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CAPITULO IV – Penúltimo

Acordei em minha cama. E até hoje não sei como cheguei lá. Acredito que ele teria me matado, mas alguém deve ter aparecido. Provavelmente cambaleei de volta semiconsciente. A dor no meu ombro permanecia. Era terça-feira de manhã. Acabava de despontar o sol. Minha mãe chorava ao pé da minha cama.

– Filho… fica calmo e escuta o que eu vou te dizer…

A notícia chegara. Clarice estava morta.

Morrera em seu quarto. A expressão “mal súbito” foi usada. Não, ninguém sabia ou supunha que ela tivesse saído durante a noite.

Cheguei a me perguntar se eu sonhara tudo aquilo, mas foi por um breve instante. Hoje eu sei melhor do que isso.

Um dia ou dois depois acompanhamos o caixão ao cemitério. Ela ainda era bela quando foi enterrada, apesar da marca de fraqueza que a doença que a matara deixara no cadáver. Minhas lágrimas foram discretas. Mas sofri como poucos ali.

Talvez como ninguém mais.

Porque eu sabia.

 

. . .

 

Eu sabia o que ele era. E imaginava que, quando ele chegara, ficaria por um tempo. Por isso aguardei. Comecei a circular, sempre após o por do Sol, próximo dos dois lugares onde o tinha visto. A casa de Clarice e a danceteria onde fôramos aquela noite. Talvez morasse perto e a observasse há muito tempo. Talvez costumasse ir na danceteria. Eram as pistas que eu tinha.

Negligenciei a escola. Minha família estranhou meus novos hábitos noturnos. Foram muitas as discussões e brigas. Ao longo dos meses seguintes, o relacionamento com meus pais degenerou. Nesse meio tempo me formei e fiz meus dezoito anos.

No fim, o encontrei por pura sorte. Voltando de um de meus passeios, com a mochila nas costas, vi ele sair de uma lanchonete da moda naqueles tempos. Trazia junto com ele uma outra moça a tiracolo, sorridente e encantada com seu príncipe.

Ambos embarcaram em um carro de luxo que aguardava ali fora. Um homem mais velho, de uns trinta anos ou mais, era o motorista. Devidamente uniformizado. A pose de rapaz rebelde não queria dizer que ele não tivesse dinheiro.

Havia um ponto de táxi por perto e segui o carro. Fui indicando o caminho como se o conhecesse, mas ficamos na cola do carro. Até ele chegar a uma casa ampla, de dois andares, cercada por uma grade com portão eletrônico. Não era uma mansão. Mas era uma boa casa. Classe média alta.

Passei com o táxi em frente e fui pra casa. Todo o dinheiro que eu tinha se foi nesta corrida.

 

. . .

 

No dia seguinte, com o Sol sobre o céu, eu fui até a casa.

Toquei a campainha, sempre com a minha mochila a tiracolo, e algo mais no bolso.

O homem adulto cruzou da porta até o portão e perguntou o que eu queria. Eu disse que tinha um pacote para entregar. Ele perguntou se dava para passar pelas grades. Falei que dava.E o atingi com o taser. Um mês fazendo os trabalhos escolares de um colega com os contatos certos me dera aquilo. Mantive a máquina junto do peito dele por bastante tempo. Quando retirei, ele caiu inerte no chão.

Eu tinha que ser rápido. Puxei o corpo, tateei o seu bolso e achei as chaves do portão.

Entrei no gramado, abandonando-o onde estava.

O interior da casa era limpo, arrumado, moderno e impessoal.

Mas eu sabia onde procurar.

A porta que levava para o porão era de madeira de lei, e tinha fechaduras que eu não conseguiria abrir. Sabe o que mais eu tinha em minha mochila?

Ácido.

Lá, descendo escadas de pedra e entre paredes de pedra, ele estava.

Dormia o sono dos mortos que eles dormem durante o dia. Tinha os olhos abertos e vidrados no teto. Um vão fora escavado na pedra do chão. Funcionava como uma rasa banheira. E estava inundada de sangue tingindo de vermelho seu corpo nu. Havia duas belas jovens mortas, uma de cada lado dele. Suas gargantas estavam abertas.

Ele não podia se mexer, mas seus olhos voltaram-se para mim.

Eu conhecia esse truque. Mirei meu olhar no peito dele. Onde batia seu coração.

Retirei de minha mochila o martelo, a estaca e a serra. Foram precisos muitos golpes de meus braços finos para finalmente fazer todo o caminho. Mas o perfurei de lado a lado. Ele gritou sem se mover. Um grito que nada tinha de humano.

Puxei o corpo trespassado para fora daquele leito macabro. Serrei o pescoço com fúria. Quando finalmente separei o corpo da cabeça, coloquei-a entre suas pernas.

Enfiei uma cabeça de alho inteira em sua boca que não mais se movia.

Os anos pareciam alcançar aqueles restos mortais. Mesmo morto, ele envelhecia rapidamente. A pele começava a descolar-se dos ossos. O tempo cobrava a sua dívida.

Eu o ajudei. Retirei a garrafa de gasolina que trouxera e derramei sobre aquela carne profana.

Risquei um fósforo. E no fim só sobraram cinzas.

E então as mãos me agarraram.

Quando ele não mais existia.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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