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I – Desordem

O patrão era um bom homem.

Ou assim pensava ele, vendo-o beber com os empregados no bar. Naquele momento, ele dava uma gostosa gargalhada, que enchia o local do luz. Tirava do bolso uma nota que correspondia a várias vezes a conta e a depositava na mesa. Deixava o conviva para trás. Olhando-o embevecido. Como podia haver homem tão bom? Rico e humilde. De melhores roupas, modos, dentes mais brancos, que todos ali. E ainda assim, conversando com ele, tinha-se a impressão de conversar com um igual.

O patrão saiu pela porta. Esfriara um pouco. Já usava uma longa casaca negra sobre o terno da mesma cor. Na mão a mesma bengala de sempre, que raramente tocava o chão.

Noite escura lá fora. Mas era homem corajoso. Ia sozinho, sem segurança.

Macho.

Diferente de mim, pensou Rodrigo, colocando em palavras um pensamento que jamais ganharia sua voz, meu irmão sumiu e eu só choro… e bebo.

E bebia sozinho. Evitava companhia. Não porque era forte, mas porque era fraco. Porque não queria que vissem como estava esfacelado por dentro.

Roberto sempre fora o mais forte, o mais ousado, o mais viril. Se afastara do acampamento dos trabalhadores e sumira. O novo delegado fizera tudo que podia. Ele sabia, porque ele e muitos de seus amigos haviam ajudado na busca. Mas ele desaparecera. Da mulher que ele alegara enxergar, menos rastro ainda.

Um jeito de história de fantasma. Mas pior, porque ele se fora e não voltara. E mesmo o pior fantasma é um retorno de algo que parecia perdido.

Pelo resto da vida ele se torturaria. Num outro pensamento secreto, desejara até mesmo encontrar o cadáver do irmão. Era melhor que a ausência. Que o mistério.

Porque este o enchia de pavor.

O homem que estivera com o patrão na mesa, ergueu os olhos de seu copo de cachaça e o levantou, deixando a madeira nua na sua frente, pedindo mais. O dono do boteco completou. Seus olhos encontraram os de Rodrigo e ele sorriu. Falou para quem o servia, mas olhando para ele.

– Põe um copo a mais pro meu amigo aqui. É só ele vir pra mesa que é por minha conta.

Rodrigo olhou para seu próprio copo vazio. O dinheiro dele já acabara antes que a embriaguez chegasse. E ele queria a embriaguez. Doía muito ficar sóbrio, lúcido, pensar. Sentir a própria fraqueza. Porque Roberto não era só amado. Ele sempre o defendera.

Diante da dor não há orgulho.

Junto na mesa, o outro disse:

– Notícias do irmão?

Era uma pergunta de cortesia. Todos sabiam do sumiço.

Mas ele abanou a cabeça.

– Teu irmão era gente boa. Que Deus o tenha. Homem honesto, valente, do tipo que falta hoje em dia, Rodrigo. E não se ofende com o que eu vou falar, mas ele só tinha um defeito. Por favor, o amigo não se ofenda. Porque era o único que eu sei.

Nos olhos de Rodrigo havia um fogo ao encontrar os do outro. Ele entornou o copo, mudo.

– Ele não podia ver mulher bonita, né?!

A frase foi dita com um sorriso. Em tom elogioso. Todos sabiam das aventuras românticas de Roberto. Da sua virilidade de sátiro. E o pessoal contava histórias sobre mulheres casadas e entediadas.

O tipo de história de cidade pequena, mas que sempre tem um fundo de verdade.

E naquele caso, o outro repetiu:

– Pessoal anda comentando…

E deixou no vácuo.

A voz de Rodrigo rompeu o silêncio:

– Comentando o quê?

O outro desfez a expressão alegre. Ficou sério. Tomou mais um gole de sua cachaça. Assustara-se. Rodrigo era sempre um doce. Alguns sussurravam até histórias sobre ele não ser lá muito homem… mas aquela voz grave e seca não era a dele.

