentou pegar meu copo, mas era um truque.

 

– O frasco. Me dá?

 

– Júlio, o que…?

 

– O frasco ou você come com o rótulo e cada uma delas. Das pílulas, Marina. Onde as outras estão? Você, o frasco e você vai cuidar delas. Pode pegar a arma. Tá sem balas mesmo.

 

Marina saiu, rindo. E a doutora me entregou, com raiva, a medicação. Joguei na lareira.

 

– Acende o fogo, por favor, querida. Drogas fazem mal.

 

Comi e bebi como um príncipe e em paz. Ou seja, numa mesa e sem ninguém querendo me matar JÁ.

 

Sem sono, sem fome, descansado. Hora do plano.

 

– Júlio.

 

– Fala, Paula.

 

– Você precisa confiar em…

 

– Não começa.

 

– Cala a boca!!! Olha só… tem uma família de refém. Assustada. A rua tem câmeras. E eles tem vizinhos. Essa casa nesse morrinho nem cerca tem. Mas o pessoal… rua calma, fria, ensolarada. O que o povo faz passeando de cachorrinho quando se cumprimenta na rua?

 

– Fala. Entendi. Fecha as cortinas. Até então, somos só visita. Feito.

 

– Se você matar eles no porão eu agarro a menina e grito.

 

– Qual delas?

 

– Ora, a …

 

– A refém ou a que tiramos do pedófilo?

 

Ela urrou e começou a fechar as cortinas comigo.

 

Pouco tempo depois estávamos diante da família no porão. Paula e Marina se encolhiam atrás de mim, e eu cheguei diante de um homem amarrado e surrado, numa cadeira velha e de uma mulher e uma jovem que estavam livres.

 

– Você – apontei para a garota – é evidentemente mais esperta que seus pais acomodados. Você vai acompanhar a Marina andar acima, juntar tudo que é documento de vocês e voltar, enquanto os adultos conversam. E estou confiando em você, gatinha, vão as duas e podem conversar. Mas cuidado que minha garota atira bem. Não se machuquem ou eu vou ter que me envolver.

 

Olhei para o homem.

 

– Se gritar, eu corto seu pinto fora, o.k.?

 

Só adultos ali. Arranquei a fita de sua boca e puxei as meias que ele tinha entre os dentes. Dei um tapa.

 

– Tosse baixo aí, faz favor? Bem… escuta, então, moção. Funciona assim, aqui entre adultos. Eu vou pegar todos os papéis dessa casa. Se aprontar pra mim, vou saber como te achar. E quando a polícia te pegar, o esquema é o seguinte… essa médica me ajudou a fugir da prisão, onde eu estava por um crime que não cometi e eu salvei aquela menininha, a Marina, de um lugar de prostituição infantil. De uma porcaria de um hotel furreca que…

 

– O nome era Safas Motel – completou Paula.

 

– Isso. Você lembra disso?

 

– Sim, sim senhor.

 

– Notou que as duas são próximas de idade?

 

– Sim, tudo que você quiser.

 

– As duas ficam. Aquela arma tá sem balas. Eu vou pegar a chave do seu carro e você não vai me aprontar nenhuma. Explique você pra polícia como foi que ela veio parar aqui. O resto da história é com eles. Tchau.

 

Lá em cima, as duas se olhavam, cúmplices e uma delas me estendeu uma resma de papel.

 

– Fiquem bem as duas – disse eu – tu tá no comando, moça – apontei pra menina armada. Ela bateu continência sorridente – desçam lá e cuidem do resto.

 

A doutora me olhava meio pasma. Eu sempre pensei rápido. Ela é que não sabia. Apontei para a porta e corremos.

 

Carro melhor e nenhuma arma. Adieu.

 

.        .         .

 

Dá pra acreditar? Quando paramos no próximo posto, ela ria.

 

– A cara dele! A cara de pavor dele! Meu pai fazia bem igual! Hahahahaha!

 

– É, doutora. Assim é todo o homem que pensava que era valente até ver a morte estampada no rosto de outro.

 

Ela ficou séria. Depois explodiu em gargalhadas de novo.

 

– Por favor… é Paula… sim, não é o meu nome verdadeiro, mas… me chama de Paula.

 

– Então… eu me chamo… Júlio. Eu já disse isso?

 

– Já. – ela tinha olhos doces. Lindos. E, por algum motivo, me desagradaram.

 

– Vamos deixar o carro aí e entrar no próximo ônibus com uma desculpa qualquer.

 

– Eles não deixam.

 

– Eles quem? Somos um casal com aparência decente. E motoristas, como todo trabalhador, ganham mal. Ele vai aceitar cem barões ou mais pra levar duas pessoas cujo carro quebrou. Está tão cansado que talvez faça de graça.

 

– Dá tempo de eu ir ao banheiro?

