A noite em que ela se foi era uma noite quente e tranquila de verão.
E foi por isso que resolvemos voltar para a casa andando. A distância era pouca e éramos jovens. A invulnerabilidade que essas coisas traziam era, supúnhamos, plena. Caminhávamos lado a lado, depois do cinema, de mãos dadas.
E passávamos diante de uma pracinha que ficava a poucas quadras da casa dela. Foi ali o início do pesadelo.

Um homem saiu de sob a sombra das árvores e aproximou-se de nós. Não havia nada de especial em suas roupas ou modos. Mas aquilo me inquietou. Ele olhou para cada um de nós como se nos avaliasse. E pareceu que diria alguma coisa.

No lugar disso, sua boca abriu, totalmente redonda, formando um O, e soprou em direção ao meu rosto. Um vapor amarelo e nauseabundo cobriu minha cabeça. Tossi, engasguei e perdi os sentidos.

Acordei no dia seguinte, sendo tomado por bêbado por algumas crianças ao redor. Ela não estava lá. Também não chegara em casa. Procurei a polícia. Procurei por ela. Tentei relatar o que ocorrera, com descrédito geral. Chegaram a suspeitar de mim. Mas ela não apareceu. Nunca mais.

O desespero da ausência é pior do que o da morte. Mas os anos se passaram e eu toquei a vida.

E foi assim que, muito tempo depois, a vi andando numa rua de outra cidade. O mesmo corpo e o mesmo rosto, como se o tempo não tivesse passado, mas uma ausência de emoção no rosto que inquietava. Não tive coragem de interpelá-la. Mas a segui.

Terminamos numa viela onde ela abordava um homem, de costas para mim. Pareceu haver uma espécie de diálogo mudo. E então o sujeito desabou no chão, como que atingido por um raio. Sem aparentar espanto, ela tomou nos braços alguém muito maior que ela e se afastou em direção a uma casa onde a rua terminava.

Ela ainda não me vira, e portanto me esgueirei até o local. Ela parecia com pressa e apenas bateu a porta. Tomei coragem e empurrei com ombro, forçando a fechadura.

O homem desacordado estava no chão de um cômodo vazio e uma silhueta escura, cujos contornos eram difíceis de ver, aproximava-se de seu rosto, com uma ânsia e voracidade incontidas. Ao sentir a luz do sol incidindo sobre si, porém, a coisa olhou para mim, onde vi uma boca perfeitamente redonda e olhos que trocavam de cor alucinadamente. Ela chiou e se afastou de sua presa, entrando por uma porta escura que mais tarde vim a saber que comunicava-se com o sistema de esgotos da cidade.

Pilhas de ossos amontoavam-se junto às paredes. Mas isso não era o pior. Penduradas em ganchos havia peles humanas totalmente esvaziadas de carne e ossos algumas entrando em estado de putrefação, outras tornando-se rígidas ou cinzentas, numa ordem que presumia uma escala de antiguidade.

E a mais nova delas, ainda inteira, mas começando a se deteriorar, era a de minha amada.

Texto de: Luiz Hasse
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