I

O homem andou pelo corredor escuro. Era protocolo ali apagar as luzes assim que fosse a hora de dormir. E esse horário era bem tarde.

Abriu a porta do quarto dos fundos e percorreu os catres no chão com a lanterna.

Ela já o esperava. Acordada. Olhos de gazela hipnotizada pelo súbito surgimento de um farol.

Ele sorriu. Ela não podia ver na escuridão.

Mas mesmo assim ela se levantou e o seguiu.

Uma outra apenas acordou. Não deu importância e voltou a dormir. Era normal. Às vezes uma delas fazia favores especiais aos leões de chácara por algum pequeno benefício. Especialmente as mais novas. Até perceberem que era tão fútil quanto toda a forma de resistência.

O homem e a mulher – que idade tinha? Tão jovem, rosto de menina ainda – foram até a salinha onde ele tinha uma luz acesa. Era onde ele ficava. Queria luz. Queria vê-la. Aquele corpo jovem e bonito.

Ela começou a despir-se, sem ele ordenar. Já estava apenas com a calça que usava para dormir naquele tecido frio. Ele estava sentado.

Ela se aproximou. Montou em seu colo. Esfregou suavemente os seios pequenos e firmes no seu rosto.

A mão veio veio rápido, com a faca que ela roubara do refeitório, e atravessou o pescoço dele. Ainda era um guarda inexperiente. E não viveria para ganhar experiência.

Ele a empurrou, ainda consciente, mas ela não parou de manejar a lâmina. Barriga, barriga, barriga, braços que tentaram se defender, rosto, de raspão, ele vacilou um pouco, zonzo, e ela acertou mais uma no pescoço.

Ele agora era só um monte de carne sangrenta no chão da salinha. Ela não parou pra contemplar. Nada de gozo da vitória. De poses triunfantes. Nada disso. Vasculhou o cadáver rapidamente a achou o que queria. A expressão agoniada.

Controle remoto. Molho de chaves. Apanhou-os, saiu da salinha e desatou a correr pelo corredor. Descalça, usando apenas uma calça de tecido leve, do pescoço até a cintura pintada de vermelho. Ainda tinha a faca, mas dificilmente ela a salvaria de novo. Agora era questão de velocidade.

Hora de ir.

De fugir do Inferno.

II

Alice ergueu os halteres. Estava conseguindo marcas que não conseguia antes. Última série. Feito.

Ergueu-se do aparelho e contemplou ao redor de si a sala de ginástica que havia agora no porão da casa de seu avô. O avô que conseguira resgatá-la da encrenca em que se metera um ano atrás.

Se metera, não. Alguém armara pra ela.

Ela passou em frente ao espelho. O corpo flexível, magro, com músculos rijos, suado, ainda era atraente por trás do uniforme de ginástica. Mas estava cada dia menos parecido com o corpo de modelo que sempre tivera e mais com o corpo de um soldado. Seus longos cabelos esvoaçantes nunca mais estariam naquela cabeça de novo. Religiosamente, uma vez pela manhã e outra pela tarde, a máquina fazia o seu zumbido sobre o couro cabeludo.

Nada de brincos, maquiagem ou qualquer outra máscara.

Ela era o que era agora.

E via o que via.

Seu pai estava no espelho

Seu pai morto.

Apenas ela era capaz de vê-lo. Diferente daquele seu outro amigo que, pelo que ela sabia, convivia com uma multidão deles, ela não via mais ninguém. Apenas ele. Ele não conversava banalidades. Sua expressão de sofrimento inquebrantável também nunca se modificava. Sequer movia os lábios. Mas mesmo assim ela ouvia-lhe a voz.

Ela teria acreditado piamente que estava ficando louca.

Se as coisas que aquele homem – homem? Espírito? Demônio disfarçado num rosto familiar? – dizia não se confirmassem na vida real.

Você vai precisar de ajuda. Da ajuda de um monstro. Mas é um monstro que você pode controlar. Eu vou te dizer onde encontrá-lo. Mas seja rápida. Ou então ele não estará lá mais por muito tempo.

 

.     .     .

 

Julio acordou. E não estava no Inferno. Ou pelo menos pensava que não estava.

Com qual das partes eu sonhei? O que aconteceu antes?

Estava despido. Num leito de hospital. Mas não era um hospital. Era uma sala na casa de alguém. Havia um faixa em seu tornozelo. Ainda sentia as dores de antes, mas mais suavemente. Tentou se levantar e sentiu o seu pulso esquerdo preso pela algema na grade da cama.

A porta se abriu e ela entrou:

– Oi.

– Oi.

Ela não esperava exatamente aquela resposta dele. Um homem alto, forte. Quase bonito. Completamente careca. Tratara dele por três dias. Nenhum fio de cabelo crescera acima daqueles frios olhos azuis.  Seu corpo era cheio de cicatrizes. A pior delas ficava na nuca. Evidente para quem o visse pelas costas.

Ele parecia calmo. Nem sequer particularmente incomodado com a situação.

– Então… você é o Julio, não é?

– Sim. Sou Julio Hertz. Por que estou vivo ainda?

– Não sei. Sorte, eu acho. Quando te achei naquela cova você estava praticamente morto. Dá pra dizer que foi um milagre.

– Isso não responde a pergunta.

– Então… você é direto e eu também sou. Eu sei o que você faz.

