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V – Reunião

O velho veio pela floresta. Seus olhos fixos no fogo do acampamento. Estava tão feliz e leve que nem viu os inimigos se aproximarem.

 

Só que não eram inimigos.

 

O mais rápido e silencioso era o mais jovem, chegou portanto, por trás, e lhe prendeu os braços com os seus. Alguém mais veio pela esquerda e jogou algo parecido com tecido sobre seu rosto. Havia um terceiro, ele sabia.

Jogado agora perto do fogo, o Professor gritou:

 

– Sou eu, seus patetas! Tira essa porcaria do meu rosto!

 

A luz voltou aos seus olhos quando o cobertor foi removido e ele viu os três diante de si. Tomás, Pedro, Diná.

 

– O truque da fogueira é bom – disse o Professor, sorrindo – você sabe que a luz os atrai, por mais que o fogo seja uma das poucas coisas que possa destruí-los, eles não conseguem evitar se aproximar. Já sabia que estavam vivos, mas mesmo assim é bom rever amigos.

 

Tomás e Pedro não sabiam o que dizer. Diná que falou:

 

– Esse é aquele que você…?

 

– É  – respondeu Tomás.

 

E só então ele percebeu a dureza em seu rosto.

 

– Pode me desamarrar as mãos?

 

– Não sei se devo.

 

– Por que não?

 

– Tu mesmo disse. E depois que deixei tua casa, só tive problemas.

 

– Certo. E o que você tem feito desde então?

 

– Você já deve saber, se um décimo do que me contou é verdade… aquelas… coisas… você deve saber o quê… andam por aí, na escuridão. Nós as estamos caçando. E matando. O Pedro usa a faca que você me deu depois que eu. Parece que quando ele as toca, eles…

 

– Lembram. Lembram das pessoas que foram. E se a faca não os mata, o fogo faz isso. Pois bem. Depois que você me abandonou o inimigo foi até minha casa. E me deu a pior surra da minha vida. Eu nem lembro de como terminou. Fui para o hospital. Sonhei muito. Dormi muito. E… bom, nós temos uma chance.

 

– Você disse que estaria do lado dele. Não importava o que…

 

– Será que fui eu que disse?

 

Silêncio.

 

– Então… – começou o Professor – Eu vim para ajudar. Mas não gosto de ficar sentado na terra com as mãos amarradas. Se querem minha ajuda, vocês me soltam. Faz menos  diferença pra mim que pra você. Eu já passei o que de pior tinha que passar nessa história. Você aí, mocinho. Que vai fazer com essa faca? Vai me degolar? Então faça logo.

 

Pedro caminhou até o ancião caído e ajoelhou-se atrás dele, um rápido manejo da lâmina e suas mãos estavam soltas.

 

– Não precisava estragar a corda – resmungou Diná.

 

– Obrigado – disse o Professor, se levantando – Querem ouvir agora?

 

– O que você tiver pra nos falar – retrucou Tomás.

 

– Pois bem, você pode interpretar que ao vir à  minha casa ele rompeu o pacto antes e me deu permissão pra agir. E por isso estou ao lado de vocês, apesar de ser o que sou. Ou então…

 

As chamas crepitaram, como se estivessem zangadas.

 

– O fogo os atrai – disse Tomás – por isso nós acendemos as fogueiras, ficamos de vigia e, ao menor sinal deles, corremos para um abrigo no escuro.

 

Os quatro saíram para longe do alcance da luz. Uma outra luz clara e fraca se acendeu na frente deles. Diná estava na entrada da barraca, sinalizando com uma lanterna de dínamo. Eles passaram sob a lona e a luz, para quem visse de fora, desapareceu.

 

Lá dentro, a conversa continuou:

 

– Foi o Pedro que percebeu que você era uma pessoa viva. Mas não te reconhecemos de primeira. A gente ia te interrogar antes.

 

– Que bom que não cheguei a passar nem pelo interrogatório.

 

– Você pode terminar sua história agora.

 

– Então, pode ser também que tenhamos interpretado tudo errado.

 

– O que interpretamos errado? – interferiu Pedro.

 

– Depois te explico. O que você quer dizer?

 

Pedro silenciou um pouco constrangido. Era evidente que Tomás estava se tornando uma espécie de segundo pai para ele. E se lembrou do que acontecera com o antigo. Tentou ser breve:

 

– Olha, a história que contei, que me lembro, e que guia o pensamento do Homem de Preto provavelmente é verdadeira. Mas é só parte da verdade. Assim como me lembro dessa vida mais antiga, eu também me lembro de minha vida de homem. Desta vida aqui. Se é assim, qual dos dois eu sou?

 

– Isso é você que me diz.

 

– Exatamente. E eu escolho ser quem sou agora. E a pessoa que eu sou agora nunca fez nenhum juramento de lealdade àquela outra que dirige aquele horror lá – e apontou para a escuridão do lado de fora e morro acima – até porque aquilo lá… é só um homem. Um homem ruim. Cheio de ódio e tristeza. Eu não sei o que aconteceu na vida dele. Acho que ele mesmo não sabe. Mas quero crer que não seria possível alguém se tornar refém dessa força de destruição que ele representa se não tivesse sido ele próprio quebrado pela vida de alguma forma. Ferido, traído, abandonado, alguma espécie de grande decepção. Eu não sei e não me importa. Ele provavelmente já esqueceu até o próprio nome. Mas ele é um homem. Ele se enxerga agora como alguém dessa outra vida anterior. Age de todas as formas possíveis como um príncipe de um povo antigo. Mas eu senti as bofetadas dele. É tão feito de carne quanto qualquer um de nós. Se ele fosse puro, como finge que é, nem conseguiria ter me ferido porque daí seria fato que…

 

– Vocês são irmãos.

 

– Mas não somos. Alguma coisa entre nós é. Esse poder que ele representa. Talvez ele se ache especial, mas nem seja o caso. Ele só se entregou a isso e agora é um escravo dessa força. Dessa essência que havia num povo mais antigo, e que agora está morto, e se espalhou pelo mundo todo. E talvez até mesmo exista algo desse poder em cada um de nós e não apenas em meia dúzia de escolhidos.

 

– Lúcia – Pedro falara de novo.

 

– O que foi? – Diná se assustou com o tom de voz. A palavra fora como uma faísca. E ela lembrara de algo. Mas não sabia  do quê.

 

– Uma menina da escola. Eu lembrei dela. Lembrei que uma vez conversei com ela. E ela falou algo parecido. Que talvez toda pessoa pudesse, se acreditasse, tivesse vontade ou soubesse exatamente como…

 

– Você a conhece bem? – a voz do professor era misteriosa e seus olhos eram atentos.

 

– Sim. Quer dizer, não, mas…

 

– Não precisa dizer mais nada – completou com um sorriso – agora TUDO se encaixou. Eu sei o que ele quer. E sei como pretende fazer.

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Texto de: Luiz Hasse
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