I

Clarice! Clarice! Que magia havia em teus olhos, tão vivos e brilhantes. Que poder teu sorriso tinha, que alegria teu riso transmitia. Clarice.
Queria dizer que vinte anos de tormento não foram em vão.

Eu e Clarice crescemos na mesma rua. Nos tornamos amigos inseparáveis na adolescência, mas enquanto ela se tornava bela e querida pelos de nossa idade, eu era desajeitado e frágil. Tímido e taciturno. Ainda assim, tão diferentes como sempre havíamos sido, mantivéramos a amizade por um bom tempo. Era a adolescência. Os anos eram mais longos.

Tínhamos a sorte – ou pelo menos eu considerava sorte – de frequentar a mesma escola. Eu não tinha muitos amigos além dela, mas ela espalhava encanto por onde passava.

Gostava de mim? Gostava. Eu era uma espécie de leal escudeiro. De auxiliar. De sombra de Clarice.

E estava sempre, perdida e secretamente apaixonado por ela.

Por secretamente posso dizer que jamais o revelei, nem quando aqueles dias e noites sombrios vieram, mas qualquer um que nos olhasse por tempo suficiente, hoje sei disso, notaria.

Hoje estou num ponto em que discutir culpas é tão inútil quanto chato. Mas quem me arrastou para aquela festa foi ela. E lá nós fomos. Eu não era dado a festas. Não sabia dançar. Normalmente terminava a um canto do salão, numa cadeira se tivesse sorte de pegar uma disponível, com um copo de refrigerante na mão, observando uma alegria que talvez eu invejasse, mas da qual não compartilhava.

Naquele noite, por acaso, ela ficou algum tempo a mais comigo. E tentava me convencer a ir para a pista:

– Vamos, por favor! Garanto que lá você vai conhecer alguém legal…

– Não. Obrigado. Eu não sei dançar, você sabe.

– Mas você não precisa saber, Augusto. Só precisa…

E calou-se.

Eu não queria ir, não apenas por causa da vergonha, mas porque não queria conhecer ninguém mais. Ela me bastava. Se ela um dia correspondesse ao que eu sentia, seria o Céu se abrindo, era o que eu imaginava. Mas mesmo que isso não acontecesse, preferia estar só ao lado dela do que estar acompanhado por outra pessoa.

Mas ela calou-se por que o estranho chegou.

Ele era alto, bonito e forte. Pelo menos um palmo mais alto que eu. E tinha ombros e costas de nadador. Usava uma jaqueta de couro larga e tinha olhos penetrantes. Não gostei dele, um pouco admito que por ressentimento, mas o que menos gostei foram aqueles olhos.

– Quer dançar? – disse ele a ela, sem sequer me olhar.

Havia uma sombra de sorriso no rosto dela. Ela me esqueceu completamente. E sorriu com a graça de sempre para ele.

– Claro. Vamos.

E partiram para a pista.

Aquilo mexeu com o meu humor de forma irremediável aquela noite.

Mas tudo bem. Já acontecera outras vezes. Ela já ficara com outros rapazes. “Com todos menos comigo”, dizia a canção. Fui pegar mais uma bebida no bar após observá-los mais um pouco. Ele cochichava coisas ao ouvido dela e ela ria.

Quando voltei do bar, não os vi mais.

Esperei por Clarice pelo resto da noite no ponto em que estava antes.

Ela não reapareceu.

 

II

 

No dia seguinte, liguei para ela.

– Alô…? – disse uma voz de ressaca do outro lado.

– Oi. Não te vi sair antes.

– Ah… sim… é verdade… o Ru me levou pra casa…

– Ru?

– É… o carinha que eu fiquei ontem…

– Tá tudo bem?

– Sim, sim. Tudo ótimo. Ele é fantástico, Augusto. Acho que é o primeiro cara de quem eu gosto de verdade…

– Mas… você conhecia ele de outro lugar?

– Não. Conheci ontem. Engraçado, né?

– Então como…?

– Sei lá. Aquelas coisas astrais. Parece que conheço de outras vidas. É como se a gente estivesse ligado profundamente.

Ela falava com entusiasmo. A voz de ressaca passara completamente. E aquela conversa era estranha. Eu nunca a vira assim por ninguém. Já estivera apaixonada antes. Mas não tão rápido e tão profundamente.

Em seguida, ela acrescentou:

– Olha… eu vou desligar… tenho um monte de coisas pra fazer agora… te cuida, beijo.

