Antes de iniciar esse manuscrito gostaria de me apresentar. Meu nome é Henry Faustino.  Sou analista sênior no Departamento de Administração de Crises uma das grandes nações da Terra. Ocupando essa posição, portanto tenho acesso a muitas informações secretas e privilegiadas, as quais algumas dessas pretendo revelar nesse documento. Para qual país eu trabalho não importa – e você já vai entender porque.

Em grandes universidades e em outras agremiações do gênero costumavam existir clubes exclusivos, ou para o mais paranoico, sociedades secretas. Eram clubes extremamente elitizados, onde apenas as pessoas de maiores posses tinham lugar. Não bastava apenas ter força de vontade, ou mesmo ser capaz ou inteligente. Ser apenas rico talvez não fosse suficiente. Você sim devia ser influente em seu meio social e econômico. Ou pelo menos que o seu pai fosse.

As pessoas desses clubes reuniam-se quase sempre em segredo e muitos deles possuíam rituais simbolizando eventos ou datas importantes para eles. Não raro alguns dos participantes deixavam-se levar pelas noções de exclusividade e começavam a adorar divindades ou símbolos esotéricos. Na esmagadora maioria dos casos essas eram meras alegorias. O que importava de fato era influencia que levava ao poder.

Alguns participantes desses clubes envolviam-se na política – em altos escalões da política.  Rumores corriam que presidentes de países eram preparados para governar dentro dessas sociedades. Então é correto assumir que seria possível que a vida de muitos cidadãos fosse afetada por pessoas oriundas dessas sociedades. Porém, evidentemente não apenas a vida de pessoas, mas a economia, política e relações exteriores. Devo salientar que não me atrevo a julgar a moralidade das pessoas que frequentavam esses clubes. Eu nunca os frequentei, apenas estou repassando adiante a informação conforme a recebi. Sem tirar nem por.

Durante a Conferencia de Paris em 13 de dezembro 2015, a Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas elaborou um tratado para que os países adotassem um padrão de redução de gases de efeito estufa. Isso levaria a empresas privadas e governamentais a adequar seus processos, produtos e parques fabris, adotando novas tecnologias de modo a controlar a emissão desses gases. Duas nações – as mais relevantes à época – recusaram-se a assinar o tratado. Alegaram que as empresas instaladas em seu território dispenderiam muitos recursos para se ajustar ao tratado e, portanto, perderiam competitividade ante aos concorrentes globais. Mesmo com a comunidade científica tentando sensibiliza-los e condena-los por essa recusa, eles foram irredutíveis. Na verdade tenho que confessar, falar em aquecimento global hoje me diverte. “Aquecimento global” haha.

O que não era de domínio publico era o fato de que essa decisão tinha uma forte influencia de membros de uma dessas sociedades secretas supracitadas. A maioria era de empresários e especuladores, que visavam o lucro da forma mais tranquila e rápida quanto o possível. Entretanto, alguns apoiadores tinham interesses muito mais sinistros. E seus objetivos estavam mais perto do que seus sonhos mais otimistas poderiam sugerir…

Depois daquele dia 13 de dezembro, conforme o tempo foi passando o mundo começou a ficar, digamos, estranho. Ataques terroristas se tornaram mais frequentes, guerras civis eclodiam em todos os pontos do planeta. Ninguém previu, mas algo estava para acontecer. Quer dizer, deixe-me ser justo aqui. Artistas, poetas, músicos e, sobretudo sensitivos, ao longo dos anos nos deram todas as deixas que algo mudara, mas como de costume, nós da comunidade científica tratamos de ignorá-los categoricamente.

Depois de cerca de cinco anos, a emissão de gases de efeito estufa, somados à superpopulação humana e a desenfreada exploração de recursos naturais, fizeram com que a temperatura do planeta tivesse um aumento médio de 1°C. Para um leigo pode não ser muito significativo, mas para estudiosos da área, é um valor alarmante. E o planeta respondeu de acordo. Algumas espécies animais e vegetais deixaram de existir, o nível dos oceanos aumentou, desertos se alastraram, fome em áreas mais carentes. E fome leva a conflitos violentos. Mas o mais aterrorizante foi o degelo das calotas polares.

O dia do maior desastre da história do planeta não foi de fato batizado, e não vou aqui surrupiar esse direito, que sem sombra de dúvida, não tenho. Mas posso contar como ele aconteceu.

