Augusto olhou para o imóvel que acabara de adquirir. Dois andares, terreno na frente, o charme de uma construção antiga. Era perfeito, e fora comprado por uma bagatela num leilão. A dona, falecida no último ano, deixara uma série de prestações e contas vencidas que fizeram a casa e seu terreno serem tomados pelo banco pouco depois de sua morte.

E agora eram dele.

Apenas por um instante contemplou a fachada e depois adentrou o recinto, girando as velhas chaves numa velha fechadura que ainda funcionava.

Lá dentro, surpreendeu-lhe o quanto o lugar ainda estava limpo e organizada depois de tanto tempo. Havia uma ausência de eletrodomésticos mais modernos na cozinha, e os móveis, apesar de bem conservados, davam a impressão de ser antiguidades. Ele gostava de tudo isso.

Deitou-se no sofá e telefonou para sua noiva, a cidades de distância.

– Oi, amor. Consegui a casa. Não sei como mais gente não tentou arrematar o imóvel. É linda. Claro, precisa dar uma modernizada em algumas coisas, mas muito boa. Assim que você se mudar, vai ver como é ótima. Eu começo no novo emprego segunda-feira. Beijo.

Isto dito, mergulhou num sono sem sonhos.

. . .

Acordou com batidas frenéticas na porta da frente. E imediatamente pensou que deveria substituir o muro baixo por uma cerca de ferro.

Do outro lado do umbral estava um senhora de cabelo grisalho e expressão aflita. Olhou para Augusto como se demorasse a entender o que acontecia.

– A madame está? – perguntou a mulher.

– Ahn… madame? Você quer dizer quem morava nesta casa?

– Não mora mais? Eu preciso falar com ela. Sabe qual o atual endereço? Nunca imaginei que ela fosse se mudar.

Augusto respirou fundo. Era melhor ser delicado.

– Olha, eu acho melhor a senhora entrar e se sentar.

Instantes depois, ele declarava:

– Desculpe lhe dar a notícia deste jeito. Mas a antiga ocupante da casa faleceu. Eu sou o novo proprietário. Vocês eram amigas, é isso?

A mulher não pareceu triste. Apenas ligeiramente surpresa.

– Ela morreu? Eu pensava que ela não ia morrer. Não antes de mim. E você ficou com a casa dela. É parente?

– Não, não sou parente. Eu…

– Então devia sair desse lugar.

– Não estou entendendo a senhora.

– O senhor olhou todos os quartos da casa?

– Sim, olhei. E acho que a senhora deveria ir. Eu não sei se estou entendendo bem essa conversa…

Sorrindo, a mulher grisalha se levantou e ergueu a mão em direação a parede. Augusto deu um pulo. Um painel deslizou e revelou uma câmara secreta.

O lugar não era grande. As paredes eram forradas de veludo escuro. Havia espadas e punhais cruzados nas paredes. Mas o principal estava no centro. Uma mesinha redonda, com uma toalha azul onde estavam pintadas luas e estrelas. E sobre a toalha um globo de cristal.

– Ela era bruxa. Fazia suas consultas ali. Não é bom pra gente que não é dessa arte ficar nessa casa. Eu me consultava com ela. Não éramos amigas, não. Digamos que eu precisava dela. E ela do meu dinheiro.

– Entendo… olha, muito obrigado pela advertência. Mas vou correr o risco. Se puder me dar licença…

– Claro. Eu vou indo. Achei que tinha a obrigação de avisar. Tenha um bom dia.

E saiu sem olhar para trás, abrindo e deixando aberta a porta atrás de si.

Só então Augusto percebeu que ela não dissera seu nome.

Tinha diante de si um fim de semana sozinho. Deslizou o painel de volta, encobrindo a sala de consulta, e riu-se baixinho daquilo. Sentou no sofá e procurou algo minimamente não tedioso na TV.

Acabou por adormecer de novo.

. . .

O despertar foi súbito. Era noite. A TV estava fora do ar. A tela estava escura. Mas havia luz. Vinha de trás dele. Virando-se cautelosamente ele percebeu que o painel com a sala oculta estava aberto. E a bola de cristal brilhava.

O susto lhe gelou as veias, mas apenas por um instante. Logo em seguida ele pensou É um truque que ela usava para tirar dinheiro dos trouxas. Qualquer um com o mínimo de conhecimento em eletrônica pode…

E veio o gemido. Uma voz feminina, sensual, deleitando-se com o próprio prazer. Uma voz conhecida.

Seguindo uma atração irresistível aproximou-se da bola de cristal. A luz que ela emitia mudara. E ela exibia, tal qual fosse a tela de um computador ou de uma televisão, uma cena.

Ângela, sua noiva. Nua. Ao redor dela um quarto de motel. E um amante a acariciá-la.

Então o pavor tomou conta. Uma sensação de irrealidade tomou conta dele. Foi como se não apenas seu corpo, mas seus pensamentos paralisassem.

Então a cena mudou. Ela estava entre os lençóis. O amante adormecido. E ela acordada.

– Hora de ligar pro corno… – disse a imagem na bola de cristal.

