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CAPITULO II

No dia seguinte, liguei para ela.

– Alô…? – disse uma voz de ressaca do outro lado.

– Oi. Não te vi sair antes.

– Ah… sim… é verdade… o Ru me levou pra casa…

– Ru?

– É… o carinha que eu fiquei ontem…

– Tá tudo bem?

– Sim, sim. Tudo ótimo. Ele é fantástico, Augusto. Acho que é o primeiro cara de quem eu gosto de verdade…

– Mas… você conhecia ele de outro lugar?

– Não. Conheci ontem. Engraçado, né?

– Então como…?

– Sei lá. Aquelas coisas astrais. Parece que conheço de outras vidas. É como se a gente estivesse ligado profundamente.

Ela falava com entusiasmo. A voz de ressaca passara completamente. E aquela conversa era estranha. Eu nunca a vira assim por ninguém. Já estivera apaixonada antes. Mas não tão rápido e tão profundamente.

Em seguida, ela acrescentou:

– Olha… eu vou desligar… tenho um monte de coisas pra fazer agora… te cuida, beijo.

Eu não tinha nada de importante pra fazer. Era domingo. Dia de matar tempo. Por sorte tinha um videocassete no quarto e passara na videolocadora. Nada melhor que me distrair de uma situação com a qual eu já devia ter me acostumado. Assisti a três fitas de terror, uma atrás da outra. E depois mergulhei num romance do Sr. King. Quando anoiteceu, cuidei dos deveres da escola.

Adormeci.

Acho que foi minha última noite tranqüila.

 

. . .

 

No dia seguinte na escola, Clarice estava estranha.

Mal falava comigo. Na verdade, mal falava com qualquer pessoa. Sua palidez era digna de nota. Parecia respirar com dificuldade. E sempre fora não apenas saudável, mas também alegre e vibrante, sem ser dada a crises de timidez e mau humor.

Quando finalmente adormeceu numa das aulas, o professor temeu que ela estivesse doente

– ou talvez usando drogas, e confesso que pensei nisso também – e pediu que ela se retirasse e telefonasse para a casa.

– Não. Tá tudo bem. – disse ela aprumando-se.

– Clarice, eu insisto. Vai até a diretoria. – disse ele.

– Não. Não. Me deixa aqui. Tá tudo bem.

– Clarice, você não está bem. Por favor, pega o teu material e…

– Não! Não! DROGA! NÃO! VAI A PUTA QUE O PARIU! NÃO VOU SAIR!

Aquilo colocou a sala de aula toda embasbacada. Ela se levantava e, com os olhos e as faces vermelhas, ergueu as mãos como se fosse agredi-lo. O professor deu um passo atrás, a princípio também assustado. Mas depois se controlou. Mandou o representante de turma chamar alguém da direção. Clarice arfava como um animal raivoso. E depois tombou na cadeira, chorando. Foi conduzida, como um zumbi, para fora da sala de aula. E não voltou naquela manhã.

 

. . .

 

– A Clarice está doente. Não pode atender ninguém – disse o pai dela ao telefone.

– Eu sei que ela passou mal hoje. Eu só queria saber se ela está bem.

– Vai melhorar. Agora preciso desligar. Com licença.

Coloquei o fone no gancho. E a ansiedade e a preocupação me atormentavam.

Minha mãe passou por perto.

– Preocupado com a amiga, filho?

– Sim… ela passou mal hoje. Não sei o que ela tem.

– Vai mais tarde na casa dela. Não agora, que você acabou de ligar. Mas usa uma desculpa qualquer. Diz que foi levar os cadernos com o material da aula de hoje.

Ela sorria.

Eu tinha uma mãe de ouro.

Uma das coisas que perdi.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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