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II

– Você tem que entender que isso são delírios.

 

– Mas por que?

 

– Porque você não é um detetive.

 

– Eu descubro coisas. Eu descobri que a professora estava passando as respostas para…

 

– Isso não faz diferença, Julio. Você não tem autoridade para fazer essas coisas.

 

– Mas que autoridade? Que coisas? Eu só fotografei e expus. Como isso pode ser errado?

 

– Você foi expulso da escola. E agora está em tratamento. Tem pouco controle emocional.

 

– Mas ELA ia fraudar o resultado! ELA! POR QUE EU ESTOU AQUI?!

 

O jovem loiro, de cabelos longos, magro e de bonitos olhos azuis, se ergueu gesticulando. O médico controlou o medo, mas levou a mão ao botão.  O paciente relaxou.

 

– Preso… ela errou… ela fez errado… e ME prenderam…

 

– Você não está preso, Júlio. Está hospitalizado. Em tratamento.

 

– Quando vou embora?

 

– Você tem um problema. Vai embora quando ele melhorar.

 

– Eu não acho que eu tenha um problema, doutor… isso é tortura…

 

– Você precisa admitir o problema pra resolvê-lo. Ou não sai daqui tão cedo. E não é tortura, é só…

 

– É. Tratamento. Vocês me dão drogas e choques no cérebro. E chamam de tratamento e…

 

Deu um pulo.

 

– Tira a mão de mim, seu homem nojento! Eu sei o que você quer! Quer mas NÃO PODE!

 

No instante seguinte, o médico apertou o botão. A campainha trouxe os enfermeiros. O jovem se retorcia no chão e ria, ria, ria…

 

.        .        .

 

Quando acordei, tinha uma sensação estranha. Era como lembranças de choro. Olhos vermelhos e fungões. Patético. Estava algemado numa salinha da polícia. Acho que tinham me dado drogas. Voz enrolada. Não conseguia levantar meus braços. Algemas na cadeira.

 

– Isso não é necessário – disse a médica – ele está totalmente dopado. Tira essas coisas.

 

– Você é quem sabe. Mas ele é perigoso. Um grito e eu estou ali fora. Quinze minutos.

 

Ver o homem de cassetete abrindo os grilhões me trouxe a lembrança de que ele já o usara para massagear meu ventre. E a dor ao me mexer. As lembranças voltavam. As do presente. Polícia chutando a porta. Tudo bem armado. Filho da puta.

 

– Bem… encontraram você numa sala comercial que não está em seu nome. Invadida. E havia um cadáver lá.

 

– O filho da puta morreu?

 

– Sabe o nome dele.

 

– Não. Quer dizer, sim.

 

– Pode me dizer.

 

– Caveira.

 

Houve um silêncio constrangedor. Ela continuou.

 

– Bem… seu amigo Caveira… ele tinha uma doença terminal. Morreu em consequência dela. Mas parece ter uma briga terrível antes. Ele estava bem ferido. Ou fora recentemente abusado. Torturado. O que você sabe sobre isso?

 

– Ele chegou lá andando. E me jogou uma faca. Eu só tentei me defender e falhei.

 

– Seu ferimento não era profundo. Pegou exatamente sobre o osso do peito e não atravessou. Mas ele…

 

– Tiros. Acertei algum?

 

– Hmmm. Pode me explicar a situação?

 

– Qual é meu nome?

 

– Você não lembra?

 

– Quero que você me diga… por favor.

 

– Bem, nós não sabemos ainda. Se você puder nos ajudar.

 

– Isso explica esse mole todo. Não sabem quem sou eu.

 

Foi para desnortea-la. Levantei-me de súbito. Chutei a mesa, mas não pra machucar. Ela gritou e o guarda entrou. E me encontrou torcendo o braço dela com a outra mão em sua traqueia.

 

– Você não grite. Ou eu te esmago a traqueia. E você me dê sua arma. Ou eu esmago a traqueia dela. Se tentar atirar eu mato os dois.

 

– Larga isso, CAVEIRA!

 

– Vocês pensam que eu sou aquele psicopata que sai pra matar pessoas DE GRAÇA?! Vocês me dão nojo. Me dá essa arma ou ela morre!

 

– Não cooper… guuucchhh…

 

– Vermelha. Ela tá ficando vermelha, seu guarda. E do jeito ruim, não do jeito bom. Tem uma câmera ali e isso vai pra tua ficha. Ou pra internet. Covarde. Cagão. Covarde. Ou atira em mim, aliás, em nós. Ou então larga essa porra no chão e vai embora. Volta com uma anti-tanque, se quiser. Vai!

 

A arma quicou no chão e o guarda saiu. Joguei a doutora pra trás. E apanhei o revólver. Enfiei a cadeira bloqueando a maçaneta. Então comecei a sentir cutucões. Quando relaxei, percebi que eram dor. Ela me batia. Eu a empurrei. Sou um profissional frio e não faço essas coisas por prazer.

 

– Ei, relaxa. Eu não faço essas coisas por prazer. Mas não posso ir pra cadeia. Eu não vou te machucar. Nem fazer nada que você não queira… exceto te obrigar a me ajudar a sair daqui.

 

Ela não parava. Depois do terceiro tapa no rosto eu apontei a arma e ela se acalmou.

 

– Pronto? A gente não pode dar tempo deles pensarem muito. Foi!

 

Puxei a moça e botei ela de escudo de novo. Chutei a cadeira e o novato entrou. Azeitona na cara. Hahahahaha! Ah… não dá pra dizer que não é divertido!

 

Corremos pela parte do prédio que parece mais um escritório. Eu só gastava as balas em quem ficava na frente ou pra fazer barulho perto de quem gritava mais. E ria mais alto. Acho que só bem perto da morte dá pra se sentir tão vivo.

 

Na rua, joguei ela na frente de um carro lento. Um bom homem parou, assustado, e foi ajudar ela a se levantar. Eles sempre prestam atenção no problema errado.

 

– O que aconteceu com a senhora!?

 

– Isso – não mostrei a arma até estar perto o suficiente. Ele teria corrido. Mas não podia gastar balas. Dei uma coronhada no rosto e chutei ele de mim. Deixara as chaves na ignição. Graças, Pai, pelos homens que não são mesquinhos. Que tenham um lugar de honra no banquete do Valhalla.

 

A primeira bala passou zunindo entre nós. Apontei para a doutora e disse.

 

– Entra no carro. Eles não ligam mais pra ti. E eu preciso da senhora. Foi!

 

Dirigi para longe. Até descerem, entrarem nos seus e começarem a nos perseguir eu trocara de carro duas vezes. Pelo que me lembro. Memórias são uma confusão dolorosa e desnecessária.

 

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Texto de: Luiz Hasse
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