Ele sorriu enquanto dizia:

– Que bom! Te recomendaram meus serviços? Bom saber que eu ainda tenho uma reputação, pois andei com muito azar por esses tempos. Pode apostar que sou o melhor detetive do mercado.

– Detetive?

– Claro. Não há quem investigue tão bem quanto eu. Descubro o que quiser. Onde está, o que está fazendo, e por quê.

– Olha, você não precisa fingir… eu sei que você é um assassino profissional.

– Não! – disse ele com uma voz quase ofendida – Eu sou um detetive. O melhor. Sempre quis ser um detetive. E é isso que eu sou. Um assassino é um incapaz semi esperto com uma arma. Ele não tem minhas habilidades investigativas. Eu descubro as coisas. Melhor que qualquer um. Se o cliente quer que a pessoa que ele está procurando morra… o cliente tem sempre razão. Eu não discuto. Eu agrado o cliente. Meu preço é caro. Eu não negocio. Garanto qualidade, mas só aceito o dinheiro de quem pode pagar por ela.

Ela pareceu chocada. Mas apenas por um instante.

– Hmm. Entendi. Então é o seguinte, Júlio. Eu não sei qual é o seu preço. Mas eu tenho uma proposta. Essa parte da casa tem isolamento acústico. Se eu simplesmente der meia volta e trancar essa porta, você morre de fome aí dentro, mesmo que consiga soltar o pulso. Eu quero a sua colaboração numa coisa que vou fazer. E o pagamento vai ser eu abrir essa algema e te dar o material que você precisa para o trabalho.

Ele ficou visivelmente com raiva. Depois pareceu confuso. Depois ficou atento como uma raposa.

Vasculhou com os olhos o ambiente ao redor. Deu uma mexidinha no pulso. Sem chance de soltar. Nenhum objeto pra pegar com a mão direita e usar nela. E ela estava a uma distância segura. Pelo tom de voz, falava a verdade sobre a salinha.

Ela aguardou, com expectativa ansiosa. A mão pronta pra puxar a pistola de dentro da jaqueta verde oliva que usava. Ele parecia indefeso. Mas seu pai havia dito que ele era uma cobra. E cobras são sempre perigosas, mesmo quando parecem que não. Só se lhe arrancassem as presas para ficar inofensiva. Mas ela precisava das presas dele.

E então ele sorriu de novo:

– Feito.

Pode confiar. Ele tem o seu próprio código de honra, na falta de uma palavra melhor. Ele vai fazer o serviço. Agora explique pra ele e garanta sua segurança.

– Eu sei que nós vamos ter que entrar num lugar e tirar uma pessoa de lá. Ainda não sei detalhes. Você vai me acompanhar, me obedecer e me ajudar com o melhor de sua capacidade. Eu vou com você e você tem que garantir que eu sobreviva também. Eu nunca fiz isso. Então eu quero que você me avise se eu estiver fazendo burrada e quero que me dê conselhos. Mas a decisão final de tudo é minha. Depois estamos livres um do outro.

– E qual é o lugar e quem vamos tirar de lá?

– Esse é o problema. Eu ainda não sei. Mas meu pai garantiu que…

Uma mistura de tilintar e zumbido invadiu a sala.

O celular de Alice estava tocando.

Atenda.

III

 

Sob um céu escuro e fechado, debaixo de uma chuva que começava a cair e molhar o sangue que havia em seu torso nu, sem saber se tremia mais de medo ou de frio, ela estava agarrada ao telefone público. Quase uma relíquia de outros tempos. Ficava na beira da rodovia. Fora o fato de que era uma rodovia, ela não fazia a menor ideia de onde estava. Dos dois lados, apenas terrenos vazios e escuros, o mato por onde ela correra até alcançar o lugar, os pés nus feridos pelas plantas e pedrinhas, a calça que era sua única roupa esfiapando-se e enlameando-se.

– Eu não sei onde é que eu tô! Por favor, me ajuda, chama a polícia, qualquer coisa! Me tira daqui! Eu não sei… eu só lembrei do teu número… fica na beira da estrada…. de um telefone público… só tem mato ao redor. Eu não sei! Eu não sei!

Um clarão surgiu no céu e, em seguida, um trovão. A ligação emudeceu.

Um segundo clarão somou-se ao primeiro. Um carro.

Os faróis a fitaram e ela cobriu os seios, pronta a correr de volta para o mato.

Mas o carro parou e dela desceu uma senhora.

Embrulhada em uma capa de chuva, com o cabelo grisalho preso por um coque e um rosto de aflição e pena.

– Você está bem? – disse a mulher.

Então Sílvia começou a chorar. Fez que não com a cabeça.

– Querida.. entre no carro… o que fizeram com você?

– Eu tenho medo… eles devem estar me procurando…

– Eu vou te tirar daqui, venha.

Sílvia obedeceu.

– Tem um cobertor no banco de trás. Embrulhe-se nele e abaixe a cabeça. Se me perguntarem qualquer coisa, eu digo que estou sozinha.

 

.    .    .

 

Mudo.

O telefone estava mudo.

Alice gritou o nome da amiga. Tentou o redial. Nada funcionou.

– Essa é a qualidade de nossos serviços telefônicos – disse Julio – adoraria investigar quem são os responsáveis por isso.