Eu não tinha nada de importante pra fazer. Era domingo. Dia de matar tempo. Por sorte tinha um videocassete no quarto e passara na videolocadora. Nada melhor que me distrair de uma situação com a qual eu já devia ter me acostumado. Assisti a três fitas de terror, uma atrás da outra. E depois mergulhei num romance do Sr. King. Quando anoiteceu, cuidei dos deveres da escola.

Adormeci.

Acho que foi minha última noite tranquila.

. . .

No dia seguinte na escola, Clarice estava estranha.
Mal falava comigo. Na verdade, mal falava com qualquer pessoa. Sua palidez era digna de nota. Parecia respirar com dificuldade. E sempre fora não apenas saudável, mas também alegre e vibrante, sem ser dada a crises de timidez e mau humor.

Quando finalmente adormeceu numa das aulas, o professor temeu que ela estivesse doente

– ou talvez usando drogas, e confesso que pensei nisso também – e pediu que ela se retirasse e telefonasse para a casa.

– Não. Tá tudo bem. – disse ela aprumando-se.

– Clarice, eu insisto. Vai até a diretoria. – disse ele.

– Não. Não. Me deixa aqui. Tá tudo bem.

– Clarice, você não está bem. Por favor, pega o teu material e…

– Não! Não! DROGA! NÃO! VAI A PUTA QUE O PARIU! NÃO VOU SAIR!

Aquilo colocou a sala de aula toda embasbacada. Ela se levantava e, com os olhos e as faces vermelhas, ergueu as mãos como se fosse agredi-lo. O professor deu um passo atrás, a princípio também assustado. Mas depois se controlou. Mandou o representante de turma chamar alguém da direção. Clarice arfava como um animal raivoso. E depois tombou na cadeira, chorando. Foi conduzida, como um zumbi, para fora da sala de aula. E não voltou naquela manhã.

. . .

– A Clarice está doente. Não pode atender ninguém – disse o pai dela ao telefone.

– Eu sei que ela passou mal hoje. Eu só queria saber se ela está bem.

– Vai melhorar. Agora preciso desligar. Com licença.

Coloquei o fone no gancho. E a ansiedade e a preocupação me atormentavam.

Minha mãe passou por perto.

– Preocupado com a amiga, filho?

– Sim… ela passou mal hoje. Não sei o que ela tem.

– Vai mais tarde na casa dela. Não agora, que você acabou de ligar. Mas usa uma desculpa qualquer. Diz que foi levar os cadernos com o material da aula de hoje.

Ela sorria.

Eu tinha uma mãe de ouro.

Uma das coisas que perdi.

 

III

 

Assim que o sol se pôs, coloquei a mochila nas costas e desci a rua em que morávamos. A casa dela era perto e nosso bairro era tranquilo. Eram tempos diferentes. Caminhar na rua após o por do Sol não era tão arriscado.

Que estou falando?

Caminhar fora de casa após o por do Sol sempre foi arriscado. Sempre foi e sempre vai ser. Nós não fomos feitos pra isso.

Quando a casa de Clarice surgiu em minha visão, outra coisa também surgiu.

Ele.

Não vi de onde veio. Quando vi estava na minha frente. O mesmo rapaz que dançara com ela naquela noite. Fincava aqueles olhos de lobo em mim. E sorria para mim.

– Eu lembro de você. – disse ele, e isso me surpreendeu. Porque ele não parecia ter prestado a mínima atenção em mim.

– Eu também lembro. Você é o…

Me dei conta de que não sabia o nome dele. Mas ele revelou.

– Ruthven. Carlos Ruthven. O pessoal me chama de Ru.

– Bom… legal te encontrar. Agora com licença, porque eu vou…

– Vai pra casa.

Fora dito em tom de ordem.

– Como é que é? – perguntei incrédulo.

– Vai pra casa. Você não vai ver ela hoje. Ela vai sair comigo.

– A Clarice? Ela ta doente, não vai sair com ninguém. Com licença, porque eu vou…

Eu tentei passar por ele. A mão dele foi mais rápida que os olhos. Agarrou-me pelo ombro e uma dor se espalhou pelo meu tronco. Me pôs de joelhos. Tentei afastá-la, mas meus braços não respondiam.

– Eu vou gritar… – gemi

– Vou dizer que tu ta sequestrando ela…

– Mas eu não estou. Ela quer vir comigo. Não quer?

E ela estava ali.

Mortalmente pálida. Parecia quase um fantasma. Também não a vira chegar. Olhava para ele com veneração.

– Sim, eu quero. – disse ela – Vai para a casa, Augusto. E não fala de nada disso pra ninguém.

