I

Desordem

 

O patrão era um bom homem.

 

Ou assim pensava ele, vendo-o beber com os empregados no bar. Naquele momento, ele dava uma gostosa gargalhada, que enchia o local do luz. Tirava do bolso uma nota que correspondia a várias vezes a conta e a depositava na mesa. Deixava o conviva para trás. Olhando-o embevecido. Como podia haver homem tão bom? Rico e humilde. De melhores roupas, modos, dentes mais brancos, que todos ali. E ainda assim, conversando com ele, tinha-se a impressão de conversar com um igual.

O patrão saiu pela porta. Esfriara um pouco. Já usava uma longa casaca negra sobre o terno da mesma cor. Na mão a mesma bengala de sempre, que raramente tocava o chão.

 

Noite escura lá fora. Mas era homem corajoso. Ia sozinho, sem segurança.

 

Macho.

 

Diferente de mim, pensou Rodrigo, colocando em palavras um pensamento que jamais ganharia sua voz, meu irmão sumiu e eu só choro… e bebo.

 

E bebia sozinho. Evitava companhia. Não porque era forte, mas porque era fraco. Porque não queria que vissem como estava esfacelado por dentro.

 

Roberto sempre fora o mais forte, o mais ousado, o mais viril. Se afastara do acampamento dos trabalhadores e sumira. O novo delegado fizera tudo que podia. Ele sabia, porque ele e muitos de seus amigos haviam ajudado na busca. Mas ele desaparecera. Da mulher que ele alegara enxergar, menos rastro ainda.

 

Um jeito de história de fantasma. Mas pior, porque ele se fora e não voltara. E mesmo o pior fantasma é um retorno de algo que parecia perdido.

 

Pelo resto da vida ele se torturaria. Num outro pensamento secreto, desejara até mesmo encontrar o cadáver do irmão. Era melhor que a ausência. Que o mistério.

 

Porque este o enchia de pavor.

 

O homem que estivera com o patrão na mesa, ergueu os olhos de seu copo de cachaça e o levantou, deixando a madeira nua na sua frente, pedindo mais. O dono do boteco completou. Seus olhos encontraram os de Rodrigo e ele sorriu. Falou para quem o servia, mas olhando para ele.

 

– Põe um copo a mais pro meu amigo aqui. É só ele vir pra mesa que é por minha conta.

 

Rodrigo olhou para seu próprio copo vazio. O dinheiro dele já acabara antes que a embriaguez chegasse. E ele queria a embriaguez. Doía muito ficar sóbrio, lúcido, pensar. Sentir a própria fraqueza. Porque Roberto não era só amado. Ele sempre o defendera.

 

Diante da dor não há orgulho.

 

Junto na mesa, o outro disse:

 

– Notícias do irmão?

 

Era uma pergunta de cortesia. Todos sabiam do sumiço.

 

Mas ele abanou a cabeça.

 

– Teu irmão era gente boa. Que Deus o tenha. Homem honesto, valente, do tipo que falta hoje em dia, Rodrigo. E não se ofende com o que eu vou falar, mas ele só tinha um defeito. Por favor, o amigo não se ofenda. Porque era o único que eu sei.

 

Nos olhos de Rodrigo havia um fogo ao encontrar os do outro. Ele entornou o copo, mudo.

 

– Ele não podia ver mulher bonita, né?!

 

A frase foi dita com um sorriso. Em tom elogioso. Todos sabiam das aventuras românticas de Roberto. Da sua virilidade de sátiro. E o pessoal contava histórias sobre mulheres casadas e entediadas.

 

O tipo de história de cidade pequena, mas que sempre tem um fundo de verdade.

 

E naquele caso, o outro repetiu:

 

– Pessoal anda comentando…

 

E deixou no vácuo.

 

A voz de Rodrigo rompeu o silêncio:

 

– Comentando o quê?

 

O outro desfez a expressão alegre. Ficou sério. Tomou mais um gole de sua cachaça. Assustara-se. Rodrigo era sempre um doce. Alguns sussurravam até histórias sobre ele não ser lá muito homem… mas aquela voz grave e seca não era a dele.

 

Parecia a voz do irmão. Quando se zangava e partia pra briga.

 

A voz de um fantasma, se fosse, porque o irmão estava morto. E ele sabia.

 

E ele falou, tentando evitar a raiva do outro:

 

– Ah… desculpa… pensei que o amigo soubesse… não quero tocar em assunto ruim.

 

– Pois agora já tocou. E se não sei quero saber. Comentam o quê?

 

Rodrigo fez um sinal com a mão. O bodegueiro veio, encheu-lhe o copo. Tomou mais uma.

 

Já com um pouco de medo, já meio arrependido, mas sem querer voltar atrás, o amigo que gostava de fofoca, falou delicadamente:

 

– Eu não tô dizendo que eu sei ou que eu vi alguma coisa. Só que o povo comenta. Não tô acusando ninguém de nada. Mas o… o… Raul… um sujeito que tem a casa dele no limite do terreno da obra… é casado com a Cristina. Conhece?

 

– Sim.

 

– Bom, ele tem vinte anos mais que ela. Quando casaram, era uma menina praticamente. E agora ele tá ficando velho. E mulher nova tem muito fogo. A gente sabe. Diz que ela chorou muito no enterro do teu irmão. Eu não sei porque no dia eu não pude ir.

 

Rodrigo não disse nada.

 

Seus olhos foram pra dentro. Vasculharam a própria memória. Ele lembrou da senhora. Menos de trinta anos. Com aquela beleza de camponesa rude, mas bonita. E o rosto vermelho de lágrimas.

 

Seu irmão alegara ver uma mulher.

 

Raul tinha fama de ciumento. Diziam que batia nela.

 

A bebida perdeu o sabor. A embriaguez se foi.

 

.      .      .

 

Batidas soaram à noite.

 

Praguejando, o velho levantou da frente da tevê.

 

A esposa teve um mau pressentimento. Levantou os olhos para a porta e viu a sombra pela janelinha. Aquela hora da noite, por aquele vidro anti-visão, qualquer um era um fantasma.

 

Mas não se atreveu a se afastar da pia.

 

O velho verificou. Viu o rosto sorridente do jovem.

 

– Boa noite. Preciso falar com o senhor.

 

E esfregou os braços. Estava frio.

 

Raul abriu a porta e deu passagem.