Alice olhou para ele com raiva. Parecia uma piada, e não havia graça nenhuma na situação. Mas fora dito em tom sereno e com expressão imperturbável.

Ela não respondeu. Caminhou até ele. Tirou a chave do bolso e o libertou da algema. Ele se colocou em pé, esfregou o pulso e esperou. Ela notou a diferença de altura entre os dois. E de peso. Se ele quisesse, teria acabado com ela. E se ela tentasse puxar a arma, daquela distância, ele tinha uma boa chance de tomá-la. Mesmo com todos os exercícios e treinamento que ela vinha impondo a si mesma.

– Eu já sei qual é o serviço – disse Aline – presta atenção. Há um tempo atrás, uma amiga minha largou a faculdade dizendo que ia seguir carreira de modelo. Ela nunca mais fez contato. Se parar pra pensar, não faz muito tempo. Três meses. Não dei bola na hora, mas hoje recebi uma ligação dela. Parece que foi sequestrada. Falou de um lugar onde…

– Deixa eu ver o número.

 

.      .      .

 

O carro parou.

– Pronto, querida, pode descer – disse a voz da senhora.

Sílvia colocou a cabeça para fora do cobertor e se sentou, enrolada nele.

E então o grito saiu da sua garganta, como se tivesse vontade própria.

A velha estava na garagem daquele lugar.

Observando com uma expressão severa enquanto dois guardas a arrancaram de dentro do carro, entre gritos, chutes e lágrimas.

 

.       .       .

 

– Obrigado, Matias. Ah… deleta esse número do sistema, sim?

Júlio devolveu a ela o celular.

– Pronto. O meu contato na companhia telefônica disse a localização do orelhão. Não tinha muito problema porque era um orelhão. E ele me devia um favor.

– Que favor?

– A gente bebia junto no mesmo bar. Ele vivia se queixando que tinha uma sogra muito chata. Um dia chegou dizendo que sogra tinha sumido, que a esposa tava desesperada, e tal. E então eu contei pra ele o presente que tinha dado pra ele. Ele começou a me evitar depois disso. Gente ingrata é foda, né? Você tem um carro?

 

.       .       .

 

O doutor saiu da sala de operações. O chefe o aguardava do lado de fora.

– Pronto. A guria tá bem. Sobreviveu. E o seu cliente não precisa mais se preocupar com essa história de filho ilegítimo. Uns dias de recuperação e ela vai estar pronta pra trabalhar de novo.

Antes que o chefe dissesse algo, um grito feminino de dor veio de traz de uma porta fechada.

– Não dá bola – disse o chefe – uma delas tá no castigo.

– O que ela fez?

– Tentou fugir e matou um dos rapazes. Depois que sair dali ela vai pra vala.

– Se vão matar de qualquer jeito, porque estão castigando? Afinal… ela não precisa aprender nada, precisa?

– Sabe como é a velha. Ela gosta dessas coisas. Daqui a pouco ela fica satisfeita e para.

– Hmmm. Será que vai estragar a pele?

– O que importa? Ela vai morrer.

– Depende – disse o doutor – Posso dar uma sugestão?

– Fala – disse o chefe.

– Então… eu sei de gente que tá interessada num produto novo… começou como uma espécie de boato, eu acho. Uma história que alguém inventou. Só que dá pra fazer de verdade. E já deve ter gente fazendo.

 

.       .        .

 

O carro chegou até o orelhão. Fora a chuva e a escuridão de vez em quando cortada por relâmpagos, ninguém esperava por eles ali.

Julio desceu com uma lanterna e inspecionou ou chão lodoso do acostamento.

– Tá chovendo forte demais. Não dá pra rastrear nada.

– Por que será que ela não está aqui?

– O que você acha? Ela conseguiu fugir, mas a pé. Colocaram os cachorros atrás dela e a pegaram. Lide com a possibilidade de que ela já esteja morta.

– Quero achar o lugar onde ela estava. Ela  disse que parecia uma fábrica desativada. Onde guardavam várias moças como prisioneiras. Disse que algumas eram vendidas. Outras… alugadas. Levavam pra alguma festa ou puteiro de luxo e depois traziam de volta.

– Certo… aqui perto é o distrito industrial. Deve ter vários lugares pra procurar. Mas com certeza alguém sabe desse em específico. É uma questão de saber pra quem perguntar.

IV

O carro com os dois policiais levou um baque súbito. O da frente derrubou a lata de cerveja que tinha na mão. Alguém batera em sua traseira.

Um alemão de cabeça raspada e expressão de pânico desceu do carrinho popular atrás.

– Mil desculpas… mil desculpas… – disse ele – Vocês pararam de repente… eu não consegui evitar… eu… me desculpe.

Os dois desceram.

– Mão no capô! – gritou o primeiro, apontando a arma, enquanto o segundo descia com o cassetete na mão.

O segundo se aproximou, revistou-o e desferiu uma cacetada na parte de trás seu joelho. O alemão despencou.

Chorando, tentou se erguer, enquanto o primeiro empurrava a pistola em seu rosto.

– Tá a fim de ir pra jaula, careca? – disse o policial.

– Não tem como a gente resolver isso entre nós?

– Olha, quem sabe até tem… – respondeu o outro com um sorriso.

Uma das mãos do alemão moveu-se num tapa rápido que fez voar a pistola do policial. A outra mão agarrou a pele de seus lábios e o fez se dobrar.

