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V

Dá pra acreditar? Quando paramos no próximo posto, ela ria.

 

– A cara dele! A cara de pavor dele! Meu pai fazia bem igual! Hahahahaha!

 

– É, doutora. Assim é todo o homem que pensava que era valente até ver a morte estampada no rosto de outro.

 

Ela ficou séria. Depois explodiu em gargalhadas de novo.

 

– Por favor… é Paula… sim, não é o meu nome verdadeiro, mas… me chama de Paula.

 

– Então… eu me chamo… Júlio. Eu já disse isso?

 

– Já. – ela tinha olhos doces. Lindos. E, por algum motivo, me desagradaram.

 

– Vamos deixar o carro aí e entrar no próximo ônibus com uma desculpa qualquer.

 

– Eles não deixam.

 

– Eles quem? Somos um casal com aparência decente. E motoristas, como todo trabalhador, ganham mal. Ele vai aceitar cem barões ou mais pra levar duas pessoas cujo carro quebrou. Está tão cansado que talvez faça de graça.

 

– Dá tempo de eu ir ao banheiro?

 

– Sim, mas… bom, vai.

 

Observei-a correr até a lojinha de conveniência. Se ela traísse minha confiança, como sempre, eu perceberia antes. Daí era só a rotina de sempre. Tinha um sujeito com dois meninos gritando no banco de trás. Descendo com raiva e uma esposa entediada. O que são mais quatro cadáveres nessa pilha de horrores chamada mundo?

 

Ali onde estávamos era uma região onde o terreno aplainava aos poucos, deixando as colinas para trás. Ao mesmo tempo, dava para ver as trilhas infinitas de cercas de arame. Ao longe, um céu azul-cinzento e gelado. E um sol que se escondia atrás de nuvens que rodopiavam, Mas brancas demais para chover.

 

.          .          .

 

O ônibus veio e ela não chegava. Mas tudo bem. Havia um plano B para caso não saísse de casa. Afinal…

 

Era melhor não serem vistos juntos. Ele esperou o mais que pode. E depois se afastou. Garagem. Mecânico. Ela lhe dera aulas de motociclismo. Tudo que queria era ir embora.

 

Ele ia lhe ajudar nisso.

 

– Oi, Pedro.

 

Pedro deu um pulo, estava abaixado, mexendo numa moto.

 

– Ah… oi, Julian, tudo bem?

 

Nem se levantara por ele. Mas hoje todos aprenderiam.

 

Chegou por trás e encostou o cano gelado do revólver na orelha dele. O moço deu um pulo derrubou a moto. Depois, ao virar-se, Júlio apontou para seu nariz.

 

– Não grita senão morre. Traz outra moto. Uma que seja tua. E com os documentos. Tô esperando aqui.

 

Pedro nem discutiu. Ele tinha mesmo fama de louco já. Fechou a janela, a porta de correr e respirou aliviado que ninguém viera para a rua. Tomou as chaves e perguntou.

 

– O que aconteceu com a moto?

 

– Roubaram, né?

 

– Lembra que cor de cabelo eu tinha?

 

– Não.

 

– Nem eu. Pintei faz tanto tempo. Tchau, Julinho.

 

Chamara Pedro pelo seu próprio apelido. Mensagem mais clara impossível.

 

.          .         .

 

No banheiro, trancada, ela chorou e tremeu. O pânico saindo em forma de medo. De pavor. De pânico de novo. E então o alívio..

 

Vasculhou na bolsa atrás de um cigarro e…

 

Celular. O celular da mulher. Era sua chance.

 

Mas deteve-se. Algo estava errado ali. O que exatamente ele fizera com ela? Ok. Ele a sequestrara e isso era horrível. Mas as duas crianças, mais a dona daquela casa… estavam bem. E fora apavorá-la, ele não fizera nada fora do comum. Diziam que ele matava pessoas.

 

Mas além de ser para sair da cadeia, onde ela sabia como as coisas funcionavam…

 

Não. Não podia ser. Se ele não era o tal do Caveira, era pelo menos um psicopata. Tinha que ser. Afinal, de que outra forma e por que ele teria um paciente de câncer agredido em casa?

 

.            .           .

 

O doente tossiu como um doido e cuspiu uma bola de muco e matéria orgânica em decomposição. E enfermeira recolheu num balde e o médico disse.

 

– Leve para a análise. Inacreditável! Ele chegou aqui… morto, praticamente.

 

.        .        .

 

Tobias, o investigador, chegou até a cena no motel. Fizera barulho demais. Logo, alguém fora chamado pra fazer de conta. Mas Tobias não fazia de conta e, sorte ou não, o chamado era da mesma DP que ele. E vieram juntos. Porque, sim, era o mesmo carro que alguém alegara ter sido roubado por um casal de malucos.