 

O outro foi rápido. Lembrava uma onça. Sua expressão ganhou até um esgar felino de fúria. A mão descreveu um arco e atingiu o Raul no nariz. Antes de se recuperar do atordoamento causado pela dor, foi chutado com violência no joelho. Homem forte, mas pernas que o tempo cansara. Caiu.

 

Cristina gritou, em pânico. Mas apenas as sombras da noite ouviram. Aprendera a não interferir em demonstrações de fúria masculina. Mas quase cedeu.

 

Era seu marido que apanhava agora. Isso era tão raro que ela nunca vira.

 

Caído no chão, gemendo, chutado e pisado pelo sujeito mais jovem. Que rosnava e bufava.

 

Sem saber o que fazer, ela correu. Trancou-se no quarto.

 

Silêncio.

 

Pareciam estar satisfeitos.

 

Acho que acabaram, qualquer que fosse a quest…

 

Seus pensamentos foram cortados pelo estampido. Um som de tiro. Ela conhecia. Não quis gritar. Fechou os olhos, tapou os ouvidos. Se seguiram mais dois.

 

Silêncio.

 

Silêncio.

 

Vento e escuridão pela janela. Parecia mais escuro.

 

Tudo mais ausente, como se estivesse em outro mundo, e um vácuo de trevas sem fim conhecido a separasse  do lugar que conhecia.

 

Se sentiu assustada. Sozinha. A última pessoa da Terra.

 

Um planeta de trevas.

 

Não resistiu. Destrancou a porta e saiu. Qualquer coisa menos aquele isolamento.

 

Mas ela não estava só como pensava. Rodrigo não fora embora. O revólver que matara seu marido, na mão direita dele, ainda tinha três balas.

 

Ele esperava por ela.

 

– Puta.

 

Foi tudo que disse.

 

Seu último pensamento foi:

 

Por quê?

 

Duas balas apenas.

 

A sexta Rodrigo guardou pra si.

 

II

Decadência

 

Eles estavam em cinco. De certa forma o haviam cercado.

 

Não com os braços e a força, mas com olhares maliciosos e provocações.

 

Era muito pior, pois, se o tivessem forçado fisicamente, poderia se isentar da culpa.

 

Mas, do jeito que fizeram, ele apenas fez o que achava que precisava fazer pra se livrar da vergonha, da pressão, do medo de rejeição.

 

Se sabia que era errado?

 

Como não saber?

 

Mas quem nunca esteve na berlinda, que julgue.

 

– Vai, cara, experimenta! – disse o mandão.

 

Todos os grupos de meninos tem um mandão.

 

– Todos da turma usam – disse o outro.

 

.    .    .

 

O padre guardou a garrafa com o vinho – a garrafa secreta, que ele guardava para seu pecado secreto, jamais o vinho sagrado da missa – e fechou o armário. Depois saiu da pequena sala em direção a nave da igreja.

 

O coroinha olhava para ele.

 

Um olhar perdido.

 

E então um esgar de sorriso, uma boca aberta, e uma voz grave:

 

– Aaaaaahhhhhh! Vem! Vem! Vem!

 

As mão do menino rasgaram as próprias vestes. O padre sentiu um arrepio. Suas pupilas se dilataram e seus olhos se tornaram completamente negros. Houve risos e uivos e a criança ergueu os braços pra ele.

 

O padre gritou de pavor e correu de volta para seu quarto. No caminho, suas mãos tocaram sem querer no recipiente de vinho sacro que não deveria estar no altar e ele se espatifou, formando uma enorme mancha.

 

E ele lembrou do tempo – lembrou sem nunca ter vivido – em que altares como aqueles ficavam manchados de vermelho pelo que se fazia a cordeiros e crianças.

 

Trancou-se no quarto apavorado. Ouvia aquela coisa a rir, urrar, esmurrar a porta. Até que finalmente um gemido mais alto e ela tombou.

 

E só depois que se fez silêncio e ele respirou aliviado é que ele percebeu.

 

Ele não tivera coragem – aliás, sequer pensara – em dizer uma única oração.

 

.     .      .

 

A ambulância recolheu o corpo do menino. O padre assistiu sentado na calçada. O delegado olhou pra ele e disse:

 

– É a droga. Aquilo foi uma overdose. Sabe-se lá há quanto tempo estava usando. A gente não nota.

Mesmo nos melhores jovens. Tá chegando cada vez mais na cidade. A gente faz o que pode.

 

 

 

O padre olhou para os olhos compassivos de Hans.

 

E não sentiu ironia. Sentiu mordacidade.

 

Sim, haveriam de autopsiar o menino e encontrar a velha explicação química de sempre. Mas não fazia diferença. Não mudava o que ocorrera em seu coração. Ele sempre se julgara um homem bom, mas quando o momento chegara…

 

Uma súbita compreensão o assaltou, olhando os olhos doces do novo delegado.

 

Esse homem sabe. Sabe o que aconteceu aqui.

 

Como se ouvisse o pensamento, Hans desviou o olhar e foi para seu próprio carro.

 

– Não se culpe. O senhor não podia fazer nada.

 

O padre olhou para a garrafa que tinha na mão direita. Pela metade e já sem rolha. Tomou mais um gole e se  levantou. O sol queimava, apesar do frio. Ele queimaria para sempre.

 

.      .      .

 

Meu Deus! Meu Deus! Eu os amava! Eu os amava TANTO! E eles me amavam também! Eles só estavam confusos! Tristes! Eles eram humanos! Todas as coisas que eu quis dizer, que eu sentia lá no fundo! Tudo o que precisava saber, perguntar! Tudo o que eu nunca disse! Perdido! Perdido! Perdido pra sempre!

 

Mas os pensamentos não viravam palavras. Apenas lágrimas.

 

Lúcia se agarrava aos caixões.

 

Jovem. Tornara-se legalmente adulta há tão pouco tempo.

 

E sozinha. Sem nada.

 

Sem nada exceto seu benfeitor.

 

Ali não ousara por uma única jóia. O vestido negro de luto era caro.

 

Que escolha ela tinha agora?

 

Perdido… tudo perdido… e perdida eu.

 

Na saída do funeral, o carro com o instrutor de música a esperava.

 

– Recomeçamos as aulas assim que estiver pronta – disse ele – eu não sou de fazer elogios porque creio que isso estraga o desempenho. Mas talvez sirva de consolo que sua evolução é evidente e superior à maioria.

