CAPITULO UM

Éramos três amigos: Júlio, Mateus e eu. E, na noite em que essa história começa, havíamos ido para a Casa Velha.
A Casa Velha era como chamávamos a antiga casa da família de Júlio, o mais abastado de nós três. Não porque fosse uma edificação histórica ou porque estivesse em más condições, mas porque a família de Júlio, que rotineiramente se encontrava na chácara para festejar, havia construído uma nova casa na propriedade alguns anos antes, mais moderna e confortável, deixando a habitação mais antiga abandonada.
A Casa Velha ainda continuava firme e sólida e a mobília não fora retirada. Desde que nosso costume de passar algum tempo lá no verão a convite de Júlio se estabelecera, ela meio que se tornara nosso clube particular. Claro que as marcas de abandono aos poucos se instalavam, e animais gostavam de fazê-la seu covil às vezes, mas não havia medo de que ruísse e, pelo menos nos últimos cinco anos, nem uma única vez havíamos encontrado sinal de ter sido invadida ou depredada por seres humanos. Sentíamos-nos seguros por lá, e livres, como se sentem os jovens quando estão longe de responsabilidades e da vigilância dos pais.
Júlio era o mais galante de nós, podemos dizer assim. Rico, bonito e, o pior de tudo, gente boa, modesto e bom amigo, então era impossível sentir por ele o rancor que pessoas de origens mais humildes, como eu, sentem às vezes pelos que tem mais sorte. Mateus era de longe o mais ousado. Corajoso, sem dúvida, mas um bocado sem noção das consequências também. A amizade dos dois vinha de um período anterior. Eu só cheguei depois, nos últimos anos do colégio, num daqueles acasos que acabam por selar amizades duradouras: as necessidades de um trabalho escolar formando um grupo improvável de colegas que, por uma daquelas estranhas alquimias, perdura além do tempo da tarefa. Qual dos três eu era? Eu era o mais quieto, o tímido poder-se-ia dizer. Talvez um pouco covarde. Mais dado a livros que a pessoas e mais capaz de se expressar melhor por escrito que verbalmente. Queria ter sido escritor.
Tudo isso é uma sorte na condição que me encontro hoje.

. . .

Estávamos os três há poucas dezenas de metros da casa, que então estava escura. Em nossa frente, um antigo açude de pesca fazia brilhar a lua e as estrelas de uma noite calma de verão em reflexo. Ao redor, as árvores que havia na propriedade, bastante grande, por sinal, eram sombras imponentes.
Havia garotas, é claro que havia. Duas, uma loira e uma morena. E não é com orgulho que digo que, lindas como eram, hoje já não recordo seus nomes.
Júlio tocava seu violão à beira da fogueira, cantando baixinho, e a Loira o olhava como que encantada, em silêncio. Mateus desfilava um longo relato de uma proeza qualquer para a Morena, que ria, querendo aparentar desdém, mas deliciada.
De onde vinham aquelas duas? Amigas de Júlio, era tudo o que sabíamos. E haviam topado passar alguns dias na casa conosco.
De meu canto, eu observava o ritmo que as coisas iam. Dizer que era completamente feliz com aquilo seria exagero, assim como seria exagero falar em qualquer tipo de inveja amarga e rancorosa da felicidade e da alegria iminente daqueles quatro, pelo fato de eu estar sozinho. Eu já desenvolvera, naquele tempo, o talento para aceitar as coisas como são. Isso me foi muito útil.
Ainda é.
Suspirei fundo, finalmente, quando a canção acabou e todos aplaudiram. E alguém, acho que a Morena, percebeu que estávamos sem bebida.
– Vou pegar ali na casa…
– Vamos todos, então. Está ficando um pouco frio.
Caminhamos até a Casa Velha. Entramos e as meninas, rindo, atiraram-se ao sofá da sala juntas, impedindo que qualquer um sentasse ao lado de qualquer uma delas.
Quando a geladeira foi aberta, veio a decepção. Não havia bebida.
– Rapaz… – falou Júlio com uma expressão de pesar – Será que eu esqueci tudo lá na Casa Nova?
– Ih… saco… e buscar lá agora!? Tua família não vai incomodar? – emendou Mateus.
– Não tem problema… o problema é ir até lá.
Foi o momento de eu interferir. Já sabia que, naquela festa, eu seria a quinta roda do carro, então simplesmente completei.
– Eu vou.
Aplausos e gritos de “nosso herói”. Prêmios de consolação que relembro hoje com carinho. O que eu queria mesmo era uma desculpa para sair dali e, com sorte, voltar quando já estivessem cada dois em sua cama.
Peguei as chaves da casa, saí pela porta da frente comecei a caminhar à luz da lua pela trilha ladeada de pedras brancas que me conduziria, alguns minutos depois, à casa nova. Não me preocupei em levar lanterna. Conhecia o caminho, a noite estava clara e calma. Não tinha medo algum daquela escuridão.
Ouvi um farfalhar de folhas.
Algo me atingiu na nuca.
Eu vira Júlio, Mateus a Loira e a Morena pela última vez.

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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