Parecia a voz do irmão. Quando se zangava e partia pra briga.

A voz de um fantasma, se fosse, porque o irmão estava morto. E ele sabia.

E ele falou, tentando evitar a raiva do outro:

– Ah… desculpa… pensei que o amigo soubesse… não quero tocar em assunto ruim.

– Pois agora já tocou. E se não sei quero saber. Comentam o quê?

Rodrigo fez um sinal com a mão. O bodegueiro veio, encheu-lhe o copo. Tomou mais uma.

Já com um pouco de medo, já meio arrependido, mas sem querer voltar atrás, o amigo que gostava de fofoca, falou delicadamente:

– Eu não tô dizendo que eu sei ou que eu vi alguma coisa. Só que o povo comenta. Não tô acusando ninguém de nada. Mas o… o… Raul… um sujeito que tem a casa dele no limite do terreno da obra… é casado com a Cristina. Conhece?

– Sim.

– Bom, ele tem vinte anos mais que ela. Quando casaram, era uma menina praticamente. E agora ele tá ficando velho. E mulher nova tem muito fogo. A gente sabe. Diz que ela chorou muito no enterro do teu irmão. Eu não sei porque no dia eu não pude ir.

Rodrigo não disse nada.

Seus olhos foram pra dentro. Vasculharam a própria memória. Ele lembrou da senhora. Menos de trinta anos. Com aquela beleza de camponesa rude, mas bonita. E o rosto vermelho de lágrimas.

Seu irmão alegara ver uma mulher.

Raul tinha fama de ciumento. Diziam que batia nela.

A bebida perdeu o sabor. A embriaguez se foi.

. . .

Batidas soaram à noite.

Praguejando, o velho levantou da frente da tevê.

A esposa teve um mau pressentimento. Levantou os olhos para a porta e viu a sombra pela janelinha. Aquela hora da noite, por aquele vidro anti-visão, qualquer um era um fantasma.

Mas não se atreveu a se afastar da pia.

O velho verificou. Viu o rosto sorridente do jovem.

– Boa noite. Preciso falar com o senhor.

E esfregou os braços. Estava frio.

Raul abriu a porta e deu passagem.

O outro foi rápido. Lembrava uma onça. Sua expressão ganhou até um esgar felino de fúria. A mão descreveu um arco e atingiu o Raul no nariz. Antes de se recuperar do atordoamento causado pela dor, foi chutado com violência no joelho. Homem forte, mas pernas que o tempo cansara. Caiu.

Cristina gritou, em pânico. Mas apenas as sombras da noite ouviram. Aprendera a não interferir em demonstrações de fúria masculina. Mas quase cedeu.

Era seu marido que apanhava agora. Isso era tão raro que ela nunca vira.

Caído no chão, gemendo, chutado e pisado pelo sujeito mais jovem. Que rosnava e bufava.

Sem saber o que fazer, ela correu. Trancou-se no quarto.

Silêncio.

Pareciam estar satisfeitos.

Acho que acabaram, qualquer que fosse a quest…

Seus pensamentos foram cortados pelo estampido. Um som de tiro. Ela conhecia. Não quis gritar. Fechou os olhos, tapou os ouvidos. Se seguiram mais dois.

Silêncio.

Silêncio.

Vento e escuridão pela janela. Parecia mais escuro.

Tudo mais ausente, como se estivesse em outro mundo, e um vácuo de trevas sem fim conhecido a separasse do lugar que conhecia.

Se sentiu assustada. Sozinha. A última pessoa da Terra.

Um planeta de trevas.

Não resistiu. Destrancou a porta e saiu. Qualquer coisa menos aquele isolamento.

Mas ela não estava só como pensava. Rodrigo não fora embora. O revólver que matara seu marido, na mão direita dele, ainda tinha três balas.

Ele esperava por ela.

– Puta.

Foi tudo que disse.

Seu último pensamento foi:

Por quê?

Duas balas apenas.

A sexta Rodrigo guardou pra si.

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Texto de: Luiz Hasse
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