 

E calou-se. Era um homem frio. Odiava-o. Ele nunca havia feito nada de ruim para ela. Mas era como conversar com um robô.

 

Olhou pela janela e começou  a se perguntar quando foi que sua vida tomara aquele rumo. Ela fora jogada como uma pluma pelo vento? Ela fizera algo errado? Era culpa dela, de  alguma forma?

 

Mas apenas havia o vácuo. O vazio. A escuridão fria e silente.

 

O vácuo entre as estrelas parecia cada vez maior. Mas ninguém se perguntava o por quê.

 

.     .      .

 

O corpo do professor se recuperara do abuso que sofrera num tempo que teria intrigado pesquisadores da ciência médica se ali houvesse algum. Mas o hospital era profissional demais. E eficiente demais, inclusive. Não havia pesquisa.

 

Um ritmo de fábrica. Interessante. Lembro do que acontece quando se mistura medicina e pensamento industrial. Gente vira produto. Ou matéria-prima.

 

E ele lembrou-se das fumaças das chaminés dos campos de trabalho. Era mesmo possível que ninguém se perguntasse do que aquela fumaça era feita, em lugares cujo tamanho nunca aumentava, mas sempre recebiam mais gente?

 

– Tudo queima.

 

– Professor?

 

Assustara a enfermeira novamente. Mas ela não estava ali por isso. Trazia uma mensagem.

 

– Sim? – já sabia o que era, mas gostava da  expressões de  surpresa dela.

 

– O delegado…

 

– Informe a ele que conversamos lá fora.

 

– Mas o senhor não pode…

 

Ele estava vestido. Ela estava tão chocada de vê-lo de pé que nem se perguntou onde conseguira roupas e uma bengala. Pois a única sequela era um leve mancar da perna. Ele arrumara seu próprio leito hospitalar e o deixara mais limpo do que estava antes dele ser colocado ali, depois da surra que recebera.

 

– Não posso o quê?

 

Ele sorria. Ela detestava quando ele sorria.

 

 

III

Dor

 

O delegado contemplou o homem no escuro. A lâmpada queimara no saguão pouco tempo antes. E  sentiu algo estranho Uma velha conhecida sensação.

 

Não tema nada – dissera o chefe – Ele não pode. E na real, não quer. Então você dirá para ele te acompanhar e ele te acompanhará.

 

O velho sorriu. O tempo no hospital o fizera cultivar um cavanhaque parecido com o do chefe. Mas branco. Mas igualmente…

 

…caprino.

 

– Caminhemos. Não precisa pedir. Vou contigo.

 

Andaram lado a lado. O velho olhava para o céu. Sorria um sorriso de lembranças queridas. Parecia que Hans não estava ali. Aquilo irritava.

 

Uma rua mais escura que as outras. Pararam

 

– Acho que aqui está bom – disse o velho.

 

O delegado levou outro susto. Agora era estranho demais. Não imaginava que ele fosse facilitar tanto.

 

Os olhos se encontraram. Luz contra a escuridão. E a voz mais velha disse:

 

– Você tem ordens a cumprir. Se realmente acha que deve, cumpra.

 

Rompendo o gelo que parecia existir ao redor dele – tudo tão escuro e tão frio – ele sacou a ferramenta metálica cheirando a óleo e morte. Tão bela e fria. Seria melhor se fosse rápido. Mas o outro era mais rápido.

 

A bengala moveu-se como uma espada e o braço dolorido de Hans mudou de direção. A arma quicou no chão, inútil naquele instante. E quando ele tentou mover o braço novamente, ele estava flexionado do jeito errado.

 

A bengala, no entanto, não parou de se mover. Aleijou Hans no joelho de um golpe, ele caiu e o velho num passo de dançarino aterrissou com o sapato de bico fino pisando seu rosto. Poderia ter transformado sua cabeça em guisado. Mas apenas o manteve no chão.

 

Era mais forte também.

 

Hans viu uma chance.

 

A arma estava perto de seu outro braço. Aquele que ele não…

 

A ponta da bengala, doendo como uma agulha, pregou seu pulso no chão, sem precisar atravessá-lo.

 

– Não se iluda, Hans. Golias era um imbecil. Ele correu atrás de um inimigo mais rápido, com metal pesando em seu corpo de brutamontes, e esse inimigo era destro e célero e tinha uma arma que alcançava mais longe. Se você quebrar a testa do gigante com uma pedrada vai ser como quebrar a testa do anão. Exatamente igual. O fraco jamais venceu uma briga com o forte por seus próprios méritos. Se um dia algo virou o jogo foi apenas… a sorte. Vou te explicar umas coisas… a primeira é que você só sai dessa posição quando e se me der vontade. E eu posso ficar aqui até o mundo pegar fogo e depois congelar de novo. Acredite, o que você quer é me deixar de bom humor. Só não sabe disso ainda. Mas eu vou ensinar. Eu sempre ensinei. Eu sou um…

 

– Não pode…

 

– O que disse?

 

– Não pode… ele disse…

 

– Eu sei o que ele disse. Que não posso contrariar a vontade dele. E não posso de fato. E nem ele a minha. Estamos juntos. Somos irmãos. Queremos exatamente a mesma coisa.

 

O medo de Hans aumentou.

 

– Eu conheço essa sensação de terror. De abismo se abrindo e queda. Ela é velha como o tempo. É o sentimento que o imbecil tem ao finalmente ficar esperto. Às vezes meio tarde. Você sabia. Você sempre soube. Mas todos se iludem. Igual você se ilude com… nossa… eu acho armas folheadas a ouro de um mau gosto cafetinesco. O que nós queremos, Hans?

 

Hans não respondeu. Suas lágrimas tocaram o chão.

 

– Vergonha? É bom que sinta. Bom pra mim, pelo menos. Ha! Ha! Você sabia. Sabe. Sempre soube. Saberá pra sempre e sabe agora o que queremos. Ele te enganou. Ele engana a todos. É da natureza dele. O que nós queremos, Hans?

 

Hans gemia.

 

– Hans, se você não me responder, eu vou arrancar as suas bolas e fazer você comê-las. E depois cada um de seus dedos e artelhos. E você vai falar. O que queremos?

 

– Vocês… querem… o nosso…

 

– Sim? Como a oração termina? Do que você pede libertação?

 

– Do mal…

 

– Então, de que forma posso estar contra ele agora? Posso, Hans?

