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IV

Toda história começa em algum lugar. A minha começa, se eu tiver que colocar um sinal, na saída de uma escola. Eu ainda estava de folga. Tinha mais uns dias antes de voltar as aulas. Andara doente. Longo tempo em hospitais e exames dolorosos. Tratamentos caros. Recuperava a saúde. Estava mais forte, até, do que antes. Fazia exercícios que não fazia antes. Cabelo mais curto. Já era claro, mas o stress o clareara mais. E eu o pintara de negro.

 

Os dela eram negros naturais. Mas era pálida como eu. Apesar das  sardas e dos olhos verdes que eu amava. Verdes de esmeralda.

 

– Ho! – gritei, porque o nome dela era Estella, e de uma brincadeira de aula de línguas, Estela virou Estrela, Estrelinha, Estrela da Esperança…

 

– Você ainda me chama de Hope? – ela sorriu, se aproximando de mim. Pelos olhos vermelhos eu vi que chorara recentemente. Fantasiei que fosse por mim.

 

Nunca fui o aluno mais popular. Apesar de sermos todos de classe média ou mais. No mesmo colégio tradicional. Último ano antes da formatura. E depois todos me evitavam. Menos ela. E se já a amava antes. Mesma idade, mesmo cérebro, mesma sensibilidade para o que é mais sutil na vida. Almas de poeta numa época muito pouco romântica. E, como todo amor juvenil, Hope era jovem.

 

Jovem demais para o que aguentava em casa.

 

A raiva era automática.

 

– Ele fez de novo? – perguntei.

 

– Sim… – ela não conteve as lágrimas. Mas mordeu os lábios e me abraçou. De costas para a turminha era piedade com o melhor amigo. Mas senti os soluços em meus ombros. Encarei a turma com o desgosoto que sempre me causavam estampado. E baixei a cabeça. A franja negra encobriu meus olhos. Minha lágrimas molharam a escuridão natural da cabeça dela.

 

– Pára! – disse ela, se afastando, orgullhosa – Não quero falar disso aqui… olha só… me encontra lá no nosso lugar. No bar. Eu… acho que vou pintar o meu cabelo hoje. Até as quatro. Beijo, Júlio, te cuida.

 

E ela saiu. Rindo de novo. Alegre com o pessoal com quem aprendera a fingir meio bem demais. Mas eu conheço a dor quando a vejo num rosto jovem demais. Jovem demais pra morrer. Pra morrer ou pra ficar nas mãos do bosta de um irmão mais velho que, já na faculdade, deveria saber que homens não fazem certas coisas com as irmãs mais jovens.

 

Começou a tocar uma canção famosa sobre uma garota que apanhava do namorado. Tudo muito sútil. Ninguém se dizia romântico, mas era, de fato, uma letra muito romântica. De letras de música que pareciam sobre amor e eram sobre…

 

.          .          .

 

Um tapa da dra. me acordou. Eu me levantei tirando a arma debaixo do travesseiro pronto pra espalhar um resto de rosto dela na parede oposta. Mas ela gritou na mesma hora e, junto com isso, um estampido fez uma bala atravessar a porta e quebrar um vaso atrás de nós.

 

Já éramos três. A doutora, que dormia abraçada com a menina na cama, eu no chão, e os nossos amigos que se postavam na porta. Conhecidos do gerente ou dono daquela espelunca, aposto. E apesar de eu ter escondido o nosso amigo bem enrolado numa cortina de plástico no mesmo banheiro em que dormíamos, eu imaginei que ele tinha algum amigo que faria o diabo se ele não estivesse em determinada hora, local ou sabe-se lá com aquela menina.

 

E a menina gritava no meio do tiroteio. Mas o amigo do dono do hotel que estava prestes, ou já fizera isso, a violá-la, atirara pelo menos uma vez contra nós ao ouvir o grito de mulheres. Então fiquei de costas retas no chão, onde antes dormira e apontei para a porta em linha reta. Comecei a apertar o gatilho sem parar. Não sabia direito onde eles estavam, mas uma saraivada de tiros baixos deve ter pego na cintura, pernas, coxas, joelhos, meio das e um pouco acima de alguém. E pelo visto eram vários. Porque ouvi uma confusão de gritos e um deles saiu correndo. Dei mais um pra assustar e então percebi que um deles fora atingido e ainda estava em pé. O corpo tombou e lá ficou, mas eu fiquei sem balas. Apenas passos solitários sumindo lá fora. Sons de corrida.

