Link do capítulo anterior – pulpstories.com.br/…/dancando-nas-trevas-do-fim-ao-comeco-5

VI

HERDEIRO DE FORTUNA ASSASSINADO NA SAÍDA DA ESCOLA

FAMÍLIA INCONSOLÁVEL

 

Dizia ali a manchete no bar. Que ia amarelando aos poucos.

 

Os cabelos dele, que de negros iam a raspados e agora eram apenas penugem, ajudavam a completar a imagem de bebê chorão. Junto com o nariz vermelho que acompanhava o terceiro copo de cachaça.

 

– Ela disse que viria…

 

-Tu já vem aqui a três dias, bonzão – dizia a garota – e ela não veio em nenhuma vez. Por que não vem comigo?

 

Ele olhou para ela. Bonita, de certa forma. Cabelos loiros. Mas pintados. Falsos. Mas bonitos.

 

– Sofreu a irmãzinha. A mais nova. Diz que tá fechada em luto – dizia um.

 

– É. Mas com os velhos mortos, ela é a herdeira agora. O dinheiro cura qualquer mal – completou Joaquim, e entornou o seu, insensível. Bêbado veterano.

 

Os olhos sensíveis do jovem gordinho pareciam escutar a conversa mais que seus ouvidos.

 

– Bem, bem… não fica assim – disse a loira – vem comigo… eu te mostro um pouco de alegria…

 

– Falsa…

 

– O que?

 

– Nada. O que é que não é falso nessa vida?

 

Percorreram o corredor frio da galeria comercial. Entraram por uma porta que ia para um elevador claustrofóbico. Ele riu. Mais à vontade. Afinal… para onde ir? Para a casa não rolava mais. E precisara assustar seu amigo Pedro da oficina. Assustar pra diabo.

 

– Diabo…

 

– Meu diabinho loiro, vem!

 

Onde? Quando? Ah, sim…

 

No apartamento dela. Ela de luzes apagadas. Contra a vidraça. Livrando-se do jeans cuja abertura acendia faíscas. Mas será que ele conseguiria? Não parava de pensar nela.

 

– Mas seja rápido… meu namorado vem aí.

 

– Namorado?

 

– É. Ele mora aqui.

 

– E você quer que eu…

 

– Ele não se importa. Contanto que você deixe um presente pra ele.

 

Uma bonita bunda, de fato. Ele desafivelou a cinta. As calças caíram. Se aproximou dela por trás. Seus dedos trêmulos percorreram os cabelos platinados.

 

– Falsa…

 

E enroscou a cinta no pescoço dela. Suas mãos eram fracas. E as dele e seus braços, força e ódio puro. Só soltou quando ela relaxou.

 

.         .         .

 

O namorado chegou e encontrou o estranho. Mas a garota não estava.

 

– Que tal?

 

– Que tal o quê?

 

Ele parecia sério demais. E o outro tentava parecer elegante. Playboy. Mas jogava com a vida alheia. O corpo alheio. Uma moça linda. Com um traste daqueles. E morta porque ele não tinha controle. Problemas emocionais. E ele vivo. Não. Um dos dois morreria.

 

– Feche a porta, por favor. Vou te falar o que não gostei aqui.

 

A porta bateu. O cafetão de costas. A faca no fígado. O gemido que as mãos dele, com luvas de motoqueiro, sufocaram enfiando dos dedos boca adentro. E mais uma facada. E mais. E mais.

 

Não queria nenhuma explicação que ele tivesse pra dar. Estava farto de palavras.

 

Era um homem de ação. Mas o antigo nome não servia. Duvidava que o senhorio se importasse. Só precisava limpar a sujeira. E era bom nisso. A sujeira era sempre dos outros. Ele limpava. Ele sabia tudo. Cada truque. Era o melhor detetive de todos os tempos.

 

.       .      .

 

Julian Retz.

 

– Era o nome dele – resmungou o homem, acordando.

 

– De quem? – perguntou Paula.

 

– De um garoto que conheci. Não importa.

 

– Ele está vivo?

 

– Quem sabe? Quem sabe o que a manhã trará?

 

– Anoiteceu, Júlio. E o ônibus tá parando no meio do nada.

 

– Como assim? Tem luzes pra lá. Cães, talvez, mas há uma casa aqui em algum lugar. Sempre há oportunidades para os dispostos.

 

– O que você quer dizer?

 

– Você vem comigo? É pegar ou largar. Eu desço e vou caminhar no escuro, doutora Paula.

 

– Meu nome não é Paula e…

 

Ela parou.

 

– Nunca quis ser médica – disse ela – era toda ligada em… esoterismo.

 

– Bruxaria.

 

– É. Eu mesma sei que jamais daria certo. E que foi racionalização. A maga da mente. A psíquica das drogas…

 

– Drogas psíquicas? Paula, eu… como eu te chamo?

 

– Eu gosto de Paula.

 

– Que tal Miss Murder?

 

– Codinome… e o seu?

 

– Capitão… Capitão Caveira.

 

Desceram juntos e rindo. Largando uma bagagem que não tinham no caminho.

 

.        .        .

 

Guilherme abriu os olhos e ela estava lá. Linda. Morena. Alta. Olhos vivos e esperta.

 

– Oi, gato – disse Cristina.

 

– O… oi… onde eu estava?

 

– Não sei por onde andou, fofo. Mas recolheram teus pedaços daquela galeria comercial horrível. Onde nos conhecemos. Quer sair daqui?

 

– Eu tô morrendo.

 

– Não, senhor. O médico disse que é questão de dias. Quer passar esses dias aqui ou comigo?

 

Com algum esforço, ele se pôs em pé.

 

– Mas aqueles teus amigos… eu… eu não me lembro?

 

– Acredite – disse ela, ajudando-o a levantar e se vestir – não há mais perigo. Nem pra mim, nem pra ti, meu bem.

 

Saíram juntos. De mãos dadas. A dela, de longos e delicados dedos com unhas vermelhas tinha um anel de caveira. Brilhante como seu sorriso.

 

FIM

Texto de: Luiz Hasse
Curta a Pulp Stories!