O policial de trás largou o cassetete e sacou sua arma. Enquanto isso o careca tinha o seu companheiro com o braço dobrado nas costas e posicionado na frente de seu corpo como escudo. E começou a dar passos rápidos, girando com o refém ao redor do outro.

– Não atira! Pelo amor de Deus, não atira!

– Larga ele! Larga ele senão vou mandar bala!

Quando estava na posição certa, Júlio aproximou-se do outro numa corrida rápida e  empurrou o refém em sua direção. Não chegou a atingi-lo, mas enquanto um tropeçava e o outro desviava, ele se abaixou no asfalto e catou a arma que estava caída. Desferiu um tiro em direção ao rosto daquele que ainda tinha arma.

O outro tentou correr, a segunda bala varou seu joelho.

Enquanto gemia no chão, Júlio se aproximou.

– No joelho dói, né? Ainda mais assim, atingindo por trás. Então… eu quero fazer umas perguntas sobre um lugar aqui perto. Eu imagino que dois policiais corruptos saibam alguma coisa, já que vocês fazem a ronda na área. O seu amigo não tem mais como me responder. Não tenho culpa. Ele tinha o Sinal. Mas vamos fazer isso longe daqui.

 

.       .       .

 

Alice odiava esperar.

E odiava ainda mais esperar sem fazer nada.

Não havia nada que garantisse que aquele homem cumprisse  sua palavra – exceto o que dissera o espectro de seu pai, que ela não confiava em vida, mas que, até então, nunca lhe dissera nada errado na morte.

Na garagem da mansão de seu avô, que felizmente estava vazia, ela se exercitava. Os pés e mãos ágeis golpeavam o saco de pancadas.

Então Julio chegou. No carro discreto que ela lhe emprestara. O portão da garagem se abriu e ele buzinou.

– Vamos? Já sei o que a gente precisa saber pra começar. Só preciso pegar mais um pouco de equipamento num lugar perto daqui.

– Já estou com o meu – disse ela, puxando uma mochila verde de uma mesa.

 

.         .          .

 

– O lugar é um negócio bem próspero. Como todo negócio próspero, ele paga propina pra banda podre da polícia pra ser ignorado. Eles pegam moças bonitas, ou com lorota ou sequestrando mesmo, e depois distribuem. Daí pra dizer que é o atacado de muito puteiro que tem por aí. Mas só trabalham com o melhor e vendem para o pessoal que pode pagar mais. Além das zonas, tem também os compradores particulares. Homens ricos. Alguns da política. Até mesmo alguns juízes. Algumas mulheres ricas também. Mexer com um negócio assim é bem arriscado. Você ainda quer?

– Sim – respondeu ela.

Desceram no terreno baldio onde ele parara, bastante longe do orelhão onde havia tentando encontrar Sílvia.

– Ele me disse tudo que  sabia sobre a segurança do lugar. É bem discreto. Os vizinhos não sabem. E os vizinhos são só outras fábricas  do local.

Depois disso ele retirou do banco de trás do carro dois galões de gasolina. E começou a espalhar o primeiro sobre o  carro.

– O que você tá fazendo?

– Esse carro tá marcado. Se tinha alguma câmera de segurança na rua, ela viu o meu encontro com os policiais. E se tem uma coisa que eu não quero no meu encalço é a parte corrupta da polícia. Aliás, a parte honesta também não. Além disso, a arcada dentária e a ponta dos dedos ele perdeu no interrogatório. Mas quanto mais irreconhecível melhor. Depois dessa só com DNA.

– Ele está…?

– No porta-malas do carro, é claro. Tive que quebrar alguns ossos pra caber direitinho, mas tá ali.

Um fósforo acendeu a caixa inteira no meio da chuva.

– Te afasta – disse ele.

O carro virou uma tocha no mesmo instante.

E então Alice começou a ouvir os gritos.

Vinham do porta-malas.

– Seu sádico de merda!! – gritou ela, enquanto corria pelo mato, dando as costas ao carro em  chamas.

– O que foi? – Júlio parecia confuso com a indignação dela, correndo ao seu  lado.

A explosão que se seguiu cortou o diálogo enquanto eles se afastavam como sombras fugindo do fogo.

 V

A porta se abriu e Julio e Alice fedendo a fumaça entraram.

O escritório de Julio ficava numa galeria comercial no centro da cidade e tinha uma placa com um logotipo e INVESTIGAÇÕES PARTICULARES. A maioria dos vizinhos não sabia qual era a verdadeira natureza de seu negócio. Os restantes estavam misturados no concreto do fosso do elevador do edifício que a galeria atravessava.

Júlio passou pela mesinha vazia de sua secretária e entrou por uma porta num quarto escuro.

Alice observou o lugar e pensou que aquilo ali realmente lembrava o escritório de um detetive – ou, pelo menos, a ideia que a maioria das pessoas tinha de um – e ficou pensando em o quanto o assassino acreditava na própria fantasia que criara pra si mesmo.

E ele retornou antes que ele chegasse a qualquer conclusão. Trazia consigo uma caixa metálica estranha, mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos.

– O lugar em que vamos entrar tem alarmes bons, é monitorado por câmeras de segurança e provavelmente tem trancas eletrônicas. As janelas que dão para o exterior são cegas. Ou seja, são janelas de mentira. Esse aparelho aqui vai nos dar uma vantagem. Você aperta esse botão e ele emite um pulso eletromagnético. Vai danificar todos os aparelhos elétricos num bom raio ao seu redor. O suficiente pra apagar as câmeras, deligar os alarmes e trancas e deixar todo a instalação no escuro. Mas tem mais este truque.