 

Uma linha de carros roubados e corpos no caminho daquele homem sem nome. E, além disso, uma menina sequestrada.

 

Uma que ninguém sabia de onde vinha, mas cujas fotos indecentes se espalhavam pelos  fundos de uma cortina de veludo azul sobre uma parede caiada e suja, com outra cortina de veludo na frente, cobrindo uma cama de casal.

 

Evidentemente, havia pouca gente, além de um homem inconsciente no pátio, para interrogar sobre aquele lugar quando a polícia chegou. Mas não precisava mais  do que aquela foto. E Tobias tinha uma filha quase daquela idade. Que, para alívio dele, estava em casa.

 

O telefone dele e do outro investigador, Jerônimo, tocaram ao mesmo tempo. Cada um atendeu o seu.

 

– Colega de farda – disse o amigo de Jerônimo – Sabe quem é?

 

– Sim, senhor, fala.

 

– Tenho umas quentes sobre o peixe que tão pescando. Vou mandar por texto. Ok?

 

– Feito.

 

Jerônimo desligou e olhou para Tobias, mais velho e mais gordo, olhando para sujeito sendo tratado na cama. Ferimento na cabeça.

 

– Acharam o carro desse filho da puta numa casa duns alta classe que telefonaram pra nós. A menina tá bem. E tem mais duas mulheres na casa. Uma delas mãe de outra.

 

– E o pai?

 

– Se cagando de medo de nós. Então acho que tá tudo ok com elas por ora. Mas é pista, né? Vamos.

 

– Sim – disse, o mais jovem – tenho informações sobre o cara. E acho que ele não é quem a gente pensa.

 

.            .            .

 

Eu parei de capacete, vidro embaciado, do outro lado da rua. E esperei o sujeito aparecer. Saída da escola. Outro turno. Mesma arrogância que eu já conhecia. Aquilo ali ia ter volta e era agora. Aluno mais velho que acha que pode tudo. Inclusive com a irmã mais nova.

 

Cheguei perto, de capacete. Balaclava sobre a cabeça. Dois olhos por trás de um vidro escuro. Eu mal enxergava. Reconhecia pela altura, músculo, jaqueta. Os amigos se afastaram. Ele olhou para o visor.

 

E morreu.

 

Um tiro. Dois tiros. Três tiros. Gritos. Correria. Confusão. Ele ainda se mexia.

 

Quarto tiro na cabeça. Sem piedade. Sem culpa. Sem perdão.

 

Luva de couro. Arma jogada no boeiro. Monto sobre a moto e vou. Até alguém saber de algo eu já era outra pessoa, com outro nome, longe dali.

 

.           .            .

 

– Sim, sim, eu o deixo informado, doutor. Mas preciso me livrar dele agora.

 

E jogou o celular no cesto de papéis.

 

Mais calma, ela respirou fundo e lavou o rosto. Então, composta, se dirigiu ao homem.

 

Dormindo de novo? Bem, ela precisava entender, também, que, infelizmente, rebotes de ansiedade e depressão causavam aquilo. Como qualificá-lo? Não era um psicopata? Talvez… mas não o psicopata ordinário de sempre.

 

O delegado deixara bem claro… matara mulheres e crianças também. Mas ainda assim aquele trabalho de perita da polícia deixava claro que, sim, o contexto faria diferença.

 

Analisara o perfil de possíveis vítimas. E uma delas era quase evidentemente uma família liderada por um abusador. Afinal, que tipo de pai…

 

Afastou de sua mente as imagens de cadáveres de menininhas. E de uma mãe. E do pai também. Todos apodrecendo sob o sol numa casa fechada, que hoje ninguém queria comprar, porque a história e fotos rodaram, e rodaram, para serem esquecidas.

 

Mas alguém sempre lembra. E a casa assombrada da vizinhança nunca deixa de ser assombrada.

 

– Homem assombrado…

 

Júlio deu um pulo. Procurou a arma. E, ao perceber que não tinha uma, estendeu o isqueiro.

 

– Fogo?

 

– Sim, por favor.

 

E ela tirou o cigarro, admitindo pra si mesma que nunca largara o vício.

 

– Paula?

 

– Sim?

 

– Nosso bus.

 

Um termo em inglês. Uma simulação de erudição. Ou erudição verdadeira? Ou filmes demais? Porque ele alegava ser um detetive… e parecia com a ideia que a maioria das pessoas tinha de um.

 

Bem, já não era sem tempo.

 

Embarcaram no ônibus. E desceram cada vez mais, para as planícies, brejos e pântanos do dia seguinte.

 

.             .            .

 

Dormia. E o que sonhava?

Dorme tão profundo, como se fosse um…

 

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Texto de: Luiz Hasse
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