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IV – Ascensão

Riqueza atrai riqueza.

Foi o que pensou o velho olhando a cidade lá do alto. De um morro escuro e de cume coberto por árvores. Tentou se iludir que tudo aquilo acontecera enquanto ele dormia. Mas na verdade não era apenas ele que dormia.

Há muito tempo a cidade vinha crescendo. Trouxera tipos como Hans e Saulo. E a existência deles fazia as pessoas que tanto desejavam que nada mudasse odiar o progresso que a erguia. Mas não era apenas isso que ela trazia. Nas casas humildes, mais novas, que se amontoavam ao redor da parte tradicional, havia pessoas em busca de emprego. Uma jornada para longe de casa, motivada pela necessidade ou por uma busca mais nobre – ser feliz – mas que muitas vezes encontrava pouca acolhida, ingratidão, e até mesmo desespero. Pois quem inicia uma jornada pode se perder.

E era aquilo, mais que o ouro, mais que a riqueza, que atrai o dragão. As pessoas perdidas. Desesperadas. Aquelas cujo coração se endurecera de ódio ao contemplar não um paraíso de oportunidades e felicidade, mas um inferno de frieza e indiferença.

Pensou em todas as boas pessoas da cidade, e seu apego mesquinho a tudo que tinham como seguro, e que o fato de serem gentis e generosas não as impedia de ignorar o desespero dos viajantes que chegavam. Havia uma separação ali.

O dragão gostava de separações. Separados eles não podiam lhe resistir.

A chama em seu peito cresceu. Uma voz sussurrou, uma mistura de sibilo de serpente crepitar de fogo:

Eles merecem…

O velho era um amente de cinema. E a voz de outro velho lhe lembrou: merecer não tem nada a ver com isso.

Se o amor viesse pelo mérito – pensou – não seria amor, seria comércio. Comércio não é ruim. É necessário e não precisa ser sujo. Mas é favor não confundir as coisas.

Aquela era sua voz de homem.

E havia algo mais. Uma voz superior e mais profunda. Algo que podia guia-lo em silêncio.

Lá embaixo, na floresta, viu um fogo acender-se. Não era uma fogueira de destruição. Era um fogo para trazer luz e calor a homens e mulheres cansados e com frio. Perdidos.

No meio da escuridão celestial, uma estrela brilhou. Como que em resposta.

Três é o número – pensou e sorriu.

E começou a descer o morro. Tinha vontade de cantar.

. . .

O homem de preto viu as contas terminarem de ser demonstradas pelo menino a sua frente. E percebeu que ele não apenas era bom com números, mas tinha uma compreensão mais exata e mais lúcida do que eles eram. Hans fizera bem em recomendar que ele saísse da central de envio da mercadoria. Ele sempre fazia as pessoas ficarem mais espertar. Mesmo Hans.

– Então, na nossa opinião, o balanço está bom?

– Os números não mentem. Superamos as expectativas. O mercado aqui absorveu o produto melhor do que esperávamos.

Calou-se subitamente. O homem de preto sabia. Mas fingiu estar intrigado:

– O que o preocupa?

– Aquele coroinha que morreu hoje. As pessoas vão falar.

– Que falem. Não tenho preconceito com fofocas. Aquele padre era velho e ninguém gostava dele. Eu o vi bêbado mais cedo. E há novas igrejas na cidade. Fazem tudo que as igrejas sempre fizeram, inclusive esta. Mas os sacerdotes sempre gostaram de conspirar uns contra os outros. Se a grama do vizinho é sempre mais verde, também a cobra que rasteja em seu quintal é sempre mais venenosa. Eles contarão outro tipo de história também. Sobre aquele padre.

– E são verdadeiras?

– Claro que são. Nada é mentira, se você acreditar.

O contador ficou confuso. Pediu licença e se retirou.

O homem de preto estava sozinho. De certa forma sempre estivera. Mesmo quando eram muitos e tinham uma cidade. Mas aquilo fora em outro tempo. E ele tinha dificuldade mesmo de lembrar. Se por um lado as lembranças daquele corpo mortal haviam se perdido para sempre – eu sou melhor do que isso – melhor maior mais brilhante mais poderoso melhor maior mais – as de sua verdadeira vida, de sua verdadeira essência, nunca haviam sido totalmente recuperadas. Eram como sonhos. Era humilhante, mas às vezes precisava ler sobre elas em livros que palavras de mentirosos contavam a história de seu povo deturpada. Ouvida de bocas que já mentiam.

Mas eles aprenderão. Eu sou destruição. Eu sou a justiça. Eu sou fogo. Eu sou escuridão.

E no escuro ele estava. Seus olhos brilhavam solitários no meio da casa pentagonal, já quase completamente reformada. E porque eram capazes de enxergar através das trevas, não conseguiam percebê-las. Ao redor de si. Vazias e silentes. E frias.

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Texto de: Luiz Hasse
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