As 8 e 22 de uma manhã de sábado o bar está praticamente vazio, há apenas uma mesa ocupada, dois caipiras maltrapilhos tomam seus cafés e reclamam do tempo nublado e da falta de serviço.

Adentrou no bar um homem alto, gordo, rosto redondo, inchado, levemente corado, costeletas longas, topete alto, vestia uma camisa de seda azul royal decorada com pequenos símbolos abstratos cor de ouro, calças de terno preta, e sapato de coro de cobra, trazia no antebraço esquerdo seu paletó. Ele cumprimentou os caipiras fazendo um gesto discreto com a cabeça, os mesmos não retribuíram, ele ignorou e sentou-se na copa a frente do barmen que o indagou demonstrando toda sua zanga matinal:

– O que vai querer?

– Bom dia… Me faz dois sanduíches de carne moída e ovo e um café preto.

– Não temos esse tipo de sanduíche.

– Hmm… Vocês fazem hambúrguer?

– Sim, só dois tipos, com bacon e sem bacon.

– Então, amigo… Simplesmente desfaça dois hambúrgueres e frite a carne junto do ovo e coloque no pão.

– Vou ter que cobrar a mais por isso.

– Sem problemas.

O barmen serviu o café e seguiu para a cozinha repassar o pedido, certamente, pediu para o chapeiro caprichar no tempero da carne.

Os caipiras que no primeiro momento ignoraram a presença forasteiro, agora o observavam rispidamente por cima das xícaras a cada gole de café:

– Marv, cê não tá lembrado dele não?

– Acho que sim, não sei, tenho a impressão que já vi esse diabo antes.

– Diabo mesmo, Van Bradley, o assassino mais miserável de Serra Lua.

– Puta merda, é ele mesmo!

– Fala baixo porra…

– Puta que pariu Lenny, ele tá um porco de gordo!

– Fala baixo caralho!

Os dois riram alto e atraíram os olhos do forasteiro, que os observou com uma expressão tranquila no rosto, os dois caipiras rindo, levantaram suas xícaras de café o cumprimentando, dessa vez, ele que não retribuiu o gesto, apenas virou-se para a copa, e tomou mais um gole de seu café.

Van Bradley, o assassino mais miserável de Serra Lua, os caipiras tinham acertado, o próprio, comia seu sanduíche favorito como primeira refeição do dia, após meses de terapia de autocontrole, Van estava de volta, mas não tinha a intensão de ficar, as 8:45 seu ônibus partia, em direção ao litoral.

Ele consultou as horas em seu rolex de prata, 8:39,  hora de partir, pediu para o barmen embrulhar o segundo sanduíche para a viagem, deixou uma nota de 50 dólares em cima do balcão e seguiu até a porta, sem olhar para trás, ainda escutava risos debochados dos caipiras, por um instante, parou de frente a porta. Fechou os olhos. Contou até dez. Respirou fundo. E seguiu até a parada com pressa nos passos.

Sentado na janela, admirava as paisagens que se faziam e desfaziam a cada metro superado de estrada, escutava no último volume nos fones de seu walkman, L’Orfeo sua ópera favorita, por hora a viagem estava sendo agradável.

Extasiado pela boa música e pelas belas paisagens, Van abria um sorriso sem motivo, sentia uma felicidade gratuita, como nunca antes tivera sentido, naquela hora, ele prometeu pra si mesmo que nada iria lhe estragar o dia.

A viagem seguia calma, mas, ao meio de L’Orfeo, sentiu seu braço ser beliscado, um aperto doído no seu braço esquerdo o fez virar de súbito e a velha, mais velha do que a morte, olhava-o no fundo da alma, ele tirou os fones para ouvi-la:

– Meu filho, você por acaso é surdo?

– Não, porque senhora?

– Essa merda tá muito alta, eu não consigo dormir.

– A senhora não gosta de ópera?

– Meu filho, vá à merda! Eu não tenho idade pra gostar de música alguma, agora faça-me o favor de desligar essa porcaria!

– Minha senhora, com todo o respeito, se está insatisfeita, troque de lugar com alguém e por favor não me encoste novamente, pois eu estou pouco me fodendo se você é apenas senil ou louca, se me beliscar novamente, vou lhe quebrar o pescoço.

A velha arregalou os olhos e tremeu o lábio, sentiu verdade naquelas palavras, sentiu o medo percorrer sua espinha, ela se moveu cirurgicamente no banco e se manteve calada, alguns segundos depois deixou um peido silencioso escapar. Van colocou os fones e voltou a ouvir sua ópera.

