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II – Decadência

Eles estavam em cinco. De certa forma o haviam cercado.

Não com os braços e a força, mas com olhares maliciosos e provocações.

Era muito pior, pois, se o tivessem forçado fisicamente, poderia se isentar da culpa.

Mas, do jeito que fizeram, ele apenas fez o que achava que precisava fazer pra se livrar da vergonha, da pressão, do medo de rejeição.

Se sabia que era errado?

Como não saber?

Mas quem nunca esteve na berlinda, que julgue.

– Vai, cara, experimenta! – disse o mandão.

Todos os grupos de meninos tem um mandão.

– Todos da turma usam – disse o outro.

. . .

O padre guardou a garrafa com o vinho – a garrafa secreta, que ele guardava para seu pecado secreto, jamais o vinho sagrado da missa – e fechou o armário. Depois saiu da pequena sala em direção a nave da igreja.

O coroinha olhava para ele.

Um olhar perdido.

E então um esgar de sorriso, uma boca aberta, e uma voz grave:

– Aaaaaahhhhhh! Vem! Vem! Vem!

As mão do menino rasgaram as próprias vestes. O padre sentiu um arrepio. Suas pupilas se dilataram e seus olhos se tornaram completamente negros. Houve risos e uivos e a criança ergueu os braços pra ele.

O padre gritou de pavor e correu de volta para seu quarto. No caminho, suas mãos tocaram sem querer no recipiente de vinho sacro que não deveria estar no altar e ele se espatifou, formando uma enorme mancha.

E ele lembrou do tempo – lembrou sem nunca ter vivido – em que altares como aqueles ficavam manchados de vermelho pelo que se fazia a cordeiros e crianças.

Trancou-se no quarto apavorado. Ouvia aquela coisa a rir, urrar, esmurrar a porta. Até que finalmente um gemido mais alto e ela tombou.

E só depois que se fez silêncio e ele respirou aliviado é que ele percebeu.

Ele não tivera coragem – aliás, sequer pensara – em dizer uma única oração.

. . .

A ambulância recolheu o corpo do menino. O padre assistiu sentado na calçada. O delegado olhou pra ele e disse:

– É a droga. Aquilo foi uma overdose. Sabe-se lá há quanto tempo estava usando. A gente não nota.

Mesmo nos melhores jovens. Tá chegando cada vez mais na cidade. A gente faz o que pode.

O padre olhou para os olhos compassivos de Hans.

E não sentiu ironia. Sentiu mordacidade.

Sim, haveriam de autopsiar o menino e encontrar a velha explicação química de sempre. Mas não fazia diferença. Não mudava o que ocorrera em seu coração. Ele sempre se julgara um homem bom, mas quando o momento chegara…

Uma súbita compreensão o assaltou, olhando os olhos doces do novo delegado.

Esse homem sabe. Sabe o que aconteceu aqui.

Como se ouvisse o pensamento, Hans desviou o olhar e foi para seu próprio carro.

– Não se culpe. O senhor não podia fazer nada.

O padre olhou para a garrafa que tinha na mão direita. Pela metade e já sem rolha. Tomou mais um gole e se levantou. O sol queimava, apesar do frio. Ele queimaria para sempre.

. . .

Meu Deus! Meu Deus! Eu os amava! Eu os amava TANTO! E eles me amavam também! Eles só estavam confusos! Tristes! Eles eram humanos! Todas as coisas que eu quis dizer, que eu sentia lá no fundo! Tudo o que precisava saber, perguntar! Tudo o que eu nunca disse! Perdido! Perdido! Perdido pra sempre!

Mas os pensamentos não viravam palavras. Apenas lágrimas.

Lúcia se agarrava aos caixões.

Jovem. Tornara-se legalmente adulta há tão pouco tempo.

E sozinha. Sem nada.

Sem nada exceto seu benfeitor.

Ali não ousara por uma única jóia. O vestido negro de luto era caro.

Que escolha ela tinha agora?

Perdido… tudo perdido… e perdida eu.

Na saída do funeral, o carro com o instrutor de música a esperava.

– Recomeçamos as aulas assim que estiver pronta – disse ele – eu não sou de fazer elogios porque creio que isso estraga o desempenho. Mas talvez sirva de consolo que sua evolução é evidente e superior à maioria.

E calou-se. Era um homem frio. Odiava-o. Ele nunca havia feito nada de ruim para ela. Mas era como conversar com um robô.

Olhou pela janela e começou a se perguntar quando foi que sua vida tomara aquele rumo. Ela fora jogada como uma pluma pelo vento? Ela fizera algo errado? Era culpa dela, de alguma forma?

Mas apenas havia o vácuo. O vazio. A escuridão fria e silente.

O vácuo entre as estrelas parecia cada vez maior. Mas ninguém se perguntava o por quê.

. . .

O corpo do professor se recuperara do abuso que sofrera num tempo que teria intrigado pesquisadores da ciência médica se ali houvesse algum. Mas o hospital era profissional demais. E eficiente demais, inclusive. Não havia pesquisa.

Um ritmo de fábrica. Interessante. Lembro do que acontece quando se mistura medicina e pensamento industrial. Gente vira produto. Ou matéria-prima.

E ele lembrou-se das fumaças das chaminés dos campos de trabalho. Era mesmo possível que ninguém se perguntasse do que aquela fumaça era feita, em lugares cujo tamanho nunca aumentava, mas sempre recebiam mais gente?

– Tudo queima.

– Professor?

Assustara a enfermeira novamente. Mas ela não estava ali por isso. Trazia uma mensagem.

– Sim? – já sabia o que era, mas gostava da expressões de surpresa dela.

– O delegado…

– Informe a ele que conversamos lá fora.

– Mas o senhor não pode…

Ele estava vestido. Ela estava tão chocada de vê-lo de pé que nem se perguntou onde conseguira roupas e uma bengala. Pois a única sequela era um leve mancar da perna. Ele arrumara seu próprio leito hospitalar e o deixara mais limpo do que estava antes dele ser colocado ali, depois da surra que recebera.

– Não posso o quê?

Ele sorria. Ela detestava quando ele sorria.

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Texto de: Luiz Hasse
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