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IX –  Conflagração

Do seu camarote, com convidados selecionados, o homem de preto viu as cortinas do palco se abrirem. O som eletrônico terminou numa nota grave. E todos na pista de dança  silenciaram e olharam para o palco. Escuridão e silêncio.

 

Os velhos feitiços eram os melhores feitiços. Ele sorriu na escuridão.

 

A luz se acendeu sobre ela. A filha escolhida da cidade em chamas.

 

Mas então…

 

…por quê?

 

Silenciosamente, o guitarrista começou a dedilhar uma canção diferente. E os  outros músicos acompanharam.

 

A música era outra. Era diferente. E ele sentiu medo.

 

A canção estava invertida.

 

Ele se levantou e urrou. E as cortinas se incendiaram. E os cabelos negros dela pareceram absorver e intensificar o brilho de fogo. As pessoas no salão gritaram. O pânico começava. As coisas se despedaçavam. Seu plano… seu lindo plano…

 

E os do camarote gritavam e corriam. Ele tentou dizer

 

Fiquem comigo. Aqui não há…

 

Perigo.

 

Sua voz não saía.

 

Olhou para as mãos. Cobertas de pelos. Simiescas. Não era só a canção que estava invertida.

 

Tudo estava voltando. Seu corpo. Aquele corpo. Aquela veste.

 

Ela estava revertendo.

 

Talvez ainda desse tempo. Saltou da bancada no meio da multidão em pânico e avançou. Mas alguém lhe bloqueou o caminho.

 

.     .      .

 

Cada um contaria uma história diferente. Quando o mais incrível espetáculo que já assistiram começaram com cortinas se incendiando e a plateia se desesperando. E então alguma coisa saltara lá de cima. Um homem das cavernas. Um lobisomem. Um sátiro. Qualquer coisa nem gente e nem bicho, urrando e avançando, como se fosse matar os músicos.

 

Mas a vocalista tocava. Rainha do rock n’roll. Outros diziam tratar-se de outro tipo de música. A banda silente atrás. Apenas o guitarrista sorria. Ou violeiro. O sorriso silencioso de um combinação secreta.

 

Quanto todos os valentes da cidade e de fora abriram caminho, uma mocinha ficou na frente da besta-fera, armada com uma faca longa e afiada. E abriu-lhe um talho no ventre.

 

– Seu merda! Cafajeste!

 

A coisa riu.

 

– Você falou!

 

E ela gritou e levou as mãos aos seus cabelos brancos. E sua pele morena enrugou-se e secou. E seus dentes caíram. E sua voz terminou num gemido rouco. E seu corpo de velha caiu.

 

Chamas se erguendo e saídas fechadas. E o monstro olhou para os dois que agora cantavam e tocavam sozinhos. Palavras que ninguém mais compreendia. E mudou de forma novamente. Uma serpente ou dragão monstruoso e sibilante, mas pequeno. O espaço não comportaria maiores.

 

A transformação ainda não estava completa quando o soldado veio. Terno branco e cabelos dourados. E olhar de fúria. Uma arma dourada e uma prateada em cada mão. Encheu de buracos o peito do réptil onde menina que agora era o cadáver de uma anciã já deixara um talho. E foram seis tiros um de cada lado. A serpente se esqueceu dos músicos e voltou-se para o guerreiro. De sua boca saíram chamas, mas Hans sorria quando disse:

 

– Perdeu, playboy.

 

E seu corpo se consumiu.

 

O dragão sentiu que não conseguia erguer-se. Perdera boa parte do que era com os ferimentos. E usara quase todo o seu poder para…

 

… para aquilo?

 

Uma casa de espetáculos. Que agora queimaria.

 

– Não. Não queimará.

 

A voz era mais velha. Falava de trás dele.

 

O Professor ergueu seu cajado – sua bengala, com o mesmo sinal antigo que o cetro de poder que ele usava – e ele viu a astúcia infinita em seus olhos e percebeu que fora enganado o tempo todo. Ele era o trouxa daquela vez.

 

– Continuará. Sob nova direção.

 

Os corpos dos três se consumiram. E só restou de cada um uma mancha no chão. As chamas nas cortinas retrocederam. A canção acabou. Alguns se machucaram na corrida. Mas então Delegado  falou lá do camarote.

 

– Estamos garantindo a segurança. Acalmem-se todos. Isso é parte do show.

 

Lúcia e Pedro respiraram aliviados.

 

O que foi tudo isso? Um show? Um sonho ruim?

 

Estavam sozinhos no palco. O público se acalmara. E agora o alívio virava admiração.

 

Aplaudidos de pé. Todo o tipo de elogio, de comportados a nada disso, explodiram da turba.

 

Os dois jovens se aproximaram da beira do palco.

 

Sorridentes. Se deram as mãos. Curvaram-se em reverência a plateia.

 

O que é isso? Um sonho bom?

 

Enquanto se retiravam para atrás das cortinas, seus olhos se encontraram. O sorriso deles prosseguia. Mas havia uma nova luz que cada um via no brilho do outro.

 

FIM

 

Texto de: Luiz Hasse
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