– Acho que eu vou te fazer calar pra sempre, menino. – disse o outro, e sorriu.

Os olhos de Clarice se arregalaram. E se voltaram pra mim.

– Não… não machuca ele… por favor…

Ele me largou. A dor prosseguiu em meu corpo, mas senti alívio mesmo assim. Ao mesmo tempo, deu uma bofetada no rosto dela.

– Não me diz o que fazer, putinha…

Ela abaixou a cabeça e lágrimas tocaram o chão.

Me enchi de ódio. Eu juntei forças sei lá de onde e me levantei, avançando para ele.

Eu me lembro de Clarice gritando e da risada dele.

E depois foi escuridão.

 

IV

 

Acordei em minha cama. E até hoje não sei como cheguei lá. Acredito que ele teria me matado, mas alguém deve ter aparecido. Provavelmente cambaleei de volta semiconsciente. A dor no meu ombro permanecia. Era terça-feira de manhã. Acabava de despontar o sol. Minha mãe chorava ao pé da minha cama.

– Filho… fica calmo e escuta o que eu vou te dizer…

A notícia chegara. Clarice estava morta.

Morrera em seu quarto. A expressão “mal súbito” foi usada. Não, ninguém sabia ou supunha que ela tivesse saído durante a noite.

Cheguei a me perguntar se eu sonhara tudo aquilo, mas foi por um breve instante. Hoje eu sei melhor do que isso.

Um dia ou dois depois acompanhamos o caixão ao cemitério. Ela ainda era bela quando foi enterrada, apesar da marca de fraqueza que a doença que a matara deixara no cadáver. Minhas lágrimas foram discretas. Mas sofri como poucos ali.

Talvez como ninguém mais.

Porque eu sabia.

. . .

Eu sabia o que ele era. E imaginava que, quando ele chegara, ficaria por um tempo. Por isso aguardei. Comecei a circular, sempre após o por do Sol, próximo dos dois lugares onde o tinha visto. A casa de Clarice e a danceteria onde fôramos aquela noite. Talvez morasse perto e a observasse há muito tempo. Talvez costumasse ir na danceteria. Eram as pistas que eu tinha.

Negligenciei a escola. Minha família estranhou meus novos hábitos noturnos. Foram muitas as discussões e brigas. Ao longo dos meses seguintes, o relacionamento com meus pais degenerou. Nesse meio tempo me formei e fiz meus dezoito anos.

No fim, o encontrei por pura sorte. Voltando de um de meus passeios, com a mochila nas costas, vi ele sair de uma lanchonete da moda naqueles tempos. Trazia junto com ele uma outra moça a tiracolo, sorridente e encantada com seu príncipe.

Ambos embarcaram em um carro de luxo que aguardava ali fora. Um homem mais velho, de uns trinta anos ou mais, era o motorista. Devidamente uniformizado. A pose de rapaz rebelde não queria dizer que ele não tivesse dinheiro.

Havia um ponto de táxi por perto e segui o carro. Fui indicando o caminho como se o conhecesse, mas ficamos na cola do carro. Até ele chegar a uma casa ampla, de dois andares, cercada por uma grade com portão eletrônico. Não era uma mansão. Mas era uma boa casa. Classe média alta.

Passei com o táxi em frente e fui pra casa. Todo o dinheiro que eu tinha se foi nesta corrida.

. . .

No dia seguinte, com o Sol sobre o céu, eu fui até a casa.
Toquei a campainha, sempre com a minha mochila a tiracolo, e algo mais no bolso.

O homem adulto cruzou da porta até o portão e perguntou o que eu queria. Eu disse que tinha um pacote para entregar. Ele perguntou se dava para passar pelas grades. Falei que dava.E o atingi com o taser. Um mês fazendo os trabalhos escolares de um colega com os contatos certos me dera aquilo. Mantive a máquina junto do peito dele por bastante tempo. Quando retirei, ele caiu inerte no chão.

Eu tinha que ser rápido. Puxei o corpo, tateei o seu bolso e achei as chaves do portão.
Entrei no gramado, abandonando-o onde estava.

O interior da casa era limpo, arrumado, moderno e impessoal.

Mas eu sabia onde procurar.

A porta que levava para o porão era de madeira de lei, e tinha fechaduras que eu não conseguiria abrir. Sabe o que mais eu tinha em minha mochila?

Ácido.

Lá, descendo escadas de pedra e entre paredes de pedra, ele estava.