 

– Sim, mas… bom, vai.

 

Observei-a correr até a lojinha de conveniência. Se ela traísse minha confiança, como sempre, eu perceberia antes. Daí era só a rotina de sempre. Tinha um sujeito com dois meninos gritando no banco de trás. Descendo com raiva e uma esposa entediada. O que são mais quatro cadáveres nessa pilha de horrores chamada mundo?

 

Ali onde estávamos era uma região onde o terreno aplainava aos poucos, deixando as colinas para trás. Ao mesmo tempo, dava para ver as trilhas infinitas de cercas de arame. Ao longe, um céu azul-cinzento e gelado. E um sol que se escondia atrás de nuvens que rodopiavam, Mas brancas demais para chover.

 

.          .          .

 

O ônibus veio e ela não chegava. Mas tudo bem. Havia um plano B para caso não saísse de casa. Afinal…

 

Era melhor não serem vistos juntos. Ele esperou o mais que pode. E depois se afastou. Garagem. Mecânico. Ela lhe dera aulas de motociclismo. Tudo que queria era ir embora.

 

Ele ia lhe ajudar nisso.

 

– Oi, Pedro.

 

Pedro deu um pulo, estava abaixado, mexendo numa moto.

 

– Ah… oi, Julian, tudo bem?

 

Nem se levantara por ele. Mas hoje todos aprenderiam.

 

Chegou por trás e encostou o cano gelado do revólver na orelha dele. O moço deu um pulo derrubou a moto. Depois, ao virar-se, Júlio apontou para seu nariz.

 

– Não grita senão morre. Traz outra moto. Uma que seja tua. E com os documentos. Tô esperando aqui.

 

Pedro nem discutiu. Ele tinha mesmo fama de louco já. Fechou a janela, a porta de correr e respirou aliviado que ninguém viera para a rua. Tomou as chaves e perguntou.

 

– O que aconteceu com a moto?

 

– Roubaram, né?

 

– Lembra que cor de cabelo eu tinha?

 

– Não.

 

– Nem eu. Pintei faz tanto tempo. Tchau, Julinho.

 

Chamara Pedro pelo seu próprio apelido. Mensagem mais clara impossível.

 

.          .         .

 

No banheiro, trancada, ela chorou e tremeu. O pânico saindo em forma de medo. De pavor. De pânico de novo. E então o alívio..

 

Vasculhou na bolsa atrás de um cigarro e…

 

Celular. O celular da mulher. Era sua chance.

 

Mas deteve-se. Algo estava errado ali. O que exatamente ele fizera com ela? Ok. Ele a sequestrara e isso era horrível. Mas as duas crianças, mais a dona daquela casa… estavam bem. E fora apavorá-la, ele não fizera nada fora do comum. Diziam que ele matava pessoas.

 

Mas além de ser para sair da cadeia, onde ela sabia como as coisas funcionavam…

 

Não. Não podia ser. Se ele não era o tal do Caveira, era pelo menos um psicopata. Tinha que ser. Afinal, de que outra forma e por que ele teria um paciente de câncer agredido em casa?

 

.            .           .

 

O doente tossiu como um doido e cuspiu uma bola de muco e matéria orgânica em decomposição. E enfermeira recolheu num balde e o médico disse.

 

– Leve para a análise. Inacreditável! Ele chegou aqui… morto, praticamente.

 

.        .        .

 

Tobias, o investigador, chegou até a cena no motel. Fizera barulho demais. Logo, alguém fora chamado pra fazer de conta. Mas Tobias não fazia de conta e, sorte ou não, o chamado era da mesma DP que ele. E vieram juntos. Porque, sim, era o mesmo carro que alguém alegara ter sido roubado por um casal de malucos.

 

Uma linha de carros roubados e corpos no caminho daquele homem sem nome. E, além disso, uma menina sequestrada.

 

Uma que ninguém sabia de onde vinha, mas cujas fotos indecentes se espalhavam pelos  fundos de uma cortina de veludo azul sobre uma parede caiada e suja, com outra cortina de veludo na frente, cobrindo uma cama de casal.

 

Evidentemente, havia pouca gente, além de um homem inconsciente no pátio, para interrogar sobre aquele lugar quando a polícia chegou. Mas não precisava mais  do que aquela foto. E Tobias tinha uma filha quase daquela idade. Que, para alívio dele, estava em casa.

 

O telefone dele e do outro investigador, Jerônimo, tocaram ao mesmo tempo. Cada um atendeu o seu.

 

– Colega de farda – disse o amigo de Jerônimo – Sabe quem é?

 

– Sim, senhor, fala.

 

– Tenho umas quentes sobre o peixe que tão pescando. Vou mandar por texto. Ok?

 

– Feito.