Conforme o passar do tempo guerras civis tomaram lugar em virtude da fome e da crise econômica que assolava países emergentes, e muitos sensitivos começaram a ter sonhos macabros e tenebrosos. Muitos deles morreram durante o sono, repetindo cânticos em uma linguagem desconhecida à medida que suas vidas esvaiam-se. Foram registrados desastres naturais nas Américas em forma de furacões de classe F4 e terremotos com 6-7 pontos na escara Richter. Vulcões há muito adormecidos, como o Vesúvio, entraram em erupção na Europa, jorrando lava e cinzas nos céus. Um tsunami causou muitos estragos – e muitas vítimas – na Oceania.

O fato revelador que poucos sabiam era que os influenciadores da Conferencia de Paris eram na verdade pertencentes a um sinistro culto secreto. Um culto chamado de Irmandade Negra, um nome infantil, eu concordo, mas eles ajudaram a acelerar um evento indizível e derradeiro, que nunca deveria ter tomado lugar. Que não deveria ser.

O que me leva a lembrar do atentado em terras norte americanas referente a 11 de setembro de 2001. Esse fora um evento tão fantástico e aterrorizante que poucos julgavam que alguém teria a audácia de perpetrá-lo. E talvez seja esse justamente o motivo pelo qual o mesmo tenha acontecido. Quando temos a crença plena de que algo simplesmente não pode acontecer talvez seja o momento de estarmos mais vigilantes e céticos a respeito. Desculpe estabelecer essa comparação, talvez eu

Acerca de 2020 a calota polar da Antártica havia perdido cerca de 10% de sua área total, o que levou a comunidade cientifica juntamente a líderes mundiais a convocar em Viena uma nova conferencia para tratar dos assuntos da mudança de clima no planeta. Àquela altura os indícios do malefício do aumento da temperatura eram evidentes demais e a opinião publica insurgira contra as grandes potencias mundiais. Dessa feita houve adesão unanime ao novo tratado, e os países iniciaram o processo de adequação às novas normas de emissão de gases, e exploração de recursos naturais. Louvável, não fosse tarde demais…

No dia 14 de abril de 2021 recebi uma mensagem de um de nossos correspondentes internacionais. A mesma dava conta que a região das Montanhas Góticas da Antártica estava com um comportamento extraordinário. Não a fauna, tampouco o clima, mas a região em si. Rachaduras no solo de gelo estavam evidentes, quedas de blocos de gelo acima do normal. A região é notória por sofrer com terremotos, alguns deles cujas ondas sísmicas poderiam ser sentidas tão longe quanto a Austrália. Mas um terremoto é um fato raro e isolado, não ocorrem paulatinamente e em curtos espaços de tempo.

No dia 25 de abril alguns países enviaram cientistas para averiguar o que estava ocorrendo na região. Nenhum fato foi a publico, não havia motivo para as agencias de notícias reportarem esses fatos. E é sabido que notícias meteorológicas e geológicas não atraem muitos leitores, não é mesmo? Mas o fato é que

Em 05 de maio as expedições optaram por mover suas bases para longe das Montanhas Góticas, pois os terremotos estavam tão frequentes que quase não permitiam qualquer estrutura de se manter em pé por mais de alguns dias. Apenas alguns bravos cientistas optaram por permanecer no local.

Em 16 de junho foram reportados comportamentos peculiares no Monte Zanuck, o mais alto pico das Montanhas Góticas. Muitos terremotos tomaram lugar naquele ponto, numa frequência praticamente semanal. Até que em certo ponto as comunicações cessaram abruptamente com a equipe de cientista mais próxima, que reportava tais acontecimentos. Entretanto, numa das poucas estações avançadas que resistiram aos contínuos tremores na região, um grupo de pesquisadores conseguiu avistar a uma distancia de 30 quilômetros o que ocorrera naquele momento, e reportou para as autoridades de seu país de origem o que testemunhavam. Se você que estiver lendo isso for um homem da ciência, perdoe-me por soar inverossímil, eu mesmo duvidei da descrição até ver as imagens.