 

– Não… mas…

 

– Não finja ser burro depois de aprender. Pode ser útil com os outros, que sabem menos. Com o professor é indecente. Você sabe. Apenas se enganou. E ao se enganar você é objeto e também sujeito. E mais consciente do que pensa. Você achou que ele era seu amigo? Você quis acreditar nisso?

 

– Sim…

 

– Ele te mandou aqui pra mim. Eu te quebrei um braço e uma perna. Estou te pisando no rosto e te impedindo de reagir. Posso te matar com a ponta do pé. Ou te aleijar de um jeito que vais desejar morrer e não vai ter como fazer isso. Você ainda acredita nisso? Ele te enganou, Hans. Ele te odeia. Ele odeia todos vocês. Ele odeia até mesmo o homem que ele monta. Aquele que, em certa medida, ele é. Ele é seu amigo, Hans?

 

Hans chorou. Soluçou. Gemeu.

 

Sem piedade, veio a voz. Grave como um trovão. Não pareceu vir dos lábios do outro. Mas do céu. De todo aquele vazio.

 

– Responda!

 

– Não!

 

– Não o quê?

 

– Não! Ele não é meu amigo! Nunca foi! Ele me… ele me usou… e eu fui…

 

E tudo virou lágrimas e lamentos.

 

– E a outra pergunta. Eu adoro como ela soa. Caim, que fizeste?

 

Silêncio. Depois um risinho. Um pulo de cabrito para cima e ele estava livre.

 

– Sim, eu sou mau. Mas há algo pior que eu. E eu nem sonho em competir. Não vou te obrigar a responder essa. Só vou te contar um segredo. Ele era seu melhor amigo. Te admirava. Teu fiel seguidor. Nunca estrelou num de seus vídeos porque… bem… porque tinha medo de te desagradar. Achava que gostavas de brilhar sozinho. Quem diria que haveria tanto amor entre assassinos? Mas há. Havia. O amor morreu. Foi assassinado.

 

Hans estava encolhido, chorando, em posição fetal.

 

– Seja homem – falou o outro sem piedade – agora outro segredo. Este corpo é mortal. Este homem é real. Sou forte porque o fogo que existe aqui dentro é forte. Mas se me encheres de tiros, o fogo se vai e o resto vai para o pó. Como todos. Tudo queima. O destino de tudo que há é perecer. Às vezes com nossa ajuda. Assassino. Se acha que pode, pega tua arma e atira. E o fantasma de Saulo não vai embora mesmo assim.

 

Hans conseguiu finalmente encará-lo. Abriu a boca para perguntar algo. Mas foi interrompido antes de começar.

 

– Você não espera realmente consolo, ou cura para seu sofrimento, vindos de mim, espera? Quer dizer… nem você é tão burro. Eu sou como seu chefe. Eu desejo seu mal até a última. Se você sente remorso, do fundo do meu coração, desejo que esse remorso vire um gordo, suculento e doloroso tumor a matar seu corpo bem devagar.

 

Olhou para a arma dourada com desdém.

 

– Saulo talvez agora compartilhe de minha… visão. De minha visão dos fatos. O que você acha?

 

Andando de costas, o velho foi para as sombras. E antes de desaparecer o rosto dele pareceu metamorfosear-se. Era um rosto mais jovem. Tolo e perverso. E familiar. E dele veio uma voz que disse.

 

– Só tem um jeito de saber. Tem que perguntar pra pessoa certa.

 

E desapareceu.

 

Ele estava sozinho.

 

IV – Ascensão

 

Riqueza atrai riqueza.

 

Foi o que pensou o velho olhando a cidade lá do alto. De um morro escuro e de cume coberto por árvores. Tentou se iludir que tudo aquilo acontecera enquanto ele dormia. Mas na verdade não era apenas ele que dormia.

 

Há muito tempo a cidade vinha crescendo. Trouxera tipos como Hans e Saulo. E a existência deles fazia as pessoas que tanto desejavam que nada mudasse odiar o progresso que a erguia. Mas não era apenas isso que ela trazia. Nas casas humildes, mais novas, que se amontoavam ao redor da parte tradicional, havia pessoas em busca de emprego. Uma jornada para longe de casa, motivada pela necessidade ou por uma busca mais nobre – ser feliz – mas que muitas vezes encontrava pouca acolhida, ingratidão, e até mesmo desespero. Pois quem inicia uma jornada pode se perder.

 

E era aquilo, mais que o ouro, mais que a riqueza, que atraia o dragão. As pessoas perdidas. Desesperadas. Aquelas cujo coração se endurecera de ódio ao contemplar não um paraíso de oportunidades e felicidade, mas um inferno de frieza e indiferença.

 

Pensou em todas as boas pessoas da cidade, e seu apego mesquinho a tudo que tinham como seguro, e que o fato de serem gentis e generosas não as impedia de ignorar o desespero dos viajantes que chegavam. Havia uma separação ali.

 

O dragão gostava de separações. Separados eles não podiam lhe resistir.

 

A chama em seu peito cresceu. Uma voz sussurrou, uma mistura de sibilo de serpente crepitar de fogo:

 

Eles merecem…

 

O velho era um amante de cinema. E a voz de outro velho lhe lembrou: merecer não tem nada a ver com isso.

 

Se o amor viesse pelo mérito – pensou – não seria amor, seria comércio. Comércio não é ruim. É necessário e não precisa ser sujo. Mas é favor não confundir as coisas.

 

Aquela era sua voz de homem.

 

E havia algo mais. Uma voz superior e mais profunda. Algo que podia guiá-lo em silêncio.

 

Lá embaixo, na floresta, viu um fogo acender-se. Não era uma fogueira de destruição. Era um fogo para trazer luz e calor a homens e mulheres cansados e com frio. Perdidos.

 

No meio da escuridão celestial, uma estrela brilhou. Como que em resposta.

 

Três é o número – pensou e sorriu.

 

E começou a descer o morro. Tinha vontade de cantar.

 

.      .      .

 

O homem de preto viu as contas terminarem de ser demonstradas pelo menino a sua frente. E percebeu que ele não apenas era bom com números, mas tinha uma compreensão mais exata e mais lúcida do que eles eram. Hans fizera bem em recomendar que ele saísse da central de envio da mercadoria. Ele sempre fazia as pessoas ficarem mais espertas. Mesmo Hans.

 

– Então, na nossa opinião, o balanço está bom?