 

– Vai ter sirenes aqui logo, logo – disse eu levantando – pega a menina e o que tu precisa e eu vou dar um jeito no resto.

 

Uísque barato usado como sedativo. Fio elétrico de um abajur destruído cortado com uma faca afiada. E então tudo pega fogo numa cama de um hotel imundo onde o dono prostituía ou explorava sexualmente e estuprava…

 

Que idade ela tinha? Qual o nome da…

 

– Foda-se – resmunguei, permitindo-me um palavrão na frente delas. Que adiantava incendiar o lugar?

 

E então abri a porta com a faca na mão. Eram só dois. No escuro e atrás de uma porta parecem sempre multidões. Aterrissei com o calcanhar na traqueia de um deles que ergueu a mão, como se pedisse ajuda. Devia pensar que eu era policial. A câmera do corredor já vira tudo. Provavelmente já vira demais. E aquelas imagens não iam pro bom tipo de policial. Então dane-se e…

 

– E dane-se de novo! –  e meu calcanhar e sola da de sapato fez creck sobre um crânio de um homem já sufocando. E então corremos.

 

Outro hóspede tentava alcançar um carro. Ia na frente, ele e e moça uns vinte ou trinta anos mais jovem – difícil saber nessa época de moças precoces e velhos bem conservados, mas mesmo um revólver ou pistola descarregados servem pra algo.

 

– Calma, cara, eu não fiz na…

 

– Não estou acusando – disse eu enquanto ela gritava e colocava a mão na boca e eu atingia a testa com uma coronhada – só quero  isso aqui!

 

Ela correu, só de calcinha, os seios desnudos, pra auto-estrada, e eu catei as chaves do carro do homem caído.

 

– Entra! – falei para a mulher e a menina e elas mergulharam no interior do veículo – Não! A senhora dirige! Leva TUA FILHA no banco da frente. Eu estou cansado…

 

E mergulhei eu no banco de trás.

 

– …e tô cansado. Me deixa dormir até um lugar melhor que essa espelunca.

 

Só a menina ainda chorava. Por que? Por que ainda não era adulta. Só pensava que era.

 

As sirenes, pra mim, já eram cantigas de ninar. E o carrou cantou pneu antes que elas chegassem.

 

.     .     .

 

 

Algum tempo depois a menina chamou com sua voz doce e tocou a campainha. Uma filha adolescente – qual era a diferença ali? 15 pra 13? – atendeu a porta, numa casa bonita numa pequena elevação. E doutora veio segurar meu braço quando o homem da casa veio ver o que a nossa família queria. Mas eu estava sem balas e disse apenas:

 

– Entra e cala a boca. Ou atiro nelas antes.

 

– Quem é, querido? – uma esposa lavava a louça.

 

A filha me olhava hipnotizada. E quem levantará da TV irritado? Um homem que agora chorava. Adoro ver um covarde gemer. Bati e amarrei ele antes. A médica apontou o revólver do dono do hotel para para todas as outras e mandou não interferir.

 

E entramos. Casa adentro na escuridão. Perdera a conta dos carros. Mas acabava de amanhecer.

 

Sem escritório, nome fichado na polícia, grana ficou pra trás.

 

O que mais eu tinha a perder?

 

Foi meu último pensamento antes de socar a boca dele mais uma vez.

 

– Vê se para de chorar antes que alguém morra!

 

E então ele desmaiou.

 

E eu de cansaço, no sofá:

 

– Cuida de tudo aí, doutora… que filme massa!

 

.        .       .

 

– Julian! – disse ela sorrindo. Era uma das poucas que não errara jamais meu nome.

 

Tinha cabelos loiros agora.

 

Hope.

 

E descera da  moto daquele crápula pra me ver. Ela. Cheia de vida. Motoqueira. Tinha já dezoito anos? Certo que não. Não era uma repetente como tantas outras gurias burras e…

 

.       .       .

 

O telefone toca. Eu tento atirar. Sem balas. Sem armas.

 

– Cadê elas?

 

– Trancadas num quarto – responde a médica.

 

– Paula? – aponto para a menina.

 

– Sou a Marina.

 

E ela leva um tapa da doutora.

 

– Quietas as duas… me deixa pensar… Paula e Marina. Ok. Júlio é comum também. Não vão nos achar nessa casa… por um tempo. Mas eles sempre vem atrás.

 

– Eles quem… Júlio?