O que nos foi descrito foi que um grande segmento de terra e gelo havia se soltado da crosta terrestre e teria se erguido em pleno ar, emitindo um som estridente, como se fosse um uivo profano de magnitude cósmica. Esse som trincou em vários objetos de vidro e causou incomodo nos homens que o ouviram. Mas isso não foi algo repentino ou explosivo. Havia uma força descomunal em direção à atmosfera puxando – ou empurrando – aquele terreno. Tanto que o mesmo atingiu certa altura (no limite da troposfera, pelas estimativas) e, contrariando a lei da gravidade, manteve-se nessa altitude, não se precipitando ao chão. A maioria das transmissões cessou, e o restante eram erráticas e não totalmente inteligíveis. Algumas mais perturbadoras limitavam-se a replicar um cântico em uma língua desconhecida. Por favor,  Para mim ainda é muito difícil escrever sobre isso, minha educação intelectual vai contra tudo o que nos foi descrito e depois o que vi, mas foi o que aconteceu.

Menos de duas horas depois, todas as grandes autoridades do planeta estavam cientes desse acontecimento. Uma conferencia em vídeo foi convocada pelas Nações Unidas com a maioria dos países para discutir qual seria a abordagem a ser adotada. A primeira medida foi tratar essa informação como ultra secreta até que mais informações estivessem disponíveis. A ultima coisa que os líderes mundiais precisavam naquele momento era uma histeria em massa. Àquela altura todas as comunicações com a Antártica haviam silenciado por completo.

Os EUA adiantaram-se e enviaram caças militares de reconhecimento, com o compromisso de gerar imagens ao vivo para um circuito fechado entre os líderes que participaram da urgente conferencia. Eu era um dos que assistia às imagens em primeira mão.

Cerca de 24 horas após a partida, no dia 18 de junho, tivemos as primeiras imagens do avião batizado de “Ascender”. Tivemos sorte que víamos as imagens transmitidas remotamente, e não pessoalmente, pois certamente a maioria de nós teria desmaiado ou talvez perdido a razão permanentemente. Vou tentar o meu melhor para descrevê-las.

Primeiramente havia muita fumaça e poeira, tanto que alcançavam a estratosfera. Mesmo assim era possível notar que se tratava de um pedaço de terra de cerca de 20 quilômetros de circunferência, e grandes volumes de pedras ainda despencavam da parte superior do terreno que levitava no ar. Era partida ao meio, então na verdade eram duas seções. Aquela visão nos encheu de terror, pois nada havia nos preparado para aquilo. Mas o pior estava por vir. Quando o avião se aproximou ainda mais, notamos que o que flutuava não era terra ou gelo, era outro material. No vão que dividia as duas ilhas voadoras havia uma luz verde tremulante, pois uma substancia gelatinosa a circundava formando um corpo grotesco ao redor da luz, fazendo parecer um olho deformado. Tentáculos gigantes pendiam desse mesmo vão alcançando o chão, e incontáveis corpos gelatinosos, que não pudemos identificar apropriadamente, caiam em direção ao solo e ao oceano abaixo. Por fim chegamos a uma terrível e indizível conclusão, aquilo era um ser senciente cujo propósito alienígena nos era desconhecido. Aquele material que notamos perfazia o seu próprio corpo e o que despencava de suas costas eram as próprias Montanhas Góticas. Ao aproximar a aeronave da criatura, a voz do piloto mudou, e o cântico que ouvimos antes dos cientistas se repetiu através dos monitores de nossa sala de guerra. Em seguida a transmissão cessou e a imagem sumiu. Algumas pessoas mais sensíveis que estavam na sala tiveram que se retirar ou desmaiaram ao vislumbrar aquilo. Então o nosso terror deu lugar ao desespero. De uma hora para outra nos vimos temendo pelo futuro da humanidade.

– Oh deus, Lovecraft tinha razão – um dos colegas analistas ao meu lado murmurou, à medida que uma lagrima descia em seu rosto.

O analista estava completamente certo. Uma das criaturas similar àquelas que Lovecraft descrevia – um Grande Antigo – em seus contos funestos do século passado estava ali, na nossa frente, observando-nos com seu hediondo olho esverdeado. E se o seu propósito fosse o mesmo que o das escrituras do autor, estávamos encrencados. Condenados, mais certo.

