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CAPITULO V – O FIM

Três assassinatos.

É engraçado. Mas no fim fui para a cadeia pela morte do cão de guarda dele e de duas de suas vítimas. Que eu posso dizer do tempo da prisão? O inferno que todos imaginam, eu vivi lá. Decidi não contar a verdadeira história. Afinal, da prisão eu poderia sair um dia. Do sanatório, talvez nunca.

Carlos Ruthven fora o nome que ele dera. Era real? Não sei. O fato é que, oficialmente, ele não existia. O dono da casa era o homem que eu matara com o taser. Ataque cardíaco. Eu exagerara na dose.

Vinte anos depois aqui estou eu. Finalmente livre. Meus pais morreram enquanto estive preso.Os empregos que pude arrumar não são lá grande coisa, mas dão pra pagar a comida e algum aluguel barato. Um deles foi de guarda-carros na frente de uma boate.

Foi lá que a vi.

Ela passou por mim na entrada e olhou-me direto nos olhos. Não sei se era reconhecimento imediato. Porque eu mudei.

Mas ela não. Continua o mesmo rosto. Os mesmos olhos. O mesmo sorriso. Linda.

Mas está diferente. Há uma amargura e uma malícia que eu posso ver lá no fundo. Um prazer que parece se originar de fontes profanas.

Uma tristeza, também? Um lamento?

Ela estava acompanhada por um homem aparentemente bem mais velho da primeira vez. Eu a vi chegar e sair com três companhias diferentes até agora.

Mas não vi nenhuma das três depois.

– Clarice! – disse eu na rua escura, quando ficamos só nós dois, ela cinco metros na minha frente.

– O que você quer? – havia enfado em sua voz, quando ela se voltou para mim.

– Perdão… eu não pude te salvar…

– Foi com outra pessoa e foi em outra vida. Não há para quem pedir perdão agora. Vá para a casa e viva o tempo que você ainda tem. Eu não voltarei mais aqui.

– Não precisava ter sido assim. Eu não queria que tivesse sido assim. Se eu soubesse teria matado ele antes.

– Aconteceria com alguém. É inevitável. A maldição prossegue até o fim do mundo. Uma vítima se levanta de tempos em tempos. Especialmente quando o seu algoz morre.

– Tem algo que eu possa fazer? – lágrimas escorriam de meu rosto.

– Eu estive sozinha nos últimos anos. E vou continuar sozinha. Tenho me virado bem.

– Você não precisa estar sozinha.

Ela sorriu então. Aquele sorriso tinha parte da graça do sorriso de que me lembrava. Foi um bálsamo vê-lo. Uma névoa começou a ser formar ao redor de nós. Ela sussurrou e mesmo assim o sussurro chegou até os meus ouvidos, como se fosse proferido com os lábios em minha orelha:

– Cuidado… Eu sou tentada muito facilmente.

E o sussurro se transformou num riso e ela desapareceu no véu cinzento.

 

. . .

 

 

Esta história chega ao fim agora.

Eu terminarei estas páginas e as guardarei no casebre onde moro. Talvez alguém delas faça um bom proveito.

A Lua está linda. É a noite de aniversário da morte dela.

Minha janela está aberta. É o melhor convite possível sem palavras.

Eu te espero, Clarice.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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