 

– Os números não mentem. Superamos as expectativas. O mercado aqui absorveu o produto melhor do que esperávamos.

 

Calou-se subitamente. O homem de preto sabia. Mas fingiu estar intrigado:

 

– O que o preocupa?

 

– Aquele coroinha que morreu hoje. As pessoas vão falar.

 

– Que falem. Não tenho preconceito com fofocas. Aquele padre era velho e ninguém gostava dele. Eu o vi bêbado mais cedo. E há novas igrejas na cidade. Fazem tudo que as igrejas sempre fizeram, inclusive esta. Mas os sacerdotes sempre gostaram de conspirar uns contra os outros. Se a grama do vizinho é sempre mais verde, também a cobra que rasteja em seu quintal é sempre mais venenosa. Eles contarão outro tipo de história também. Sobre aquele padre.

 

– E são verdadeiras?

 

– Claro que são. Nada é mentira, se você acreditar.

 

O contador ficou confuso. Pediu licença e se retirou.

 

O homem de preto estava sozinho. De certa forma sempre estivera. Mesmo quando eram muitos e tinham uma cidade. Mas aquilo fora em outro tempo. E ele tinha dificuldade mesmo de lembrar. Se por um lado as lembranças daquele corpo mortal haviam se perdido para sempre – eu sou melhor do que isso – melhor maior mais brilhante mais poderoso melhor maior mais – as de sua verdadeira vida, de sua verdadeira essência, nunca haviam sido totalmente recuperadas. Eram como sonhos. Era humilhante, mas às vezes precisava ler sobre elas em livros que palavras de mentirosos contavam a história de seu povo deturpada. Ouvida de bocas que já mentiam.

 

Mas eles aprenderão. Eu sou destruição. Eu sou a justiça. Eu sou fogo. Eu sou escuridão.

 

E no escuro ele estava. Seus olhos brilhavam solitários no meio da casa pentagonal, já quase completamente reformada. E porque eram capazes de enxergar através das trevas, não conseguiam percebê-las. Ao redor de si. Vazias e silentes. E frias.

 

V – Reunião

 

O velho veio pela floresta. Seus olhos fixos no fogo do acampamento. Estava tão feliz e leve que nem viu os inimigos se aproximarem.

 

Só que não eram inimigos.

 

O mais rápido e silencioso era o mais jovem, chegou portanto, por trás, e lhe prendeu os braços com os seus. Alguém mais veio pela esquerda e jogou algo parecido com tecido sobre seu rosto. Havia um terceiro, ele sabia.

Jogado agora perto do fogo, o Professor gritou:

 

– Sou eu, seus patetas! Tira essa porcaria do meu rosto!

 

A luz voltou aos seus olhos quando o cobertor foi removido e ele viu os três diante de si. Tomás, Pedro, Diná.

 

– O truque da fogueira é bom – disse o Professor, sorrindo – você sabe que a luz os atrai, por mais que o fogo seja uma das poucas coisas que possa destruí-los, eles não conseguem evitar se aproximar. Já sabia que estavam vivos, mas mesmo assim é bom rever amigos.

 

Tomás e Pedro não sabiam o que dizer. Diná que falou:

 

– Esse é aquele que você…?

 

– É  – respondeu Tomás.

 

E só então ele percebeu a dureza em seu rosto.

 

– Pode me desamarrar as mãos?

 

– Não sei se devo.

 

– Por que não?

 

– Tu mesmo disse. E depois que deixei tua casa, só tive problemas.

 

– Certo. E o que você tem feito desde então?

 

– Você já deve saber, se um décimo do que me contou é verdade… aquelas… coisas… você deve saber o quê… andam por aí, na escuridão. Nós as estamos caçando. E matando. O Pedro usa a faca que você me deu depois que eu. Parece que quando ele as toca, eles…

 

– Lembram. Lembram das pessoas que foram. E se a faca não os mata, o fogo faz isso. Pois bem. Depois que você me abandonou o inimigo foi até minha casa. E me deu a pior surra da minha vida. Eu nem lembro de como terminou. Fui para o hospital. Sonhei muito. Dormi muito. E… bom, nós temos uma chance.

 

– Você disse que estaria do lado dele. Não importava o que…

 

– Será que fui eu que disse?

 

Silêncio.

 

– Então… – começou o Professor – Eu vim para ajudar. Mas não gosto de ficar sentado na terra com as mãos amarradas. Se querem minha ajuda, vocês me soltam. Faz menos  diferença pra mim que pra você. Eu já passei o que de pior tinha que passar nessa história. Você aí, mocinho. Que vai fazer com essa faca? Vai me degolar? Então faça logo.

 

Pedro caminhou até o ancião caído e ajoelhou-se atrás dele, um rápido manejo da lâmina e suas mãos estavam soltas.

 

– Não precisava estragar a corda – resmungou Diná.

 

– Obrigado – disse o Professor, se levantando – Querem ouvir agora?

 

– O que você tiver pra nos falar – retrucou Tomás.

 

– Pois bem, você pode interpretar que ao vir à  minha casa ele rompeu o pacto antes e me deu permissão pra agir. E por isso estou ao lado de vocês, apesar de ser o que sou. Ou então…

 

As chamas crepitaram, como se estivessem zangadas.

 

– O fogo os atrai – disse Tomás – por isso nós acendemos as fogueiras, ficamos de vigia e, ao menor sinal deles, corremos para um abrigo no escuro.

 

Os quatro saíram para longe do alcance da luz. Uma outra luz clara e fraca se acendeu na frente deles. Diná estava na entrada da barraca, sinalizando com uma lanterna de dínamo. Eles passaram sob a lona e a luz, para quem visse de fora, desapareceu.

 

Lá dentro, a conversa continuou:

 

– Foi o Pedro que percebeu que você era uma pessoa viva. Mas não te reconhecemos de primeira. A gente ia te interrogar antes.

 

– Que bom que não cheguei a passar nem pelo interrogatório.

 

– Você pode terminar sua história agora.

 

– Então, pode ser também que tenhamos interpretado tudo errado.

 

– O que interpretamos errado? – interferiu Pedro.

 

– Depois te explico. O que você quer dizer?

 

Pedro silenciou um pouco constrangido. Era evidente que Tomás estava se tornando uma espécie de segundo pai para ele. E se lembrou do que acontecera com o antigo. Tentou ser breve:

 

– Olha, a história que contei, que me lembro, e que guia o pensamento do Homem de Preto provavelmente é verdadeira. Mas é só parte da verdade. Assim como me lembro dessa vida mais antiga, eu também me lembro de minha vida de homem. Desta vida aqui. Se é assim, qual dos dois eu sou?