Ele deslizou o fundo do aparelho, revelando um pequeno compartimento oculto.

– Aqui tem uma pistola. Esta protegido do pulso neste compartimento de chumbo. Ela tem mira laser acoplada e, além disso, uma lanterna. Com aquelas janelas, eles não vão ter luz exterior e vai estar um breu total. Tente ficar de costas para uma parede no escuro. Você vai denunciar sua posição assim que acendê-la. Por outro lado, você vai esta atrás da luz e enxergando melhor do que eles. Ponha o ponto vermelho na cabeça ou peito de cada um e comece a atirar. Se alguém olhar pra você, cegue com a lanterna e mande bala. As chances estão marginalmente a seu favor. Mas você tem que ser rápida.

– E como eu entro lá dentro? Porque mesmo com tudo apagado, eles ainda vão estar de vigia para o lado de fora.

– Você vai apagar as luzes já lá dentro. Aliás, eu vou. Como eles iam desconfiar se você mexesse na bolsa, eu vou ativar o pulso por controle remoto. E entrar logo depois de você.

– Mas como eu vou entrar se os alarmes e câmeras ainda estiverem ligados, gênio?

– Vão te deixar entrar. São traficantes de mulheres, não são? E escolhem as mais bonitas.

– Mas eu…

– Você quer salvar sua amiga? Atravessando aquela sala há um quartinho e um banheiro. O chuveiro é meio frio, e pode cair a chave geral se ele esquentar muito, mas o plano vai funcionar melhor se você estiver cheirando bem.

 

.        .        .

 

Enfurecida por dentro, mas treinando para usar o sorriso que usava em tempos mais ingênuos, Alice cruzava a rua com uma bolsa a tiracolo, usando maquiagem pesada e brincos, que jurara nunca mais tocar. Suas pernas eram exibidas pelo shortinho curto que usava, e sua barriga bem torneada pela miniblusa. Sobre tudo isso um casaco de ombreiras largas que parecia dançar ao redor do seu corpo. Ela sabia o que parecia e o que devia parecer.

Olhou para a fábrica. Sentiu um arrepio ao ver aquela monstruosidade escura e silenciosa. Negro acinzentado sobre um pátio nu de concreto cercado por uma cerca com um portão eletrônico na frente de um portão na construção. Uma guarita ao lado. Arame farpado e câmeras. E talvez uma cerca elétrica.

Mas na guarita havia luz. E um homem.

Ela sorriu. Acenou. Ele olhou de volta e sorriu também.

Ela odiou aquilo ainda mais do que imaginava que odiaria.

– Boa noite, princesa.- disse o homem – Que é que está procurando?

Usava um uniforme escuro de segurança. Parecia só mais um vigilante trabalhando. Ela viu a lanterna, o taser e o revólver na cintura dele.

– Oi. Eu tô perdida… eu vim pra uma festa, a trabalho. Mas eu não achei o lugar. E a bateria do meu celular pifou. Você me empresta o seu?

– Olha… meu celular tá lá dentro. Mas tá sem crédito. Entra comigo que eu te deixo usar o telefone fixo aqui.

E, inocentemente, abriu o portão.

Ela andou na frente do homem até uma porta menor que havia numa reentrância da construção. Dava para um corredor cinzento e quase nu, com fluorescentes lançando uma luz fantasmagórica sobre os dois. Ele abriu uma portinha lateral depois de alguns passos e disse:

– Entra aqui.

Ela entrou.

Era uma saleta com uma mesa e três cadeiras de aço. E mais nada. Uma lâmpada amarela brilhava no teto.

– Pode me dar a bolsa – disse o homem.

Alice hesitou.

Julio não a vira entrar?

Por que não ativava a droga do aparelho?

A luz continuava acesa. Ela pensou.

            Agora. Agora ela vai se apagar.

Mas antes que ela se apagasse, o guarda puxou a bolsa dela. E a luz continuava acesa.

            Bem… hora de improvisar.

O pé fechado no tênis de corrida moveu-se como uma cobra e atingiu o guarda na virilha. Ele gemeu e caiu de joelhos. Ela não se preocupou em tentar apanhar a bolsa. O aparelho caiu no chão dentro dela e soltou cacos. Fechou o punho e desferiu um soco no queixo dele. O deslocamento da mandíbula o fez ficar zonzo prostrar-se no chão Ela enfiou o calcanhar num pisão forte em direção a sua cabeça. Uma. Duas. Três vezes. Na terceira houve sangue.

E então escutou o tiro.

Estava perto da porta. Alguém vinha pelo corredor. Havia visto o que acontecia ali. A bala errara por pouco. Eles eram profissionais.

Ela recuou para dentro da sala, protegida pelo ângulo, e viu a arma no chão. Apanhou-a, e recuou para um canto. Com uma mão ergueu uma cadeira e deu cabo de lâmpada. Apenas a luz que entrava pela porta projetava uma sombra da mesinha de aço, e ali ela se encolheu.

Um outro guarda, uniformizado como o primeiro apareceu na soleira.

            Quem está no escuro vê quem está na luz. Mas quem está na luz não vê quem está o escuro.

