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VI – Dor

O soco veio de surpresa. E a ameaça já teria bastado.

 

Pedro caiu de joelhos. Lágrimas de dor e humilhação escorreram de seus olhos. O desejo de fazer alguma coisa e a consciência da própria incapacidade de fazer.

 

– Já sabe. Se contar pra ela vai ser pior.

 

Ele ergueu os olhos para a figura imponente, nojenta e cínica de Júnior e murmurou:

 

– Eu juro.. eu juro… não vou dizer nada…

 

O outro sorriu, acariciou-lhe o rosto com desdém, e depois lhe deu uma bofetada.

 

– Que bom que tu é inteligente.

 

Então ele viu o fogo.

 

A fogueira brilhava do outro lado. Evidentemente, não a vira. Não era ele que estava de vigia aquela noite. Era outra pessoa. Pois ele estava na barraca e não podia ver.

 

Mas a luz estava acesa ali. O Professor estava olhando para ele, sorria com tranquilidade.

 

– Sonhos ruins?

 

Ele não disse nada.

 

– Não vou te machucar se não falar. Mas mesmo assim não precisa falar se não quiser.

 

Pedro se sentou e olhou nos olhos.

 

– Sim.

 

– Sim o quê?

 

– Sonhos ruins.

 

– São os tempos, não?

 

– Não.

 

– Não?

 

– Não. Eu sempre tive sonhos ruins. Mas normalmente com coisas que eu imaginava.

 

– E você imaginou isso tudo?

 

– Tomara que não. Senão eu estou…

 

– Maluco.

 

O Professor se levantou, levando a lanterna. Ao virar-se para sair, seu corpo encobriu a luz e ele virou uma silhueta escura. Do tipo que se vê em pesadelos e não se pode mover.

 

– Ei!

 

Mas ele podia e o seguiu para o lado de fora. O que aquele velho doido estava fazendo? Precisavam da luz ali dentro e…

 

Lá fora, ele viu o brilho das chamas. Sempre atraia os monstros. Mas estranhamente não teve medo da fogueira. Ao seu redor, não via a lanterna, mas imaginou que o Professor a levava. Apagada. O velho sinistro enxergava no escuro?

 

Pensou em voltar e acordar Tomás. Mas que adiantaria, na escuridão? E não podiam sair atrás dele com tochas. O que fazer?

 

Algo soou à sua direita. Um farfalhar de folhas. Teve medo. Mas então lembrou.

 

Se fossem os desmortos, eles iriam para o fogo. Aqui está escuro. E frio. Deve ser ele.

 

– Professor…

 

O outro se afastou. Pedro ficou em pânico. Seguir ou não?

 

Era ele que manejava a faca. Mas se fosse e alguém chegasse, precisariam dela. Voltou-se para porta da barraca e jogou a ferramenta ali. Pegou uma das armas acessórias. Um machado de lenha. Eles tinham um bom acampamento ali. Tudo tirado de casas vazias.

 

Pois os mortos levavam os vivos para a escuridão. E o número deles aumentava. E restavam casas vazias. Piores que túmulos. Porque túmulos tinham nomes. E nela havia apenas ausência.

 

E mergulhou na escuridão, seguindo os passos do que se afastava.

 

Seus pés o guiaram pela escuridão – e sua mente entrou numa escuridão maior – e ele percebeu que ela voltava no tempo. Havia sido um sonho? Se fora, ele não sabia lembrar. Lembrava-se apenas de seguir Lúcia no bosque, encantado. Como se estivesse atrás de um fada. Ela sempre o encantara. Mas naquela manhã ela brilhava tanto, e estava tão leve, que ele achou que conseguiria falar com ela.

 

Mas não.

 

Naquela manhã descobriu que nunca conseguiria.

 

Porque, silencioso como só as rochas sabem ser, ele a seguira até uma clareira e descobrira com quem ela se encontrara.

 

E não quisera ficar para ver mais nada. A faceirice dela com aquele sujeito era toda a dor que suportaria naquele dia.

 

Quando deu por si havia descido os morros até uma trilha de terra lá embaixo. Fora do abrigo das árvores, percebeu que havia Lua. Grande brilhante. E as pedras claras da via permitiam que se orientasse. Mas não apenas isso. Os últimos dias nas trevas haviam aguçado a visão de todos de seu bando. E aquilo era quase como se fosse o sol.

 

O vulto, presumivelmente o velho, estava mais adiante, onde aquela estrada se cruzava com outra. Avançou para ele. Mas antes de chegar na encruzilhada, havia um túnel formado por árvores que se fechavam sobre a estradinha, lançando um manto de sombra.

 

E ao passar por ela, ele lembrou-se de dor pior.

 

Perambulando por outros lugares na floresta encontrar Junior de novo. Não sozinho. Bem acompanhado. Mas não por Lúcia. Desta vez a trouxa era outra.

 

Na verdade o trouxa sou eu.

 

A menina não o vira. Estava de costas pra ele. Na floresta dos encontros infelizes. Mas o moleque, vagabundo, traficantezinho de merda, filho da puta, cafajeste, estava de frente, e, mais alto que ele, o vira por cima da cabeça dela também.

 

E fora tomar satisfações depois. Ódio talvez nada mais seja que raiva represada por certeza de impotência.

 

Emergiu para a luz do outro lado, voltando para o presente e…

 

Não era o professor.

 

O malandro virou-se para ele, sorrindo aquele sorriso que lhe dava engulhos. Bem no meio do cruzamento dos caminhos. Ele sentiu o sangue gelar-lhe as veias.

 

– Deu com a língua nos dentes, é?

 

Mas então a luz da Lua pareceu  brilhar mais forte e fria. E Pedro se sentiu frio. Frio como as pedras brancas da estrada que refletiam aquela luz. Afinal… fazia sentido ter medo dele ainda?

 

A ilusão passou e ele percebeu o que o vulto de fato era. Um esqueleto de ossos carbonizados. Em pé. De guarda na estrada. Talvez colocado pelo inimigo. E não importava de quem eram os ossos. Ele  tinha um trabalho a fazer. E não fazia diferença se lá em cima, no acampamento, ou ali embaixo. Um a menos é um menos.

 

– Vamos conversar aí, tranca-rua!

 

E correu contra a criatura. O cadáver deslocou-se de seu ponto. E naquela hora não fazia diferença se tinha a faca ou não. Aqueles ossos frágeis despedaçaram-se no primeiro golpe de machado. Dividido em dois, o corpo seco, escuro e estalante, tentou agarrar-se a ele. Ele chutou e golpeou com fúria. Os pedaços ainda se moviam. Até que ele subitamente percebeu que não havia por que golpea-los mais.

 

E deu-lhe as costas, se afastando. Subitamente, percebeu a encruzilhada na sua frente. Havia invertido a posição do corpo durante a luta. E pensou se conseguiria voltar para o acampamento.

 

Uma outra luz veio além da Lua. Ele se virou e ergueu o machado.

 

– Calma, menino – disse a voz do Professor, abaixando a lanterna – só fui te buscar uma coisa. Você quer?

 

E sua outra mão ergueu um violão novo. Como se fosse um prêmio pela batalha.

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Texto de: Luiz Hasse
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