 

– Isso é você que me diz.

 

– Exatamente. E eu escolho ser quem sou agora. E a pessoa que eu sou agora nunca fez nenhum juramento de lealdade àquela outra que dirige aquele horror lá – e apontou para a escuridão do lado de fora e morro acima – até porque aquilo lá… é só um homem. Um homem ruim. Cheio de ódio e tristeza. Eu não sei o que aconteceu na vida dele. Acho que ele mesmo não sabe. Mas quero crer que não seria possível alguém se tornar refém dessa força de destruição que ele representa se não tivesse sido ele próprio quebrado pela vida de alguma forma. Ferido, traído, abandonado, alguma espécie de grande decepção. Eu não sei e não me importa. Ele provavelmente já esqueceu até o próprio nome. Mas ele é um homem. Ele se enxerga agora como alguém dessa outra vida anterior. Age de todas as formas possíveis como um príncipe de um povo antigo. Mas eu senti as bofetadas dele. É tão feito de carne quanto qualquer um de nós. Se ele fosse puro, como finge que é, nem conseguiria ter me ferido porque daí seria fato que…

 

– Vocês são irmãos.

 

– Mas não somos. Alguma coisa entre nós é. Esse poder que ele representa. Talvez ele se ache especial, mas nem seja o caso. Ele só se entregou a isso e agora é um escravo dessa força. Dessa essência que havia num povo mais antigo, e que agora está morto, e se espalhou pelo mundo todo. E talvez até mesmo exista algo desse poder em cada um de nós e não apenas em meia dúzia de escolhidos.

 

– Lúcia – Pedro falara de novo.

 

– O que foi? – Diná se assustou com o tom de voz. A palavra fora como uma faísca. E ela lembrara de algo. Mas não sabia  do quê.

 

– Uma menina da escola. Eu lembrei dela. Lembrei que uma vez conversei com ela. E ela falou algo parecido. Que talvez toda pessoa pudesse, se acreditasse, tivesse vontade ou soubesse exatamente como…

 

– Você a conhece bem? – a voz do professor era misteriosa e seus olhos eram atentos.

 

– Sim. Quer dizer, não, mas…

 

– Não precisa dizer mais nada – completou com um sorriso – agora TUDO se encaixou. Eu sei o que ele quer. E sei como pretende fazer.

 

VI – Dor

 

O soco veio de surpresa. E a ameaça já teria bastado.

 

Pedro caiu de joelhos. Lágrimas de dor e humilhação escorreram de seus olhos. O desejo de fazer alguma coisa e a consciência da própria incapacidade de fazer.

 

– Já sabe. Se contar pra ela vai ser pior.

 

Ele ergueu os olhos para a figura imponente, nojenta e cínica de Júnior e murmurou:

 

– Eu juro.. eu juro… não vou dizer nada…

 

O outro sorriu, acariciou-lhe o rosto com desdém, e depois lhe deu uma bofetada.

 

– Que bom que tu é inteligente.

 

Então ele viu o fogo.

 

A fogueira brilhava do outro lado. Evidentemente, não a vira. Não era ele que estava de vigia aquela noite. Era outra pessoa. Pois ele estava na barraca e não podia ver.

 

Mas a luz estava acesa ali. O Professor estava olhando para ele, sorria com tranquilidade.

 

– Sonhos ruins?

 

Ele não disse nada.

 

– Não vou te machucar se não falar. Mas mesmo assim não precisa falar se não quiser.

 

Pedro se sentou e olhou nos olhos.

 

– Sim.

 

– Sim o quê?

 

– Sonhos ruins.

 

– São os tempos, não?

 

– Não.

 

– Não?

 

– Não. Eu sempre tive sonhos ruins. Mas normalmente com coisas que eu imaginava.

 

– E você imaginou isso tudo?

 

– Tomara que não. Senão eu estou…

 

– Maluco.

 

O Professor se levantou, levando a lanterna. Ao virar-se para sair, seu corpo encobriu a luz e ele virou uma silhueta escura. Do tipo que se vê em pesadelos e não se pode mover.

 

– Ei!

 

Mas ele podia e o seguiu para o lado de fora. O que aquele velho doido estava fazendo? Precisavam da luz ali dentro e…

 

Lá fora, ele viu o brilho das chamas. Sempre atraia os monstros. Mas estranhamente não teve medo da fogueira. Ao seu redor, não via a lanterna, mas imaginou que o Professor a levava. Apagada. O velho sinistro enxergava no escuro?

 

Pensou em voltar e acordar Tomás. Mas que adiantaria, na escuridão? E não podiam sair atrás dele com tochas. O que fazer?

 

Algo soou à sua direita. Um farfalhar de folhas. Teve medo. Mas então lembrou.

 

Se fossem os desmortos, eles iriam para o fogo. Aqui está escuro. E frio. Deve ser ele.

 

– Professor…

 

O outro se afastou. Pedro ficou em pânico. Seguir ou não?

 

Era ele que manejava a faca. Mas se fosse e alguém chegasse, precisariam dela. Voltou-se para porta da barraca e jogou a ferramenta ali. Pegou uma das armas acessórias. Um machado de lenha. Eles tinham um bom acampamento ali. Tudo tirado de casas vazias.

 

Pois os mortos levavam os vivos para a escuridão. E o número deles aumentava. E restavam casas vazias. Piores que túmulos. Porque túmulos tinham nomes. E nela havia apenas ausência.

 

E mergulhou na escuridão, seguindo os passos do que se afastava.

 

Seus pés o guiaram pela escuridão – e sua mente entrou numa escuridão maior – e ele percebeu que ela voltava no tempo. Havia sido um sonho? Se fora, ele não sabia lembrar. Lembrava-se apenas de seguir Lúcia no bosque, encantado. Como se estivesse atrás de um fada. Ela sempre o encantara. Mas naquela manhã ela brilhava tanto, e estava tão leve, que ele achou que conseguiria falar com ela.

 

Mas não.

 

Naquela manhã descobriu que nunca conseguiria.

 

Porque, silencioso como só as rochas sabem ser, ele a seguira até uma clareira e descobrira com quem ela se encontrara.