E eles não sabiam que ela tinha uma arma.

Ergueu-se e disparou. A bala atravessou a testa do guarda. Pontaria certeira. Não era o primeiro homem que matava. E não seria o último. Estava ficando boa naquilo. E estava começando a gostar.

Um grupo de pessoas que se esgueirava silenciosamente fez barulho ao recuar e ver o companheiro cair. O ângulo era ruim. A porta ficava do lado do corredor. E ela só precisava puxar o gatilho se mais algum deles aparecesse ali.

Por outro lado eram vários.

E tinham tempo pra pensar em algo.

VI

 

No alto de uma fábrica comum, ao lado dos cadáveres de um vigia e da garota que ele convencera a se encontrar com ele naquela madrugada, Julio estava posicionado.

À sua frente, rifle sniper com silenciador, mira telescópica e visão noturna. No chão, a mochila de Aline com o equipamento restante. Na sua mão, o controle remoto do aparelho. Apertou o botão pela terceira vez.

Nada.

            Essa instalação tem mais truques do que eu pensava. Felizmente um bom profissional como eu sabe improvisar. Um detetive realmente competente vai ao fundo de tudo.

Disparou com o rifle, destruindo todas as câmeras que havia de frente para a fábrica.

Apanhou a mochila e desceu pelos corredores escuros da instalação. Pegaria o rifle mais tarde.

Ao passar pela entrada, o outro vigia que ele derrubara primeiro deu um gemido.

            Ainda estava vivo? Nossa, tô ficando descuidado. Mas não há risco. Ele tinha o Sinal. Seria morto por mim de qualquer maneira.

Tirou a pistola com silenciador do bolso e disparou em sua direção. Duas vezes. Seus olhos viram a Marca de Abel apagar-se da testa do cadáver.

Chegando até a instalação onde Aline entrara, cuja guarita estava vazia, disparou com a mesma pistola na fechadura por cuja porta o guardinha entrava e saia. E andou pelo pátio.

Um outro guarda veio pelo lado do edifício. Deveria ter ouvido o barulho dele, ou vinha verificar as câmeras que haviam subitamente ficado sem emitir sinal. Júlio disparou em sua direção três vezes. Na terceira, o Sinal em sua testa se apagou.

Diante da portinha por onde vira sua cliente entrar, Julio refletiu enquanto pegava um pacote de dentro da mochila.

            Ela tem alguma chance de sobreviver a isso. Mas nenhuma se continuar sozinha lá dentro. Estou fazendo o melhor pela minha cliente.

 

.       .       .

 

            Estou fodida, pensou Alice.

Uma mesa de aço fora empurrada até a entrada do local onde estava. A pistola que ela tinha não era pesada o suficiente para perfurá-la. E pelo vão que ficou, o guarda que estava atrás dela enfiou o cano de uma arma.

Metralhadora.

Ela podia tentar atingir a mão dele. Um tiro difícil. Uma chance.

E ela não tinha mais que um instante.

Então veio a explosão.

O ar deslocado derrubou o guarda, e fez as balas da metralhadora atingirem o teto. A mesa caiu. Ela viu fogo e fumaça pelo corredor. Ouviu os guardas correndo. Se afastando dali. Uma outra metralhadora fazia sua música.

E então, diante da porta, surgiu uma figura medonha que, quase num delírio, pareceu um gigantesco inseto humanoide. Um inseto letal. Armado, atirando e caminhando num passo lento, mas firme.

– Espera, sou eu! – exclamou Julio, por trás da máscara de gás erguendo as mãos, antes que ela atirasse.

– Por que não acionou a porra do seu aparelho?! – gritou ela.

– As paredes aqui são revestidas com chumbo. Meu controle remoto não funcionou. Se você tivesse apertado o botão, teria funcionado.

Jogou a mochila na direção dela.

– As armas são suas. O colete e a máscara que tem aí são meus. Coloca e vem.

 

.        .        .

 

Passaram pelos cadáveres dos guardas na curva do corredor. E então Alice viu.

O espectro de seu pai diante de uma porta trancada. Apontando a com a mão.

– É aqui.

Fechava por fora. Tinha um cadeado. Ela golpeou com a coronha de sua própria arma. Uma, duas, três vezes. A tranca saltou.

As portas se abriram e ela piscaram os olhos, desnorteadas pela luz. Deviam ser, talvez, uma centena ou mais. Camas rústicas junto ao chão, com cobertores delgados, espalhadas por um piso industrial, em confusão. Uma pia e um sanitário ao fundo. Elas estavam encolhidas num canto, com medo. Haviam escutado os ruídos de explosão e tiros. E ver aquelas duas figuras mascaradas surgindo de repente foi como ver dois marcianos chegando.

– Ela não está aqui… – murmurou Alice.

– Vamos fechar a porta e continua procurando? – perguntou Julio.

– Não. Precisamos tirar elas daqui também.

Julio caminhou até a que parecia mais forte e colocou a própria metralhadora nas mãos dela.

– Tinha um pouco de fogo na saída, mas já deve ter apagado. Esse lugar é quase todo de pedra, concreto e aço. Atira em qualquer pessoa que aparecer no caminho. O resto vai atrás de ti.

Ela pareceu confusa.

Alice completou:

– Corre.

E ela correu. A multidão a seguiu.