Dormia o sono dos mortos que eles dormem durante o dia. Tinha os olhos abertos e vidrados no teto. Um vão fora escavado na pedra do chão. Funcionava como uma rasa banheira. E estava inundada de sangue tingindo de vermelho seu corpo nu. Havia duas belas jovens mortas, uma de cada lado dele. Suas gargantas estavam abertas.

Ele não podia se mexer, mas seus olhos voltaram-se para mim.

Eu conhecia esse truque. Mirei meu olhar no peito dele. Onde batia seu coração.

Retirei de minha mochila o martelo, a estaca e a serra. Foram precisos muitos golpes de meus braços finos para finalmente fazer todo o caminho. Mas o perfurei de lado a lado. Ele gritou sem se mover. Um grito que nada tinha de humano.

Puxei o corpo trespassado para fora daquele leito macabro. Serrei o pescoço com fúria. Quando finalmente separei o corpo da cabeça, coloquei-a entre suas pernas.

Enfiei uma cabeça de alho inteira em sua boca que não mais se movia.

Os anos pareciam alcançar aqueles restos mortais. Mesmo morto, ele envelhecia rapidamente. A pele começava a descolar-se dos ossos. O tempo cobrava a sua dívida.

Eu o ajudei. Retirei a garrafa de gasolina que trouxera e derramei sobre aquela carne profana.

Risquei um fósforo. E no fim só sobraram cinzas.

E então as mãos me agarraram.

Quando ele não mais existia.

 

V

 

Três assassinatos.

É engraçado. Mas no fim fui para a cadeia pela morte do cão de guarda dele e de duas de suas vítimas. Que eu posso dizer do tempo da prisão? O inferno que todos imaginam, eu vivi lá. Decidi não contar a verdadeira história. Afinal, da prisão eu poderia sair um dia. Do sanatório, talvez nunca.

Carlos Ruthven fora o nome que ele dera. Era real? Não sei. O fato é que, oficialmente, ele não existia. O dono da casa era o homem que eu matara com o taser. Ataque cardíaco. Eu exagerara na dose.

Vinte anos depois aqui estou eu. Finalmente livre. Meus pais morreram enquanto estive preso.Os empregos que pude arrumar não são lá grande coisa, mas dão pra pagar a comida e algum aluguel barato. Um deles foi de guarda-carros na frente de uma boate.
Foi lá que a vi.

Ela passou por mim na entrada e olhou-me direto nos olhos. Não sei se era reconhecimento imediato. Porque eu mudei.

Mas ela não. Continua o mesmo rosto. Os mesmos olhos. O mesmo sorriso. Linda.

Mas está diferente. Há uma amargura e uma malícia que eu posso ver lá no fundo. Um prazer que parece se originar de fontes profanas.

Uma tristeza, também? Um lamento?

Ela estava acompanhada por um homem aparentemente bem mais velho da primeira vez. Eu a vi chegar e sair com três companhias diferentes até agora.

Mas não vi nenhuma das três depois.

– Clarice! – disse eu na rua escura, quando ficamos só nós dois, ela cinco metros na minha frente.

– O que você quer? – havia enfado em sua voz, quando ela se voltou para mim.

– Perdão… eu não pude te salvar…

– Foi com outra pessoa e foi em outra vida. Não há para quem pedir perdão agora. Vá para a casa e viva o tempo que você ainda tem. Eu não voltarei mais aqui.

– Não precisava ter sido assim. Eu não queria que tivesse sido assim. Se eu soubesse teria matado ele antes.

– Aconteceria com alguém. É inevitável. A maldição prossegue até o fim do mundo. Uma vítima se levanta de tempos em tempos. Especialmente quando o seu algoz morre.

– Tem algo que eu possa fazer? – lágrimas escorriam de meu rosto.

– Eu estive sozinha nos últimos anos. E vou continuar sozinha. Tenho me virado bem.

– Você não precisa estar sozinha.

Ela sorriu então. Aquele sorriso tinha parte da graça do sorriso de que me lembrava. Foi um bálsamo vê-lo. Uma névoa começou a ser formar ao redor de nós. Ela sussurrou e mesmo assim o sussurro chegou até os meus ouvidos, como se fosse proferido com os lábios em minha orelha:

– Cuidado… Eu sou tentada muito facilmente.

E o sussurro se transformou num riso e ela desapareceu no véu cinzento.

. . .

Esta história chega ao fim agora.

Eu terminarei estas páginas e as guardarei no casebre onde moro. Talvez alguém delas faça um bom proveito.

A Lua está linda. É a noite de aniversário da morte dela.

Minha janela está aberta. É o melhor convite possível sem palavras.

Eu te espero, Clarice.

 

Texto de: Luiz Hasse
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