Depois que outros três aviões de reconhecimento sumiram ao se tentar colher mais informações, o aviso ao mundo estava dado, a criatura era hostil. Entretanto, os voos mal fadados de reconhecimento proveram uma informação de vital importância e extrema preocupação: o monstro estava se locomovendo pelo céu. A qual velocidade e em que direção, impossível saber, mas chegaria à civilização eventualmente.

No dia seguinte, dia 19, a mobilização militar das potencias mundiais foi intensa. Tanto a Marinha quanto a Aeronáutica juntaram-se no maior exército mundial jamais reunido no intuito de destruir a ameaça global que nos cercava. Seria contraproducente tentar contar o numero de navios e aviões que saíram de seus países natais em direção a Antártica. Os navios na verdade seriam utilizados para proteger a costa dos continentes de destino prováveis da criatura, pois mesmo sem saber ao certo a velocidade que a mesma se locomovia, foi de senso comum assumir que os navios não seriam rápidos o suficiente para investir contra o monstro em alto mar.

Dia 21 os aviões localizaram novamente o Grande Antigo e perpetraram uma série de ataques com mísseis. Os pilotos descreveram que ao redor da criatura se formara uma nuvem negra, de cerca de cinco quilometro de circunferência, com relâmpagos em seu interior, o que dificultou os ataques.  Como era de se esperar a investida fora infrutífera, porém os aviadores conseguiram colher mais inteligência na ocasião. Por exemplo, eles conseguiram avistar com mais clareza os corpos gelatinosos e esfumaçados que caiam do corpo do monstro nas alturas. Eram apêndices horrorosos esverdeados que deslizavam por sobre a agua, mas mesmo com sinal visual claro e limpo, as criaturas eram avistadas de relance, devido a fumaça negra que as cercava. Cerca de metade dos aviões não retornaram para casa naquele dia, e outra parte dos pilotos e co-pilotos voltava falando frases desconexas ou em língua desconhecida com o olhar ao longe.

No dia seguinte foi a vez dos bombardeiros pesados, guiados autonomamente, sem um piloto humano. Foram planejadas missões com poderosas bombas, e seriam lançadas cerca de 40 delas por viagem. As bombas seriam mortíferas em áreas urbanas. Tinham uma potencia de 44 toneladas de TNT. Sua área de destruição era de 3 quilômetros. No dia 22 a criatura fora bombardeada com cerca de duzentos artefatos desse tipo. As explosões podiam ser ouvidas a quilômetros de distancia, mas nenhum sinal de destruição da criatura ou mesmo de refrear o seu avanço. Ou seja, havíamos falhado novamente.

Uma nova reunião urgente fora convocada pelas Nações Unidas, pois pelas estimativas o Grande Antigo estava rumando para a Patagônia e não demoraria a chegar. Então era vital discutir os próximos passos sobre uma questão crucial: o uso de bombas termonucleares. Depois de algumas horas de discussão, EUA e Rússia concordaram que pelo fato das bombas não-nucleares terem falhado, não havia muita alternativa àquela altura. Abririam seu arsenal de artefatos nucleares. Alguns mais maldosos diziam que ambas nações estavam esperando esse momento.

Ficou de comum acordo que não poderia haver mais delongas e que esse ultimo ataque deveria ser definitivo. Sendo assim, ambas as nações acordaram em utilizar suas bombas mais mortíferas, que eram as de hidrogênio de 45 megatons de TNT cada uma (3000 vezes mais potentes que as empregadas em Hiroshima e Nagasaki). Físicos nucleares aconselharam a não utilizar mais do que dez bombas para alvejar a criatura, pois os efeitos seriam imprevisíveis em face a  tamanha destruição. Todavia estavam otimistas quanto à precipitação nuclear, pois a detonação ocorreria no ar ou no oceano, minimizando os efeitos. A opinião publica sabia que havia um conflito acontecendo ao sul do Oceano Atlântico, mas como tratava-se de informação ultra secreta nenhum detalhe foi aberto para as agencias de notícias.