No corredor novamente, pairava um silêncio medonho, os dois se puseram a caminhar, seguindo o único caminho que existia.

– Quero achar quem dirige isso aqui. – falou Aline, mais para quebrar aquela quietude que por qualquer coisa.

– Um chefe não é chefe sem motivo, moça. Quando você estava encurralada naquela sala, talvez ele ainda estivesse por aí. Mas assim que a confusão virou contra eles, pode apostar que ele foi o primeiro a puxar o carro. Se alguém ainda está aqui, é porque não conseguiu sair.

E, de fato, na próxima curva do corredor, havia duas portas. Uma delas dava para uma sala vazia com jeito de escritório.

A outra dava para a garagem do local. Havia dois carros e uma van preta. Mas o portão estava aberto. E portão do pátio também.

Mais adiante no corredor havia uma grade que o interrompia, com uma porta recordada no meio. Atrás da grade o corredor tinha mais três portas fechadas. E então acabava.

 

Diante da grade estava um homem morto. Um dos guardas que os haviam recebido antes. Estava ferido nas pernas. Morrera de sangramento. Havia uma chave na fechadura da porta. A fechadura estava inclinada e a chave quebrada. A outra parte dela estava nas mãos do cadáver.

– Ele é o cara que estava atrás da mesa de aço prestes a atirar em ti quando entrei – disse Julio – Era esperto. Se tentou vir pra cá é porque aqui tinha algo que o interessava.

– Eu acho que ele tentou entrar aqui ao mesmo tempo que alguém tentou sair – disse Alice – E então se bloquearam.

– Isso significa que do outro lado dessa grade tem alguém. E que não tem armas de fogo. Se tivesse, teria atirado na fechadura.

Alice atirou na fechadura.

Os dois passaram para o outro lado.

– Porta número um, porta número dois ou porta número três? – Julio sorria.

– Engraçadinho… – disse Alice, séria.

E chutou a primeira porta.

– Espera! Não atira! – gritou o homem do outro lado.

Era um jovem que não se parecia em nada com um guarda. E estava apavorado.

– Eu sou só um técnico. Vim olhar o equipamento hoje. Nem sei direito o que acontece aqui. Não sou problema pra vocês. Por favor, não me matem!

Havia monitores naquela sala, ligados a um painel de controle. Cada um mostrando o que cada câmera filmava. Uma mesa e café. Alguns monitores estavam escuros.

– E onde a gente acessa pra ver as imagens que essas câmeras gravaram? Qual o endereço? – perguntou Julio.

– Não dá pra acessar na internet.

– Como não? Hoje em dia essas coisas são sempre armazenadas num servidor ou num HD com conexão.

– Eu sei. Mas os donos  do lugar disseram que não queriam correr o risco de alguém hackear. E a única maneira de garantir isso é não usar uma conexão virtual. Tudo aqui é armazenado à moda antiga.

– Sério mesmo?

– Sim. Fui eu que sugeri isso pra eles, porque senão hoje em dia qualquer guri de quinze anos com uma boa compreensão de informática poderia…

Julio nem chegou a olhar para o rapaz. Continuou observando os monitores enquanto sacava sua pistola com silenciador do bolso e disparava duas vezes em sua direção.

– Por que você fez isso?! – gritou Alice, surpresa.

– Ele não pode mais nos identificar. Mesmo mascarados, dá pra alguém começar a procurar gente com os nossos tipos físicos. E esse cara ia dar uma descrição bem detalhada assim que apertassem ele. Agora a gente só precisa destruir essas filmagens. Sabe que a ideia dele foi realmente boa? Acho que é isso que querem dizer quando dizem que alguém é esperto demais para o próprio bem.

– Talvez a gente tivesse conseguido mover e esconder ele em outra cidade. Ele parecia ser realmente inocente, seu bosta!

– Entre as várias ordens que você me deu, pediu para eu cuidar da sua segurança. Elegi isso como uma de principais prioridades nesse trabalho. Desse jeito era mais seguro. Além disso ele tinha o Sinal.

– Que porra de Sinal tu tá falando?

A porta dois se abriu e a velha veio, com seu rosto enfurecido que a deixava semelhante a uma harpia e cabelos grisalhos esvoaçante, vestida como gostava, em couro, látex, correntes e tachinhas, com uma tesoura afiada na mão. Julio girou o corpo se colocou entre ela e Alice. Ela tentou atingir o peito primeiro. O colete não permitiu que o golpe entrasse, mas ela era rápida e um segundo golpe tirou sangue do braço de Julio. A arma caiu. Ele a socou com a outra mão fazendo sua prótese dentária saltar e a mulher cair para trás.

– Sua bruxa! Sua vaca velha! Meu braço bom! Você acertou meu braço bom! Meu braço bom!

Ela não era nenhuma criatura frágil e preparou-se para levantar e contra atacar sem nem gemer. Mas Julio apanhou a arma com a outra mão e disparou em sua perna, abaixo do joelho. Ela caiu novamente, uivando de dor.

– É divertido quando alguém danifica um membro seu? É? É?

Era a primeira vez que Alice o via com raiva. A pose de profissional frio e impassível fora embora. Ele estava vermelho, gritando e ligeiramente trêmulo. Mas isso não prejudicava sua pontaria. Pois quando a inimiga ergueu a tesoura para arremessá-la, a próxima bala de Julio a fez saltar, junto com dedos dela.