 

Jerônimo desligou e olhou para Tobias, mais velho e mais gordo, olhando para sujeito sendo tratado na cama. Ferimento na cabeça.

 

– Acharam o carro desse filho da puta numa casa duns alta classe que telefonaram pra nós. A menina tá bem. E tem mais duas mulheres na casa. Uma delas mãe de outra.

 

– E o pai?

 

– Se cagando de medo de nós. Então acho que tá tudo ok com elas por ora. Mas é pista, né? Vamos.

 

– Sim – disse, o mais jovem – tenho informações sobre o cara. E acho que ele não é quem a gente pensa.

 

.            .            .

 

Eu parei de capacete, vidro embaciado, do outro lado da rua. E esperei o sujeito aparecer. Saída da escola. Outro turno. Mesma arrogância que eu já conhecia. Aquilo ali ia ter volta e era agora. Aluno mais velho que acha que pode tudo. Inclusive com a irmã mais nova.

 

Cheguei perto, de capacete. Balaclava sobre a cabeça. Dois olhos por trás de um vidro escuro. Eu mal enxergava. Reconhecia pela altura, músculo, jaqueta. Os amigos se afastaram. Ele olhou para o visor.

 

E morreu.

 

Um tiro. Dois tiros. Três tiros. Gritos. Correria. Confusão. Ele ainda se mexia.

 

Quarto tiro na cabeça. Sem piedade. Sem culpa. Sem perdão.

 

Luva de couro. Arma jogada no boeiro. Monto sobre a moto e vou. Até alguém saber de algo eu já era outra pessoa, com outro nome, longe dali.

 

.           .            .

 

– Sim, sim, eu o deixo informado, doutor. Mas preciso me livrar dele agora.

 

E jogou o celular no cesto de papéis.

 

Mais calma, ela respirou fundo e lavou o rosto. Então, composta, se dirigiu ao homem.

 

Dormindo de novo? Bem, ela precisava entender, também, que, infelizmente, rebotes de ansiedade e depressão causavam aquilo. Como qualificá-lo? Não era um psicopata? Talvez… mas não o psicopata ordinário de sempre.

 

O delegado deixara bem claro… matara mulheres e crianças também. Mas ainda assim aquele trabalho de perita da polícia deixava claro que, sim, o contexto faria diferença.

 

Analisara o perfil de possíveis vítimas. E uma delas era quase evidentemente uma família liderada por um abusador. Afinal, que tipo de pai…

 

Afastou de sua mente as imagens de cadáveres de menininhas. E de uma mãe. E do pai também. Todos apodrecendo sob o sol numa casa fechada, que hoje ninguém queria comprar, porque a história e fotos rodaram, e rodaram, para serem esquecidas.

 

Mas alguém sempre lembra. E a casa assombrada da vizinhança nunca deixa de ser assombrada.

 

– Homem assombrado…

 

Júlio deu um pulo. Procurou a arma. E, ao perceber que não tinha uma, estendeu o isqueiro.

 

– Fogo?

 

– Sim, por favor.

 

E ela tirou o cigarro, admitindo pra si mesma que nunca largara o vício.

 

– Paula?

 

– Sim?

 

– Nosso bus.

 

Um termo em inglês. Uma simulação de erudição. Ou erudição verdadeira? Ou filmes demais? Porque ele alegava ser um detetive… e parecia com a ideia que a maioria das pessoas tinha de um.

 

Bem, já não era sem tempo.

 

Embarcaram no ônibus. E desceram cada vez mais, para as planícies, brejos e pântanos do dia seguinte.

 

.             .            .

 

Dormia. E o que sonhava?

Dorme tão profundo, como se fosse um…

 

.            .           .

 

HERDEIRO DE FORTUNA ASSASSINADO NA SAÍDA DA ESCOLA

FAMÍLIA INCONSOLÁVEL

 

Dizia ali a manchete no bar. Que ia amarelando aos poucos.

 

Os cabelos dele, que de negros iam a raspados e agora eram apenas penugem, ajudavam a completar a imagem de bebê chorão. Junto com o nariz vermelho que acompanhava o terceiro copo de cachaça.

 

– Ela disse que viria…

 

-Tu já vem aqui a três dias, bonzão – dizia a garota – e ela não veio em nenhuma vez. Por que não vem comigo?

 

Ele olhou para ela. Bonita, de certa forma. Cabelos loiros. Mas pintados. Falsos. Mas bonitos.

 

– Sofreu a irmãzinha. A mais nova. Diz que tá fechada em luto – dizia um.

 

– É. Mas com os velhos mortos, ela é a herdeira agora. O dinheiro cura qualquer mal – completou Joaquim, e entornou o seu, insensível. Bêbado veterano.

 

Os olhos sensíveis do jovem gordinho pareciam escutar a conversa mais que seus ouvidos.