 

E não quisera ficar para ver mais nada. A faceirice dela com aquele sujeito era toda a dor que suportaria naquele dia.

 

Quando deu por si havia descido os morros até uma trilha de terra lá embaixo. Fora do abrigo das árvores, percebeu que havia Lua. Grande brilhante. E as pedras claras da via permitiam que se orientasse. Mas não apenas isso. Os últimos dias nas trevas haviam aguçado a visão de todos de seu bando. E aquilo era quase como se fosse o sol.

 

O vulto, presumivelmente o velho, estava mais adiante, onde aquela estrada se cruzava com outra. Avançou para ele. Mas antes de chegar na encruzilhada, havia um túnel formado por árvores que se fechavam sobre a estradinha, lançando um manto de sombra.

 

E ao passar por ela, ele lembrou-se de dor pior.

 

Perambulando por outros lugares na floresta encontrar Junior de novo. Não sozinho. Bem acompanhado. Mas não por Lúcia. Desta vez a trouxa era outra.

 

Na verdade o trouxa sou eu.

 

A menina não o vira. Estava de costas pra ele. Na floresta dos encontros infelizes. Mas o moleque, vagabundo, traficantezinho de merda, filho da puta, cafajeste, estava de frente, e, mais alto que ele, o vira por cima da cabeça dela também.

 

E fora tomar satisfações depois. Ódio talvez nada mais seja que raiva represada por certeza de impotência.

 

Emergiu para a luz do outro lado, voltando para o presente e…

 

Não era o professor.

 

O malandro virou-se para ele, sorrindo aquele sorriso que lhe dava engulhos. Bem no meio do cruzamento dos caminhos. Ele sentiu o sangue gelar-lhe as veias.

 

– Deu com a língua nos dentes, é?

 

Mas então a luz da Lua pareceu  brilhar mais forte e fria. E Pedro se sentiu frio. Frio como as pedras brancas da estrada que refletiam aquela luz. Afinal… fazia sentido ter medo dele ainda?

 

A ilusão passou e ele percebeu o que o vulto de fato era. Um esqueleto de ossos carbonizados. Em pé. De guarda na estrada. Talvez colocado pelo inimigo. E não importava de quem eram os ossos. Ele  tinha um trabalho a fazer. E não fazia diferença se lá em cima, no acampamento, ou ali embaixo. Um a menos é um menos.

 

– Vamos conversar aí, tranca-rua!

 

E correu contra a criatura. O cadáver deslocou-se de seu ponto. E naquela hora não fazia diferença se tinha a faca ou não. Aqueles ossos frágeis despedaçaram-se no primeiro golpe de machado. Dividido em dois, o corpo seco, escuro e estalante, tentou agarrar-se a ele. Ele chutou e golpeou com fúria. Os pedaços ainda se moviam. Até que ele subitamente percebeu que não havia por que golpea-los mais.

 

E deu-lhe as costas, se afastando. Subitamente, percebeu a encruzilhada na sua frente. Havia invertido a posição do corpo durante a luta. E pensou se conseguiria voltar para o acampamento.

 

Uma outra luz veio além da Lua. Ele se virou e ergueu o machado.

 

– Calma, menino – disse a voz do Professor, abaixando a lanterna – só fui te buscar uma coisa. Você quer?

 

E sua outra mão ergueu um violão novo. Como se fosse um prêmio pela batalha.

 

VII – O fim

 

O Homem de Preto contemplo a sua obra.

 

Finalmente pronta. O seu templo. A sua casa de oração. De prazer. De negócios.

 

JEZEBEL!

 

O nome da boate. Escolhido de forma poética. Mas não seria uma casa de prostituição. Prostituição era coisa de velhos decadentes. A cidade estava cheia de jovens vibrantes e entediados. Eles eram o futuro. E aquele lugar era para eles.

 

Porque não há futuro. Nunca mais.

 

Diferente de outros, ele sabia perfeitamente bem o que estava fazendo. O resto se justificaria com a competição econômica, alguns até com uma pretensa generosidade a respeito de proporcionar prazer para os outros. Mas ele não. Ele sabia o que queria, e queria o que sabia.

 

Fogo.

 

Destruição.

 

Daquele lugar se estendiam, como tentáculos de escuridão, as linhas com que envenenava toda a bela cidade em ascenção. As drogas eram só o começo. Desconfiança. Mentiras. Raiva. Desunião. Acusações. Triunfo sádico. Derrota humilhante.

 

Porque eles merecem. Pelo que fizeram conoso. Por causa deles.

 

Na boate haveria muito mais de tudo aquilo. De corações destruídos. De arrogância e futilidade estimuladas. E acima de tudo, no palco, sua Dama Vermelha a incitar luxúria, inveja, agressões, ressentimento, competição. A Princesa das Trevas que ele escolhera.

 

E se alguém um dia chegasse perto de ameaça-lo antes  de seu trabalho estar terminado… ele tinha a Dama Branca da morte. E não temia usa-la. E ela gostava do que fazia por ele. Quem não gostaria?

 

Vocês me chamaram. Quando fruto está maduro, vem alguém e colhe. Não tem nada que farão aqui que já não fariam sem mim.

 

Mas por quê, então?

 

Qual o sentido da destruição se ela já é inevitável?

 

Não existe sentido. Nem razão. O ódio é cego. E nada quer além de si próprio.

 

VIII – Ouroboros

 

No seu camarim ela se contemplou.

 

Crescera em tamanho. Em graça. Em força. Em poder.

 

E em tristeza. Raiva. Dor.

 

Linda e perdida. Para sempre.

 

– Está pronta, Lúcia? – disse a voz atrás dela.

 

Era o último fim de semana antes do recomeço das aulas. E o outono parecia ter chegado mais  cedo lá fora. Noite escura e sem estrelas. Mas ali pelo menos havia calor. A casa de shows, a danceteria, o ponto de encontro dos jovens, grande e brilhante como o das cidades grandes, e para o qual muita gente de fora afluía, teria a sua estreia contando com a presença dela. Dela e da banda.

 

Ensaiara por bastante tempo. O instrutor era bom. Mas havia conversado pouco entre si.

 

Não precisava conversar muito. Um olhar bastava. Eles eram como ela.

 

Iludidos. Enganados. E perdidos.

 

– Sim, vamos.

 

.     .     .

 

E saiu para o palco.

 

E lá viu algo que não esperava.

 

.    .    .