A sala de onde ela viera tinha uma quantidade absurda de aparelhos de tortura. Algemas. Cavaletes. Palmatórias. Máquinas de dar choque. Cordas. Chicotes. Chicotes com pontas metálicas. Anzóis. Alfinetes. Alicates. Navalhas. Tesouras. Uma tina d’água. Sacos plásticos. Tudo cuidadosamente decorado nos rigores do fetichismo. Mesmo coisas que só poderiam causar machucados sérios e que ninguém usaria só como brincadeira.

– Gosta de dor, então? Vamos ver se gosta mesmo!

Julio inclinou-se sobre ela e apanhou seu outro braço. O pulso fez um estalo. E depois ele a arrastou e algemou na trave de um cavalete. Em seguida apanhou a tesoura.

Alice apenas observava. Não sabia direito o que deveria sentir com aquilo.

Ele cortou a barriga dela. Mas ela não morreu.

Quando Alice se deu conta do que estava acontecendo, finalmente decidiu parar de olhar.

Ele enfiara a mão no ferimento e puxara. Desenrolando o que havia lá.

Quando Julio deu-lhe as costas e fechou a porta, ela ainda gritava. Talvez gritasse por dias. Ele esperava que sim.

Alice, porém, continuara andando até a porta número três.

Sílvia está aqui.

E a arrombou com um chute.

 

 

VII

 

Parecia uma sala de cirurgia. E, de fato, era tão limpa e bem equipada que poderia pertencer a um bom hospital. Um homem de meia idade e barba por fazer, segurando um bisturi, acuado num canto, trêmulo, a esperava. Mas não ousou avançar para ela.

Sílvia estava sobre a maca. Ainda viva.

Mas haviam feito coisas com ela.

Suas pernas agora terminavam logo abaixo dos joelhos, envolvidos em ataduras. Ela não tinha mais antebraços, e os tocos recém-operados também estavam enfaixados. Seus dentes haviam sido removidos e havia uma dentadura ao lado, com dentes de silicone, pronta para ser inserida. Suas pálpebras estavam inchadas e os olhos um pouco vesgos. Ela estava acordando. Gemeu sem olhar para nada.

Alice esqueceu-se de tudo. Correu até ela, abraçou-a e chorou.

O médico teria tentado escapar, mas Julio entrou pela porta, recomposto e com o braço enfaixado num trapo de  roupa. A apontou a pistola, erguendo a outra mão com o dedo erguido, como quem pede atenção e silêncio.

– Eu vou cuidar de ti – disse Alice – eu prometo

– Ela não te entende –  disse Julio – Eu conheço esses olhos. Eles foderam o cérebro dela também. Se ela um dia reaprender a falar com o mínimo de coerência já vai ser um grande avanço. Eu vi essas coisas no manicômio.

– Você já esteve num manicômio? – pergunto o médico com uma voz tímida – Talvez eu possa te ajudar se você deixar.

– Eu? Nunca. De onde você tirou essa ideia?

Alice apanhou a pistola e disparou. Os poucos movimentos que o corpo de Sílvia faziam pararam. Para sempre. E então parou de chorar.

– Olha, eu não sei o que vocês pretendem – recomeçou o médico – mas me matar não vai fazer bem nenhum pra ninguém. A gente pode negociar. Tem dinheiro aqui. Tenho informações sobre outras pessoas. Sobre o cara que fugiu. O chefe. O responsável por tudo isso. Eu só cumpria ordens.

– Imagino que tenha bastante coisa naquele escritório – disse Julio.

– Exatamente. Mas eu sei de coisas que não estão lá e, se vocês deixarem…

– Julio – disse Alice com uma voz gelada de ódio – Coloca o doutor na mesa.

 

.       .       .

 

Amanhecia.

Mas, no interior daquele lugar, nenhum raio de sol entrava. Julio recolhera o único cadáver que estava no pátio e o jogara com os outros. Lá fora tudo era silêncio e a única coisa de visivelmente estranha era uma pequena porta que desaparecera cujos umbrais estavam escurecidos pelo fogo. Eles estariam já longe quando chegasse alguém. O que provavelmente seria lá pelo meio dia. A polícia não viera perturbá-los ainda, apesar do barulho de madrugada. A propina comprara aquela paz há muito tempo.

Quando saíssem, levariam com eles as gravações e tudo o que haviam encontrado de útil no escritório.

Na outra sala, a profissional contratada para ensinar boas maneiras às meninas da casa danificara a garganta de tanto gritar. Seus gemidos baixinhos e roucos, no entanto, continuariam por muito tempo.

Alice olhou no rosto do doutor e disse:

– É uma pena que você tão tenha mais olhos pra ver a nossa obra e nem língua para emitir uma opinião. Claro, não temos toda a habilidade do senhor. Foi mais uma coisa de amador, sabe? Torniquete, serra e maçarico. Mas não é que ficou uma beleza? Desinfetamos tudo muito bem. E não danificamos seus ouvidos nem seu cérebro. Quero que você entenda bem sua situação. Tem bastante dinheiro aqui. Dá pra providenciar uma boa enfermeira e uma casa de repouso das melhores. Um ato de caridade por um desconhecido. Eu não vou te matar. Você vai viver, doutor. E no que depender de mim vai viver por muito tempo.

Texto de: Luiz Hasse

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