 

– Bem, bem… não fica assim – disse a loira – vem comigo… eu te mostro um pouco de alegria…

 

– Falsa…

 

– O que?

 

– Nada. O que é que não é falso nessa vida?

 

Percorreram o corredor frio da galeria comercial. Entraram por uma porta que ia para um elevador claustrofóbico. Ele riu. Mais à vontade. Afinal… para onde ir? Para a casa não rolava mais. E precisara assustar seu amigo Pedro da oficina. Assustar pra diabo.

 

– Diabo…

 

– Meu diabinho loiro, vem!

 

Onde? Quando? Ah, sim…

 

No apartamento dela. Ela de luzes apagadas. Contra a vidraça. Livrando-se do jeans cuja abertura acendia faíscas. Mas será que ele conseguiria? Não parava de pensar nela.

 

– Mas seja rápido… meu namorado vem aí.

 

– Namorado?

 

– É. Ele mora aqui.

 

– E você quer que eu…

 

– Ele não se importa. Contanto que você deixe um presente pra ele.

 

Uma bonita bunda, de fato. Ele desafivelou a cinta. As calças caíram. Se aproximou dela por trás. Seus dedos trêmulos percorreram os cabelos platinados.

 

– Falsa…

 

E enroscou a cinta no pescoço dela. Suas mãos eram fracas. E as dele e seus braços, força e ódio puro. Só soltou quando ela relaxou.

 

.         .         .

 

O namorado chegou e encontrou o estranho. Mas a garota não estava.

 

– Que tal?

 

– Que tal o quê?

 

Ele parecia sério demais. E o outro tentava parecer elegante. Playboy. Mas jogava com a vida alheia. O corpo alheio. Uma moça linda. Com um traste daqueles. E morta porque ele não tinha controle. Problemas emocionais. E ele vivo. Não. Um dos dois morreria.

 

– Feche a porta, por favor. Vou te falar o que não gostei aqui.

 

A porta bateu. O cafetão de costas. A faca no fígado. O gemido que as mãos dele, com luvas de motoqueiro, sufocaram enfiando dos dedos boca adentro. E mais uma facada. E mais. E mais.

 

Não queria nenhuma explicação que ele tivesse pra dar. Estava farto de palavras.

 

Era um homem de ação. Mas o antigo nome não servia. Duvidava que o senhorio se importasse. Só precisava limpar a sujeira. E era bom nisso. A sujeira era sempre dos outros. Ele limpava. Ele sabia tudo. Cada truque. Era o melhor detetive de todos os tempos.

 

.       .      .

 

Julian Retz.

 

– Era o nome dele – resmungou o homem, acordando.

 

– De quem? – perguntou Paula.

 

– De um garoto que conheci. Não importa.

 

– Ele está vivo?

 

– Quem sabe? Quem sabe o que a manhã trará?

 

– Anoiteceu, Júlio. E o ônibus tá parando no meio do nada.

 

– Como assim? Tem luzes pra lá. Cães, talvez, mas há uma casa aqui em algum lugar. Sempre há oportunidades para os dispostos.

 

– O que você quer dizer?

 

– Você vem comigo? É pegar ou largar. Eu desço e vou caminhar no escuro, doutora Paula.

 

– Meu nome não é Paula e…

 

Ela parou.

 

– Nunca quis ser médica – disse ela – era toda ligada em… esoterismo.

 

– Bruxaria.

 

– É. Eu mesma sei que jamais daria certo. E que foi racionalização. A maga da mente. A psíquica das drogas…

 

– Drogas psíquicas? Paula, eu… como eu te chamo?

 

– Eu gosto de Paula.

 

– Que tal Miss Murder?

 

– Codinome… e o seu?

 

– Capitão… Capitão Caveira.

 

Desceram juntos e rindo. Largando uma bagagem que não tinham no caminho.

 

.        .        .

 

Guilherme abriu os olhos e ela estava lá. Linda. Morena. Alta. Olhos vivos e esperta.

 

– Oi, gato – disse Cristina.

 

– O… oi… onde eu estava?

 

– Não sei por onde andou, fofo. Mas recolheram teus pedaços daquela galeria comercial horrível. Onde nos conhecemos. Quer sair daqui?

 

– Eu tô morrendo.

 

– Não, senhor. O médico disse que é questão de dias. Quer passar esses dias aqui ou comigo?

 

Com algum esforço, ele se pôs em pé.

 

– Mas aqueles teus amigos… eu… eu não me lembro?

 

– Acredite – disse ela, ajudando-o a levantar e se vestir – não há mais perigo. Nem pra mim, nem pra ti, meu bem.

 

Saíram juntos. De mãos dadas. A dela, de longos e delicados dedos com unhas vermelhas tinha um anel de caveira. Brilhante como seu sorriso.

 

FIM

Texto de: Luiz Hasse
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