 

– Polícia. Enfermeiros de Hospício. Guardas e barbeiros de prisões e… quem se importa? Sempre me perseguindo. Sempre perseguindo todos nós e vocês também, agora. Dizendo que eu fiz o que não fiz e que não devo…

 

Paula chorava. Marina se agarrou a ela. Olhos gelados de medo em mim. Me levantei, algo ofendido:

 

– Ei! Eu…

 

Calei-me. Era com elas o problema. Assunto meu não.

 

Consultei a geladeira. Cheinha. Peguei qualquer refrigerante mais bonito e três copos. Sem mais bebida pra mim. Salame, copa, queijo. Trigo te deixa lento. Mas precisava de…

 

– Proteína e gordura. E algum açúcar pra energia. Venham quando quiserem. Tem pão lá. Quando eu comi pela última vez?

 

Ela tentou pegar meu copo, mas era um truque.

 

– O frasco. Me dá?

 

– Júlio, o que…?

 

– O frasco ou você come com o rótulo e cada uma delas. Das pílulas, Marina. Onde as outras estão? Você, o frasco e você vai cuidar delas. Pode pegar a arma. Tá sem balas mesmo.

 

Marina saiu, rindo. E a doutora me entregou, com raiva, a medicação. Joguei na lareira.

 

– Acende o fogo, por favor, querida. Drogas fazem mal.

 

Comi e bebi como um príncipe e em paz. Ou seja, numa mesa e sem ninguém querendo me matar JÁ.

 

Sem sono, sem fome, descansado. Hora do plano.

 

– Júlio.

 

– Fala, Paula.

 

– Você precisa confiar em…

 

– Não começa.

 

– Cala a boca!!! Olha só… tem uma família de refém. Assustada. A rua tem câmeras. E eles tem vizinhos. Essa casa nesse morrinho nem cerca tem. Mas o pessoal… rua calma, fria, ensolarada. O que o povo faz passeando de cachorrinho quando se cumprimenta na rua?

 

– Fala. Entendi. Fecha as cortinas. Até então, somos só visita. Feito.

 

– Se você matar eles no porão eu agarro a menina e grito.

 

– Qual delas?

 

– Ora, a …

 

– A refém ou a que tiramos do pedófilo?

 

Ela urrou e começou a fechar as cortinas comigo.

 

Pouco tempo depois estávamos diante da família no porão. Paula e Marina se encolhiam atrás de mim, e eu cheguei diante de um homem amarrado e surrado, numa cadeira velha e de uma mulher e uma jovem que estavam livres.

 

– Você – apontei para a garota – é evidentemente mais esperta que seus pais acomodados. Você vai acompanhar a Marina andar acima, juntar tudo que é documento de vocês e voltar, enquanto os adultos conversam. E estou confiando em você, gatinha, vão as duas e podem conversar. Mas cuidado que minha garota atira bem. Não se machuquem ou eu vou ter que me envolver.

 

Olhei para o homem.

 

– Se gritar, eu corto seu pinto fora, o.k.?

 

Só adultos ali. Arranquei a fita de sua boca e puxei as meias que ele tinha entre os dentes. Dei um tapa.

 

– Tosse baixo aí, faz favor? Bem… escuta, então, moção. Funciona assim, aqui entre adultos. Eu vou pegar todos os papéis dessa casa. Se aprontar pra mim, vou saber como te achar. E quando a polícia te pegar, o esquema é o seguinte… essa médica me ajudou a fugir da prisão, onde eu estava por um crime que não cometi e eu salvei aquela menininha, a Marina, de um lugar de prostituição infantil. De uma porcaria de um hotel furreca que…

 

– O nome era Safas Motel – completou Paula.

 

– Isso. Você lembra disso?

 

– Sim, sim senhor.

 

– Notou que as duas são próximas de idade?

 

– Sim, tudo que você quiser.

 

– As duas ficam. Aquela arma tá sem balas. Eu vou pegar a chave do seu carro e você não vai me aprontar nenhuma. Explique você pra polícia como foi que ela veio parar aqui. O resto da história é com eles. Tchau.

 

Lá em cima, as duas se olhavam, cúmplices e uma delas me estendeu uma resma de papel.

 

– Fiquem bem as duas – disse eu – tu tá no comando, moça – apontei pra menina armada. Ela bateu continência sorridente – desçam lá e cuidem do resto.

 

A doutora me olhava meio pasma. Eu sempre pensei rápido. Ela é que não sabia. Apontei para a porta e corremos.

 

Carro melhor e nenhuma arma. Adieu.

 

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Texto de: Luiz Hasse
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