No dia 23 de junho, dez aviões autônomos levantaram voo carregando uma dessas bombas cada um. Todos que sabiam dessa operação foram dormir bem menos tranquilos naquela noite. No dia 24 as aeronaves alcançaram a nuvem negra relampejante que cercava o Antigo. O primeiro avião adentrou a nuvem e a ogiva fora detonada. O brilho emitido pela bola de fogo foi vista até a 1000 quilômetros de distancia, o cogumelo de fogo e fumaça ergueu-se até a estratosfera – cerca de 95 quilômetros de altura. Depois da quarta detonação o planeta como um todo escureceu. As ondas eletromagnéticas emanadas no ponto de impacto fizeram aparelhos elétricos e eletrônicos entrar em pane ao redor do globo. Em outras palavras, estávamos cegos, surdos e mudos. Então não sabíamos se o Grande Antigo fora destruído de fato, se o plano funcionara. Não sabíamos se estávamos salvos.

Depois de muitas horas, quando as comunicações se reestabeleceram, recebemos relatos da América do Sul dando conta que apesar das detonações terem cessado, no horizonte ainda era possível vislumbrar uma luz alaranjada / amarela. Nossos cientistas confirmaram, eram múltiplas tempestades de fogo, que são comuns pós-detonações atômicas. Mas nesse caso, com dez explosões subsequentes, a tempestade teria durado muito mais do que o antecipado.

As Nações Unidas emitiram uma nota oficial aos meios de comunicação informando que a súbita pane eletrônica era oriunda de um teste nuclear mal sucedido no Atlântico Sul,  o que até aquele momento contentara a população, salvo ativistas contrários aos arsenais nucleares que se pronunciaram condenando tais “testes”.

A vistoria da área de onde foram deflagradas as ogivas ainda não seria possível, devido à radiação à precipitação de chuva negra que tomava conta de muitos quilômetros ao redor do ponto de impacto. Então sem a devida confirmação, nossa única opção era rezar pelo melhor.

Então caro leitor, imagine qual não foi nosso desespero ao perceber que, dois dias mais tarde, ao nascer do sol, o sol não nasceu. A nuvem de fuligem se alastrara pela atmosfera como uma praga de gafanhotos. Dezenas de milhões de quilos de fuligem provindas das tempestades de fogo formavam uma cortina sobre a Terra, que permaneceria ali por no mínimo dois anos. E foi nesse dia que o mundo acabou E foi nesse dia que a civilização humana acabou. Milhares de anos de conhecimento e avanço tecnológico tornar-se-iam cinzas.

Naquela mesma semana iniciou-se nossa expedição para o abrigo nuclear nacional no qual nos encontramos nesse momento. Entre o alto escalão do governo, equipe de apoio e familiares, somou-se cerca de duzentas pessoas. Que é de onde escrevo esse documento. Estamos alocados aqui faz três meses agora. Mas sabemos que do lado de fora uma crise alimentícia tomou o planeta como um todo. Pelo menos um terço da população mundial vai morrer pela fome nos próximos meses. Outra boa parte, será em guerras por comida. Estimamos que toda a vida animal e vegetal na superfície será extinta nos próximos seis meses. Apenas quem conta com uma espécie de abrigo anti desastre nuclear tem alguma chance de sobrevivência. O nosso permite que vivamos sem privações de comida, água ou ar por pelo menos um ano e meio. Mesmo assim nossos biólogos estão trabalhando na possibilidade de criar culturas de musgos e cogumelos, que não necessitam da luz solar para crescerem. Porém os efeitos do confinamento já esta se mostrando em nossa equipe com discussões e brigas chegando às vias de fato, por razões banais. E mesmo que consigamos sobreviver até que a fuligem se precipite da atmosfera, o que encontraremos lá fora quando sairmos? Não tivemos confirmação de fato de que o Antigo tenha sido destruído na investida nuclear. De fato, durante a noite eu tenho certeza que escuto alguém de nossa equipe, enquanto dorme, entoar os cânticos que ouvimos dos cientistas da Antártica e dos pilotos dos aviões militares.

Vou manter esse documento em um cofre lacrado, mas não trancado, para, caso não consigamos sobreviver e a humanidade se recupere desse golpe terrível, alguem possa ter acesso a uma fonte que explique como tudo isso ocorreu. Conforme escrevo pagina por pagina, três colegas vão traduzindo para as outras cinco línguas mais faladas no mundo. Espero que você fale algumas delas, e que se fale outra, espero que não seja a Novilingua de Orwell. Haha.

Chega de piadas por hoje, tenho que me preparar para dormir. Espero que essa noite eu não ouça nenhum cântico.

Sinceramente,

Henry Faustino

Texto de: Adriano Cardoso

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