Perto do meio dia, o ônibus pararia num motel/restaurante/ posto de gasolina, um lugar feito para suprir os viajantes, feito para estar ali na estrada do deserto…

Aos poucos o ônibus foi se esvaziando, Van esperou que todos saíssem para sair também, a grande maioria entrava no restaurante alguns poucos acendiam cigarros, outros faziam fila para usar um telefone. Van comprou 3 heineken e caminhou até um banco que dava de frente para o deserto, um banco que parecia não fazer parte do lugar, deslocado, longe de todos, ele sentou e abriu a primeira cerveja, tomou um longo gole e contemplou o deserto num dia nublado.

Logo já estava atacando seu sanduíche de carne moída e ovo que tivera guardado do café, o dia estava nublado, o sol era abraçado por nuvens cinzas, que as vezes deixavam com que algum raio vazasse para o dia.

Já na sua última cerveja, Van sentiu a aproximação de alguém, discretamente ele olhou pelos ombros e viu um rapaz negro se aproximar, ele vestia roupas baratas, tinha uma cicatriz acima do olho esquerdo, usava cavanhaque, cabeça raspada e fumava um palheiro, o rapaz sentou em cima das costas do banco e estendeu um palheiro a Van que aceitou.

– Então, tu gosta de ópera? – perguntou o rapaz, acendendo o palheiro de Van.

– Sim. – respondeu Van, olhando para o nada, tragando o palheiro.

– Eu também aprecio, solto uma todos os dias no vaso pela manhã.

– Hmm…- respondeu Van, deixando um sopro de riso escapar.

– Olha cara, eu não quero me estressar entende? Eu acabei de sair da cadeia, só quero ficar tranquilo, então, vamos resolver isso numa boa, você senta no meu lugar e eu sento no lado da minha avó, o que você acha?

– Olha, eu gosto do meu lugar, não há possibilidade de eu sair de lá, então, que tal, eu apenas abaixar o volume?

– Cara, a velha tem bons ouvidos, e ela precisa dormir, não vou arriscar, ou você troca comigo, ou você espera o próximo ônibus, ou talvez a próxima ambulância. – disse o rapaz, abrindo seu canivete, com um sorriso sádico no rosto, segurando o palheiro entre os dentes.

Van fechou os olhos. Contou até dez. Respirou fundo. E disse:

– Tudo bem, deixaremos que sua avó durma.

– Há! Eu sabia que você era um cara compreensivo. – disse o rapaz, abrindo um sorriso irônico, dando dois tapinhas nas costas de Van.

Antes de partir, Van foi ao banheiro, o banheiro era limpo, surpreendente limpo, paredes e chão brancos, como as geleiras da antártica, por ironia, no banheiro só ele e o rapaz que minutos atrás tivera o intimidado, os dois se olharam e se retribuíram cumprimentos com os olhos, o rapaz escolheu o último box e se fechou, Van preferiu o mictório.

Enquanto Van lavava as mãos, o silêncio foi quebrado pelo rapaz:

– Ei cara, começamos meio mal, escuta só essa ópera que eu fiz pra tu!

O rapaz peidou de maneira estrondosa ao soltar o cagalhão e se pôs a rir no vaso, ria sem parar…

Van se olhou no espelho. Passou água no rosto.

E novamente. Fechou os olhos. Contou até dez. Respirou fundo.

– TODOS ESTÃO NO ÔNIBUS? – gritou o motorista

– O rapaz da poltrona17 não voltou! – disse um velho, antes de ter um ataque de tosse.

O motorista saltou para fora, procurou de longe com os olhos, depois foi até o restaurante, voltou e esperou 5 minutos, antes de entrar e gritar:

– VAMOS SEGUIR VIAGEM!

Naquele banco, o banco que parecia não pertencer aquele local, o banco em que Van tivera almoçado, se estendia um corpo, um corpo velho, com as mãos cruzadas por cima do tronco segurando um walkman, nos fones no último volume tocava o fim de L’Orfeo. Um fio de sangue, quase que imperceptível, escorria de um pequeno buraco feito pouco acima da nuca da velha que agora dormia tranquila e para sempre.

No banheiro, o branco dos azulejos se mantinha impecável, desde a porta até o penúltimo box…  Pois no último, por debaixo da porta, escorria aos montes, um sangue grosso, que preenchia o branco a sua frente, de maneira suave, quase que artística. O sangue jorrava da garganta aberta do rapaz negro, que se encontrava morto, com a boca cheia de palheiros e um canivete cravado no topo de sua cabeça.

No ônibus, usando o espaço dos dois bancos, Van Bradley se ajeitara confortavelmente para dormir, sua expressão de felicidade, hora graciosa, hora sádica, não saia de seu rosto, de olhos fechados, pouco tempo depois de decidir dormir, ele dorme. E alguns diriam, que naquele dia, ele sonhou com os anjos.

Texto de: Vinícius Prestes

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