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III – Dor

O delegado contemplou o homem no escuro. A lâmpada queimara no saguão pouco tempo antes. E sentiu algo estranho Uma velha conhecida sensação.

Não tema nada – dissera o chefe – Ele não pode. E na real, não quer. Então você dirá para ele te acompanhar e ele te acompanhará.

O velho sorriu. O tempo no hospital o fizera cultivar um cavanhaque parecido com o do chefe. Mas branco. Mas igualmente…

…caprino.

– Caminhemos. Não precisa pedir. Vou contigo.

Andaram lado a lado. O velho olhava para o céu. Sorria um sorriso de lembranças queridas. Parecia que Hans não estava ali. Aquilo irritava.

Uma rua mais escura que as outras. Pararam

– Acho que aqui está bom – disse o velho.

O delegado levou outro susto. Agora era estranho demais. Não imaginava que ele fosse facilitar tanto.

Os olhos se encontraram. Luz contra a escuridão. E a voz mais velha disse:

– Você tem ordens a cumprir. Se realmente acha que deve, cumpra.

Rompendo o gelo que parecia existir ao redor dele – tudo tão escuro e tão frio – ele sacou a ferramenta metálica cheirando a óleo e morte. Tão bela e fria. Seria melhor se fosse rápido. Mas o outro era mais rápido.

A bengala moveu-se como uma espada e braço dolorido de Hans mudou de direção. A arma quicou no chão, inútil naquele instante. E quando ele tentou mover o braço novamente, ele estava flexionado do jeito errado.

A bengala, no entanto, não parou de se mover. Aleijou Hans no joelho de um golpe, ele caiu e o velho num passo de dançarino aterrissou com o sapato de bico fino pisando seu rosto. Poderia ter transformado sua cabeça em guisado. Mas apenas o manteve no chão.

Era mais forte também.

Hans viu uma chance.

A arma estava perto de seu outro braço. Aquele que ele não…

A ponta da bengala, doendo como uma agulha, pregou seu pulso no chão, sem precisar atravessá-lo.

– Não se iluda, Hans. Golias era um imbecil. Ele correu atrás de um inimigo mais rápido, com metal pesando em seu corpo de brutamontes, e esse inimigo era destro e célero e tinha uma arma que alcançava mais longe. Se você quebrar a testa do gigante com uma pedrada vai ser como quebrar a testa do anão. Exatamente igual. O fraco jamais venceu uma briga com o forte por seus próprios méritos. Se um dia algo virou o jogo foi apenas… a sorte. Vou te explicar umas coisas… a primeira é que você só sai dessa posição quando e se me der vontade. E eu posso ficar aqui até o mundo pegar fogo e depois congelar de novo. Acredite, o que você quer é me deixar de bom humor. Só não sabe disso ainda. Mas eu vou ensinar. Eu sempre ensinei. Eu sou um…

– Não pode…

– O que disse?

– Não pode… ele disse…

– Eu sei o que ele disse. Que não posso contrariar a vontade dele. E não posso de fato. E nem ele a minha. Estamos juntos. Somos irmãos. Queremos exatamente a mesma coisa.

O medo de Hans aumentou.

– Eu conheço essa sensação de terror. De abismo se abrindo e queda. Ela é velha como o tempo. É o sentimento que o imbecil tem ao finalmente ficar esperto. Às vezes meio tarde. Você sabia. Você sempre soube. Mas todos se iludem. Igual você se ilude com… nossa… eu acho armas folheadas a ouro de um mau gosto cafetinesco. O que nós queremos, Hans?

Hans não respondeu. Suas lágrimas tocaram o chão.

– Vergonha? É bom que sinta. Bom pra mim, pelo menos. Ha! Ha! Você sabia. Sabe. Sempre soube. Saberá pra sempre e sabe agora o que queremos. Ele te enganou. Ele engana a todos. É da natureza dele. O que nós queremos, Hans?

Hans gemia.

– Hans, se você não me responder, eu vou arrancar as suas bolas e fazer você comê-las. E depois cada um de seus dedos e artelhos. E você vai falar. O que queremos?

– Vocês… querem… o nosso…

– Sim? Como a oração termina? Do que você pede libertação?

– Do mal…

– Então, de que forma posso estar contra ele agora? Posso, Hans?

– Não… mas…

– Não finja ser burro depois de aprender. Pode ser útil com os outros, que sabem menos. Com o professor é indecente. Você sabe. Apenas se enganou. E ao se enganar você é objeto e também sujeito. E mais consciente do que pensa. Você achou que ele era seu amigo? Você quis acreditar nisso?

– Sim…

– Ele te mandou aqui pra mim. Eu te quebrei um braço e uma perna. Estou te pisando no rosto e te impedindo de reagir. Posso te matar com a ponta do pé. Ou te aleijar de um jeito que vais desejar morrer e não vai ter como fazer isso. Você ainda acredita nisso? Ele te enganou, Hans. Ele te odeia. Ele odeia todos vocês. Ele odeia até mesmo o homem que ele monta. Aquele que, em certa medida, ele é. Ele é seu amigo, Hans?

Hans chorou. Soluçou. Gemeu.

Sem piedade, veio a voz. Grave como um trovão. Não pareceu vir dos lábios do outro. Mas do céu. De todo aquele vazio.

– Responda!

– Não!

– Não o quê?

– Não! Ele não é meu amigo! Nunca foi! Ele me… ele me usou… e eu fui…

E tudo virou lágrimas e lamentos.

– E a outra pergunta. Eu adoro como ela soa. Caim, que fizeste?

Silêncio. Depois um risinho. Um pulo de cabrito para cima e ele estava livre.

– Sim, eu sou mau. Mas há algo pior que eu. E eu nem sonho em competir. Não vou te obrigar a responder essa. Só vou te contar um segredo. Ele era seu melhor amigo. Te admirava. Teu fiel seguidor. Nunca estrelou num de seus vídeos porque… bem… porque tinha medo de te desagradar. Achava que gostavas de brilhar sozinho. Quem diria que haveria tanto amor entre assassinos? Mas há. Havia. O amor morreu. Foi assassinado.

Hans estava encolhido, chorando, em posição fetal.

– Seja homem – falou o outro sem piedade – agora outro segredo. Este corpo é mortal. Este homem é real. Sou forte porque o fogo que existe aqui dentro é forte. Mas se me encheres de tiros, o fogo se vai e o resto vai para o pó. Como todos. Tudo queima. O destino de tudo que há é perecer. Às vezes com nossa ajuda. Assassino. Se acha que pode, pega tua arma e atira. E o fantasma de Saulo não vai embora mesmo assim.

Hans conseguiu finalmente encará-lo. Abriu a boca para perguntar algo. Mas foi interrompido antes de começar.

– Você não espera realmente consolo, ou cura para seu sofrimento, vindos de mim, espera? Quer dizer… nem você é tão burro. Eu sou como seu chefe. Eu desejo seu mal até a última. Se você sente remorso, do fundo do meu coração, desejo que esse remorso vire um gordo, suculento e doloroso tumor a matar seu corpo bem devagar.

Olhou para a arma dourada com desdém.

– Saulo talvez agora compartilhe de minha… visão. De minha visão dos fatos. O que você acha?

Andando de costas, o velho foi para as sombras. E antes de desaparecer o rosto dele pareceu metamorfosear-se. Era um rosto mais jovem. Tolo e perverso. E familiar. E dele veio uma voz que disse.

– Só tem um jeito de saber. Tem que perguntar pra pessoa certa.

E desapareceu.

Ele estava sozinho.

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Texto de: Luiz Hasse
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