Apanhou o celular de um criado-mudo.

Outro som se seguiu. O celular de Augusto tocando ao lado do sofá.

A raiva foi automática. Suplantou o pavor. Ele agarrou o próprio aparelho e jogou na parede, estilhaçando-o. No mesmo instante, a bola de cristal se apagou. E tudo ficou em trevas.

Veio a tontura. Tudo aquilo era demais.

Acho que estou ficando louco…

Então as trevas ficaram mais profundas. E o engoliram.

. . .

Augusto acordou novamente. Era dia. O primeiro pensamento que teve foi que tivera um pesadelo pavoroso. Mas então deveria ser um pesadelo muito realista. Porque estava caído diante da sala secreta, onde desmaiara. E os cacos se seu telefone se espalhavam pelo chão. No entanto, havia um detalhe alentador. O painel que encobria o cômodo da bola de cristal estava fechado.

Ele se levantou e olhou a cena ao redor. Mecanicamente, buscou uma vassoura e limpou o chão. Depois começou a pensar em como lidar com aquilo.

Talvez se eu simplesmente esquecer, nunca mais se repita. Talvez seja tudo da minha mente, e, se eu nunca mais abrir aquele painel nem falar sobre isso, será como se nunca tivesse acontecido.

Mas nesse instante a raiva voltou.

Mas e ela? E Ângela? Aquilo era real? Ela está me traindo?

Seus olhos se ergueram e buscaram o área da parede onde se ocultava a bola de cristal.

Não!

E se levantou, apanhou as chaves e foi para a rua.

. . .

No fim, não havia outra coisa natural pra fazer. Não havia sequer nada que pudesse ser considerado mais racional. Tirar a prova. Era isso que precisava, tirar a prova.

Depois de um dia andando pela cidade, almoçando em um restaurante, buscando algo com que se distrair, cogitando vender a casa, Augusto se convenceu a voltar para lá. No cair da noite, adentrou o lugar e, sem mais delongas, deslizou o painel de madeira.

No entanto, a cena era outra. O globo de cristal escurecera. E havia dois pontos vermelhos brilhantes no interior dele. Olhos. Ele reprimiu um grito.

– Sim, Augusto – disse a coisa que habitava o cristal – Ela está traindo você. E secretamente o considera um imbecil.

– Quem é você?

– Eu sou o espírito que habita este objeto. Estou preso aqui há muito tempo. Era escravo da bruxa que morava nesta casa.

– Isso é loucura…

– Você precisa de mais provas?

O cristal trocou rapidamente de imagem. Ângela e o amante rindo-se, abraçados, no apartamento dos dois.

– Eu só mostro a verdade. Mas posso conseguir mais do que isso – repetiu a coisa.

– O que você está dizendo?

– Vingança. Posso matar os dois pra você. Nunca imaginarão que você é o culpado.

– Eu não quero fazer isso… eu…

Novamente a imagem trocou. Outra cena com os dois nus. Na cama que dividira com ela.

Augusto deu um urro de raiva.

– Você sabe que você quer. Basta aproximar-se de mim e tocar o cristal. E dizer eu te liberto.

E Augusto o fez.

. . .

Ângela observou o corpo do homem que estava ao seu lado na cama. Os homens cansavam fácil, ela pensou. Mas ainda assim gostava dele.

Como era noite, precisaram se encontrar no motel novamente. Durante o dia os vizinhos fingiam que não viam nada. Mas as noites sempre despertam suspeitas.

Levantou-se, vestiu apenas uma camisola e abriu a janela. Estava quente. E ela gostava da brisa que havia nos andares altos da cidade.

O vento, naquele instante, soprou mais forte. E as luzes piscaram. Ela ouviu algo semelhante a um grunhido atrás de si. Imaginou que ele estava acordando. Virou-se.

Em seguida gritou.

Uma sombra erguia-se no quarto, segurando entranhas gotejantes nas mãos. Uma sombra de olhos de fogo.

A coisa se aproximou dela. E, em pânico, ela jogou-se no espaço, escolhendo uma morte com que o resto de sua sanidade saberia lidar.

. . .

Os policiais chegaram à casa. Imaginavam que a notícia seria horrível para o jovem que os esperava. A noiva não apenas o traía, mas assassinara o amante e se suicidara. Quantas decepções juntas no mesmo pacote?

Mas repetidas tentativas de fazer contato os deixaram desconfiados. E o carro estava ali na frente. Nenhum dos vizinhos os vira sair. Pouco tempo depois, arrombaram a porta.

O cadáver de Augusto estava caído dentro de casa. Diante de bola de cristal que tocara.

Enquanto um deles ligava para a delegacia o outro averiguava cuidadosamente a cena.

Subitamente, uma luz se acendeu. Durou apenas um instante. E apenas um deles o viu.

O rosto de Augusto estava atrás do cristal. E seus olhos brilhavam como fogo, enquanto suas feições aos poucos perdiam a humanidade.

Cidades de distância dali, uma coisa inumana ria.

 

Texto de: Luiz Hasse
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