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III

Os cabelos dele estavam curtos e acinzentados quando ele saiu. E a inatividade e as  drogas  o fizeram ganhar peso. Palidez e olheiras fundas. Seus pais o aguardavam de carro. Voltaram para o apartamento.

 

– Meus pôsteres! – disse ele. Não tinha mais raiva pra sentir. Só tristeza.

 

– Não faziam bem pra você, filho. Todas aquelas coisas horríveis.

 

Ele desabou na cama e chorou. Urrou quando tentaram consolá-lo. Depois vieram lhe trazer a medicação. Ele não tinha mais escolha.

 

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Acorde!

 

Três da manhã. Vulto escuro no quarto. Cara de caveira. Morte. Fantasmas.

 

( excitação – aventura- horror – ação )

 

– Tudo fantasia…. eles disseram… tudo delírio… não está lá…

 

Curvou-se sobre a cama e viu um pedaço da bula do remédio. Um papel. E, movido por uma estranha intuição, engoliu-o. Pensou em todas criaturas nojentas que poderia haver num quarto. Rastejantes. Curvou-se sobre a cama e tapou o som o melhor que pode. Não tinha mais chave no quarto e tinha grade nas janelas. Aquilo ali era uma cela, e não seu quarto. E deixou o vômito vir.

 

– Menos drogas. Melhor.

 

Ficou em pé. Ouviu os pais se mexerem no outro quarto. Eterna vigilância. Ficou em pé. Parado. Dormiram de novo. Ele olhou pela janela e esperou. Amanheceu, eventualmente.

 

Era difícil. Mas não era impossível escapar.

 

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Acordei do devaneio. Andavam frequentes. E agora? O que fazer?

 

Era um hotel sujo e barato. Na verdade um motel, no sentido sexual da palavra, e nenhum de nós tinha muita escolha. Nem eu, nem ela.

 

– Fique tranquila. Só preciso de um tempo pra pensar e remendar qualquer ferimento que não tenha sido notado antes. Meia hora no máximo. Não tenho esse tipo de interesse na doutora…

 

Ela olhou para mim. Olhos negros dardejando de ódio sob uma franja loira. Eu não entendo como ela podia ser tão ingrata. Estávamos os dois vivos e soltos. E ela era uma das pessoas responsáveis por me manter preso. Tem gente que não sabe a sorte que tem!

 

– Teu nome.

 

– Paula.

 

– Ok. Não quero sobrenome. Também não vou dar muita intimidade. Quando sentir que posso confiar, eu vou te soltar. Viva e livre. E intacta. Acredite… isso é mais do que muita gente tem. Mais gente do que você imagina. Agora caminha na frente, sorria, faça de conta que está gostando. Eu falo com o gerente.

 

Boa atriz ela era. Depois de bater a porta e bufar alto, se tornou a mulher mais sexy do mundo.

 

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– Bem, o celular ficou pra trás. Você ganha bem e pode comprar outro. Agora eu preciso me acalmar e pensar. Tem remédios na sua bolsa? Do tipo que iam dar pra mim?

 

– Sim.

 

– Tome e me convença que está dormindo. Não me obrigue a verificar se está. Mulheres  são bem mais resistentes à dor que homens. Um tapa nos meus lábios mostraria se eu estou dormindo ou não. Talvez de você eu tivesse que tirar um dente.

 

Acho que só então ela teve medo genuíno. Compreensível. Inconsciente e sem reação na frente de um estranho com total poder da situação. Uma bosta. Mas não dava pra aliviar. Levantei a arma em direção ao seu rosto. Cadáver a mais ou menos?

 

Cadáver a menos. Ela tomou e dormiu.

 

O gerente era diferente. Eu tinha prometido pra ele pagar adiantado. Vasculhei a bolsa da médica e ela não tinha o suficiente. No caminho, percebi uma perturbadora ausência de câmeras no corredor. E também na recepção. E eu normalmente DETESTO câmeras. Porque aquilo me perturbava?

 

O gerente gordo e seboso não estava. Era gerente e recepcionista. Golpeei a campainha. Ele voltou de mau humor.

 

– Trouxe teu dinheiro.

 

Joguei as notas.

 

Ele olhou com nojinho.

 

– Aí não tem o sufici…

 

Olhos baixos pra grana. Mais baixo que eu. Sopa. Coronhada no topo da cabeça. Caiu fazendo algum barulho. Pulei por cima do balcão e aterrissei com dois pés em cima dele. Um amador teria chutado. Mas sou um profissional. Golpeei o crânio com meu calcanhar até haver estalos e sangue. Certeza. Um profissional tem que ter certeza.

 

Comecei a procurar a cãmera escondida. Havia uma cortina vermelha com  pretensão de elegãncia no fundo. Ouvi algo que lembrava um rato se mexendo e puxei.

 

A menina, na cama de solteiro que havia na outra câmara, levou um susto. Puxou o lençol e se cobriu. Olhei para o corpo no chão, do gerente, e senti raiva. Como assim? Era DE MIM que ela tinha medo?

 

Apontei a arma. Nada contra. Testemunha viva é homem morto. Eu. O homem morto. Ela fechou os olhos e chorou. Bem… melhor assim…

 

Não.

 

Foi quando percebi que, mesmo morto, o filho da puta do Caveira tinha me feito um estrago enorme.

 

Um detetive tem que ser frio. Profissional. Não se envolver. A polícia tinha interpretado tudo errado. Achava que eu era o Caveira. Eu iria para um sanatório…

 

(DE NOVO!)

 

…e aquilo é pior do que a prisão…

 

…porque pouca gente vai…

 

…daí não sabe…

 

…quase livre, contanto que você confess…

 

…entiras…

 

NÃO!

 

Voltei ao normal. O melhor possível. E eu ainda não conseguiu atirar. Por quê?

 

–  Te veste, por favor – me virei de costas – Eu vou te tirar daqui.

 

.          .          .

 

– É um sujeito meio conhecido no submundo. Já matou mulher e criança e todo o  resto. A gente meio que perdeu a conta. O nome é Júlio Hertz, ou é o que ele diz, mas tem pouca documentação sobre ele. Mas é um assassino. Só que é maluco. Se diz detetive. Faz coisas pavorosas…

 

– Tipo sádico, assim?

 

– Não, seu guarda. Pior que sádico. Ele não sente NADA. Sádicos sentem algum prazer com o que fazem. Você deve ter gente assim com você. Mas a única satisfação do Hertz é completar o trabalho dele. Que quase sempre é localizar alguém e matar.

 

– E como é que um maluco desses tá vivo?

 

– Como disse… ele é bom no quer faz. Bom demais. Justamente PORQUE não tem limites. Uma vez que você o contrate e acertem o preço, ele vai até o fim. Ou morre tentando. Até a gente achou que um dia ele já tinha morrido. Mas ele voltou. Meio ruim de saúde, mais magro e com cicatrizes novas. Mas voltou, como um…

 

– Fantasma. Faz sentido ele ser o Caveira. Faz bastante sentido. É louco suficiente pra ter…

 

– Uma dupla personalidade.

 

– Eu ia dizer identidade secreta. Eu vou indo, te cuida.

 

O policial apagou o cigarro e guardou-o no bolso. Estava sem a farda. Assim como o estivador, amigo e infância, estava fora do armazém sete. E o armazém fechado. Nenhum dos dois  trabalhava.

 

Cada um foi pro seu lado. Notícias que se espalhavam

 

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Texto de: Luiz Hasse
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