 

O sujeito se debruçou sobre o tóxico na mesa. Eram tantas apresentações que se perdera. Sua cabeça se ergueu, inundada de energia e fúria químicas. Pronto para o show.

 

– Merda! Tô pirando, pessoal!

 

Mas ninguém ouviu o guitarrista. Havia alguém na frente dele. Um homem velho de cavanhaque branco e um jeito de bode. Sorrindo. Vestia-se com elegância. E ele estava começando a ver os chifres quando o velho levantou a bengala golpeou sua cabeça.

 

Do banheiro vieram os outros dois, confusos. Diná se aproximou deles e sorriu.

 

– Tá tudo bem. O músico ali passou mal. Mandaram a gente resolver o problema.

 

– E quem é o velhote? – indagou um.

 

– Aquele cara é um irresponsável! – gritou o segundo – A gente nunca devia ter montado uma banda com ele! Ser talentos não basta, porra! Assim como é que…

 

– Eu sou médico – respondeu o Professor – e vou ajudar ele a ficar bem.

 

– Mas temos show hoje!!! – gritou o segundo.

 

– Eu disse que a gente veio pra ajudar. Já tem um músico pra entrar no lugar do Zed. Ele tá esperando vocês no carro.

 

– O cara de preto chamou vocês?

 

O velho ergueu os olhos friamente e disse:

 

– Sim.

 

XI – Conflagração

 

Do seu camarote, com convidados selecionados, o homem de preto viu as cortinas do palco se abrirem. O som eletrônico terminou numa nota grave. E todos na pista de dança  silenciaram e olharam para o palco. Escuridão e silêncio.

 

Os velhos feitiços eram os melhores feitiços. Ele sorriu na escuridão.

 

A luz se acendeu sobre ela. A filha escolhida da cidade em chamas.

 

Mas então…

 

…por quê?

 

Silenciosamente, o guitarrista começou a dedilhar uma canção diferente. E os  outros músicos acompanharam.

 

A música era outra. Era diferente. E ele sentiu medo.

 

A canção estava invertida.

 

Ele se levantou e urrou. E as cortinas se incendiaram. E os cabelos negros dela pareceram absorver e intensificar o brilho de fogo. As pessoas no salão gritaram. O pânico começava. As coisas se despedaçavam. Seu plano… seu lindo plano…

 

E os do camarote gritavam e corriam. Ele tentou dizer

 

Fiquem comigo. Aqui não há…

 

Perigo.

 

Sua voz não saía.

 

Olhou para as mãos. Cobertas de pelos. Simiescas. Não era só a canção que estava invertida.

 

Tudo estava voltando. Seu corpo. Aquele corpo. Aquela veste.

 

Ela estava revertendo.

 

Talvez ainda desse tempo. Saltou da bancada no meio da multidão em pânico e avançou. Mas alguém lhe bloqueou o caminho.

 

.     .      .

 

Cada um contaria uma história diferente. Quando o mais incrível espetáculo que já assistiram começaram com cortinas se incendiando e a plateia se desesperando. E então alguma coisa saltara lá de cima. Um homem das cavernas. Um lobisomem. Um sátiro. Qualquer coisa nem gente e nem bicho, urrando e avançando, como se fosse matar os músicos.

 

Mas a vocalista tocava. Rainha do rock n’roll. Outros diziam tratar-se de outro tipo de música. A banda silente atrás. Apenas o guitarrista sorria. Ou violeiro. O sorriso silencioso de um combinação secreta.

 

Quanto todos os valentes da cidade e de fora abriram caminho, uma mocinha ficou na frente da besta-fera, armada com uma faca longa e afiada. E abriu-lhe um talho no ventre.

 

– Seu merda! Cafajeste!

 

A coisa riu.

 

– Você falou!

 

E ela gritou e levou as mãos aos seus cabelos brancos. E sua pele morena enrugou-se e secou. E seus dentes caíram. E sua voz terminou num gemido rouco. E seu corpo de velha caiu.

 

Chamas se erguendo e saídas fechadas. E o monstro olhou para os dois que agora cantavam e tocavam sozinhos. Palavras que ninguém mais compreendia. E mudou de forma novamente. Uma serpente ou dragão monstruoso e sibilante, mas pequeno. O espaço não comportaria maiores.

 

A transformação ainda não estava completa quando o soldado veio. Terno branco e cabelos dourados. E olhar de fúria. Uma arma dourada e uma prateada em cada mão. Encheu de buracos o peito do réptil onde menina que agora era o cadáver de uma anciã já deixara um talho. E foram seis tiros um de cada lado. A serpente se esqueceu dos músicos e voltou-se para o guerreiro. De sua boca saíram chamas, mas Hans sorria quando disse:

 

– Perdeu, playboy.

 

E seu corpo se consumiu.

 

O dragão sentiu que não conseguia erguer-se. Perdera boa parte do que era com os ferimentos. E usara quase todo o seu poder para…

 

… para aquilo?

 

Uma casa de espetáculos. Que agora queimaria.

 

– Não. Não queimará.

 

A voz era mais velha. Falava de trás dele.

 

O Professor ergueu seu cajado – sua bengala, com o mesmo sinal antigo que o cetro de poder que ele usava – e ele viu a astúcia infinita em seus olhos e percebeu que fora enganado o tempo todo. Ele era o trouxa daquela vez.

 

– Continuará. Sob nova direção.

 

Os corpos dos três se consumiram. E só restou de cada um uma mancha no chão. As chamas nas cortinas retrocederam. A canção acabou. Alguns se machucaram na corrida. Mas então Delegado  falou lá do camarote.

 

– Estamos garantindo a segurança. Acalmem-se todos. Isso é parte do show.

 

Lúcia e Pedro respiraram aliviados.

 

O que foi tudo isso? Um show? Um sonho ruim?

 

Estavam sozinhos no palco. O público se acalmara. E agora o alívio virava admiração.

 

Aplaudidos de pé. Todo o tipo de elogio, de comportados a nada disso, explodiram da turba.

 

Os dois jovens se aproximaram da beira do palco.

 

Sorridentes. Se deram as mãos. Curvaram-se em reverência a plateia.

 

O que é isso? Um sonho bom?

 

Enquanto se retiravam para atrás das cortinas, seus olhos se encontraram. O sorriso deles prosseguia. Mas havia uma nova luz que cada um via no brilho do outro.

 

 

FIM

 

Texto de: Luiz Hasse
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